
Leonardo Boff – Adital
“O ódio contra o PT é menos contra PT do que contra o povo pobre que por causa do PT e de suas políticas sociais de inclusão, foi tirado do inferno da pobreza e da fome e está ocupando os lugares antes reservados às elites abastadas.”
Mas não foi esse comportamento civilizado que triunfou. Ao contrário: os derrotados procuram por todos os modos deslegitimar a vitória e garantir uma reviravolta política que atendesse a seu projeto, rejeitado pela maioria dos eleitores.
Para entender, nada melhor que visitar o notório historiador, José Honório Rodrigues que em seu clássico Conciliação e Reforma no Brasil (1965) diz com palavras que parecem atuais:
”Os liberais no império, derrotados nas urnas e afastados do poder, foram se tornando além de indignados, intolerantes; construíram uma concepção conspiratória da história que considerava indispensável a intervenção do ódio, da intriga, da impiedade, do ressentimento, da intolerância, da intransigência, da indignação para o sucesso inesperado e imprevisto de suas forças minoritárias” (p. 11).
Esses grupos prolongam as velhas elites que da Colônia até hoje nunca mudaram seu ethos. Nas palavras do referido autor:
“a maioria foi sempre alienada, antinacional e não contemporânea; nunca se reconciliou com o povo; negou seus direitos, arrasou suas vidas e logo que o viu crescer lhe negou, pouco a pouco, a aprovação, conspirou para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que continua achando que lhe pertence” (p.14 e 15).
Hoje as elites econômicas continuam a abominar o povo. Só o aceitam fantasiado no carnaval. Mas depois tem que voltar ao seu lugar na comunidade periférica (favela).
Lamentavelmente, não lhes passa pela cabeça que “as maiores construções são fruto popular:
- a mestiçagem racial, que criava um tipo adaptado ao país;
- a mestiçavel cultural que criava uma síntese nova;
- a tolerância racial que evitou o descaminho dos caminhos;
- a tolerância religiosa que impossibiltou ou dificultou as perseguições da Inquisição;
- a expansão territorial, obra de mamelucos, pois o próprio Domingos Jorge Velho, devassador e incorporador do Piaui,
- não falava português; a integração psico-social pelo desrespeito aos preconceitos e pela criação do sentimento de solidariedade nacional;
- a integridade territorial;
- a unidade de língua e finalmente a opulência e a riqueza do Brasil que são fruto do trabalho do povo.
E o que fez a liderança colonial (e posterior)? Não deu ao povo sequer os beneficios da saúde e da educação, o que levou Antônio Vieira a dizer: ’Não sei qual lhe faz maior mal ao Brasil, se a enfermidade, se as trevas” (p. 31-32).
A que vêm estas citações? Elas reforçam um fato histórico inegável: com o PT, esses que eram considerados carvão no processo produtivo (Darcy Ribeiro) e o rebutalho social, conseguiram, numa penosa trajetória, se organizar como poder social que se transformou em poder político no PT e conquistar o Estado com seus aparelhos.
Apearam do poder, pelo voto, as classes dominantes; não ocorreu simplesmente uma alternância de poder, mas uma troca de classe social, base para um outro tipo de política. Tal saga equivale a uma autêntica revolução social, pacífica e de cunho popular.
Isso é intolerável para as classes poderosas que se acostumaram a fazer do Estado o seu lugar natural e de se apropriar privadamente dos bens públicos pelo famoso patrimonialismo, denunciado por Raymundo Faoro.
Por todos os modos e artimanhas querem ainda hoje voltar a ocupar esse lugar que julgam de direito seu. Seguramente, começam a dar-se conta de que, talvez, nunca mais terão condições históricas de refazer seu projeto de dominação/conciliação. Outro tipo de história política dará, finalmente, um destino diferente ao Brasil.
Para eles, o caminho das urnas se tornou inseguro pelo nível crítico alcançado por amplos estratos do povo que rejeitaram seu projeto político de alinhamento neoliberal ao processo de globalização, como sócios dependentes e agregados.
O caminho militar será hoje impossível dado o quadro mundial mudado. Cogitam com a esdrúxula possibilidade da judicialização da política, contando com aliados na Corte Suprema que nutrem semelhante ódio ao PT e sentem o mesmo desdém pelo povo.
Através deste expediente, poderiam lograr um empeachment da primeira mandatária da nação. É um caminho conflituoso pois a articulação nacional dos movimentos sociais tornaria arriscado este intento e talvez até inviável.
O ódio contra o PT é menos contra PT do que contra o povo pobre que por causa do PT e de suas políticas sociais de inclusão, foi tirado do inferno da pobreza e da fome e está ocupando os lugares antes reservados às elites abastadas. Estas pensam em fazer, com boa consciência, apenas caridade, doando coisas, mas nunca buscando a justiça social.
Antecipo-me aos críticos e aos moralistas: mas o PT não se corrompeu? Veja o mensalão? Veja a Petrobrás? Não defendo corruptos. Reconheço, lamento e rejeito os malfeitos cometidos por um punhado de dirigentes.
Devem ser julgados, condenados à prisão e até expulsos do PT. Traíram mais de um milhão de filiados e principalmente botaram a perder os ideais de ética e de transparência.
Mas nas bases e nos municípios – posso testemunhá-lo em dezenas de assessorias – vive-se um outro modo de fazer política, com participação popular, mostrando que um sonho tão generoso não se deixar matar assim tão facilmente: o de um Brasil menos malvado, mais digno, justo, pacífico.
As classes dirigentes, por 500 anos, no dizer rude de Capistrano de Abreu, “castraram e recastraram, caparam e recaparam” o o povo brasileiro. Há maior corrupção histórica do que esta?
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Uma resposta
Com todo respeito que tenho pelo grande Leonardo Boff, acho que aqui, em política, ele está fazendo “uma sopa de letrinhas” ou, no mínimo, confundido “alho com bugalho”.
A indignação que se observa, no momento, de quem não votou no PT, na Dilma, não tem a mais mínima possibilidade de estar voltada “contra o povo pobre”, porque o PT (?) o tirou do “inferno da pobreza e da fome”, se é que tirou mesmo. As políticas sociais do PT se limitaram a conceder “bolsas”, construir casas de péssima qualidade e outras migalhas. Isso não causa inveja a ninguém e muito menos, leva esses “pobres” a ocuparem os lugares reservados (?) às elites. Quem melhorou de vida é porque trabalhou muito e honestamente.
A indignação, repito, que não tem nada a ver com “ódio”, se dirige é contra a classe dirigente do PT que se apossou do governo, e só tem feito bobagens e patrocinado uma roubalheira (mensalão, petrolão) sem limites.
Para onde o PT levou o Brasil, depois de 12 anos de des+governo?
O que se vê é recessão, inflação fora de controle,aumento de impostos, aumento de tarifas de tudo, a saúde e a educação sucateadas, a violência só aumentando, os transportes públicos uma miséria.
O quê os pobres têm a ver com isso?