O JEJUM QUE EU APRECIO

A espiritualidade nos desperta para várias reflexões. Isto é muito bom e revela a diversidade de carismas que o Espírito de Deus suscita em nós, a partir de múltiplas interpretações que podemos dar aos mesmos fatos.

Em geral vem à nossa mente a saga libertadora de Deus, que nos arrancou com mão forte da opressão do pecado, presente em todos os tempos, nas relações entre os homens. Sempre houve – e a história é pródiga em no-lo revelar – opressores que sobre os mais diversos motivos sacrificaram o povo.

A mim, mais uma vez, se me suscita a questão do jejum. Aos católicos é pedida a prática do jejum, apenas dois dias por ano: na quarta-feira-de-cinzas, como um primeiro gesto de penitência quaresmal, e na sexta-feira-santa, como memorial de respeito ao generoso sangue de Cristo em nosso favor derramado no Calvário. Muitos não fazem jejum; poderíamos jejuar mais. Ao invés do jejum, muitos de nós transformam o dia de reflexão em oportunidade para comer melhor, um prato mais sofisticado (e mais caro até).

No nordeste, onde morei por cinco anos, as famílias fazem a comida e não comem. Ficam a espera dos pobres (que fazem um jejum compulsório o ano todo), eles dizem que vêm buscar o “nosso jejum” e, pelo menos um dia no ano, comer como gente. Se for analisado com olhos pragmáticos, o jejum é coisa medieval, ultrapassada, uma legítima tortura, sem o mínimo fundamento. No entanto, ele traz consigo uma forte carga social e teológica, representando, primeiro a sensação do homem sem Deus, e depois, pelo que é capaz de nos levar a sentir, um dia que seja, a fome crônica de tantos irmãos nossos.

Jejum é uma atitude de respeito, interiorização e, sobretudo, de fé. Os santos e os místicos tinham no jejum o ponto alto de sua espiritualidade, na medida em que a privação do alimento lhes revelava, a tragédia de uma vida sem a medida do transcendente e da solidariedade. Fazer jejum é buscar inspiração para uma aproximação com Deus através de atos concretos com o outro.

Jejuar é deixar de comer, mas também é pensar nos projetos de Deus. Ele mesmo é que nos diz: “O jejum que eu aprecio é acabar com a injustiça, libertar os oprimidos, repartir a comida com quem tem fome e mostrar-se solidário com quem sofre” (cf. Is 58, 1-12). Quando agimos com esse desprendimento e com essa visão de infinito, nossa luz brilha como a aurora. As feridas cicatrizam. Oramos e Deus responde: “Estou aqui!”.

Antônio Mesquita Galvão

Teólogo e biblista. Doutor em Teologia Moral.

 

Respostas de 4

  1. Ótimo texto. Para mim, jejum e abstinência que não levam ao amor ao próximo tem pouco valor. Para que na sexta feira santa não comer carne e em vez disso comer um belo bacalhau que custa o dobro? Devia-se comer nem carne nem peixe e doar o dinheiro poupado.
    Na minha infância se fazia jejum toda a quaresma: Não se comia por exemplo balinhas ou chocolate – o dinheiro poupado ia para Misereor, não se ia ao cinema – o dinheiro poupado ia para Misereor e assim por diante. Eramos então um pouco como os Nordestinos daqui, que geograficamente também estão mais pertos da minha terra (Alemanha)
    Irene

  2. Grato, prezada Irene, pelo oportuno e verdadeiro comentário.
    quantos “cristãos” deixam da carne bovina, mas deixam também – como é lamentável! – de amar ao próximo, qque é o grande mandamento do Cristo Jesus.
    Giba

  3. Parabens ao nobre teólogo Antonio Mesquita Galvão,”o JEJUM QUE EU APRECIO”,é uma reflexão profunda que nós cristãos precisamos fazer para entender melhor o grande projeto DIVINO.Lucia Moura

  4. Parabéns, prezada Lúcia, por seu válido comentário.
    Continue como leitora assídua de nosso site.
    Giba

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