Gildean Farias entrevista João Tavares sobre o Movimento dos Padres casados no Brasil. Para o Jornal “O Imparcial” que publicou um resumo, na edição de 22/02/2015
“Minha e nossa opinião é que o melhor seria o celibato opcional, pois ele nada tem a ver com o sacerdócio: são coisas distintas e uma, apesar da teimosia de boa parte da hierarquia de Igreja que, por conveniência, fica inventando argumentos fracos e continuamente desmentidos pela história, de que o celibato é muito conveniente ao sacerdócio”.
1 – Qual o papel da Associação Rumos?
R/ O papel da Associação Rumos é ser o suporte jurídico do MFPC (Movimento das Famílias dos Padres Casados do Brasil). Mas o mais importante é o MFPC
2 – Quem pode participar? É vinculada a Igreja Católica?
R/ Pode participar:
- o padre casado, esposa e filhos
- seminaristas que fizeram Teologia
- religiosos e religiosas que deixaram a Odem ou Congragação
- pessoas com idade mínima de 16 anos completos, que se identificam com as finalidades de Associação Rumos;
Não é vinculada juridicamente à estrutura da Igreja Católica. Somos, na grande maioria, católicos praticantes, mas independentes dos bispos e do papa, como instituição.
3 – No seu mais recente pronunciamento sobre o celibato, o papa Francisco citado como admitindo que a exigência havia “criado problemas” para a Igreja. A associação tem autorização do papa para funcionar? Como é a relação com ele e com os demais setores da Igreja Católica?
R/ Como respondi acima, como institução, somos independentes da estrutura da Igreja Católica. Nossa relação institucional com o papa e os bispos é de independência, mas de busca do diálogo possível: estamos sempre abertos ao diálogo construtivo com eles e já o vimos tentando há décadas. Várias tentativas foram feitas, inclusive várias cartas de grupos de vários países foram enviadas ao papa. Uma dessas cartas foi entregue em mãos, a João Paulo II, em Fortaleza, na sua primeira viagem ao Brasil, pelo cardeal Lorsheider, arcebispo local. Joõo Paulo II, de maneira muito malcriada, ao saber que era de Padres casados, rasgou-a e jogou no chão. É por essas e por outras que a esse “santo” eu não rezo.
Infelizmente, eles não estão interessados neste diálogo. Salvo raras exceções. Somos uma pedra no sapato deles, um desafio contínuo às velhas estruturas de poder e de abuso de poder na Igreja. Francisco está se mostrando aberto e preocupado com o assunto, mas ainda tem muitas coisas mais urgentes a fazer e a resolver.
Os bispos, apesar da recomendação explícita do documento de Aparecida, no seu n° 200:
“Levando em consideração o número de presbíteros qua abandonaram o ministério, cada Igreja particular procure estabelecer com eles relações de fraternidade e mútua colaboração conforme as normas prescritas pela Igreja” ,
não têm feito nada ou quase nada para implementar essa recomendação. Ou porque discordam ou porque, provavelmente, não têm coragem de um diálogo aberto e franco com os padres casados, em geral pessoas sérias e bem preparadas, intelectual, espiritual e pastoralmente.
A grande maioria dos bispos do Brasil foi nomeada nos pontificados retrógrados de João Paulo II e Bento XVI, de uma Igreja que olhava mais para dentro de si do que para fora, para as periferias. E nós estamos na periferia. Para esses dois papas e para muitos bispos criados por eles, nossa existência como movimentos organizados, incomoda bastante.
4 – Qual sua opinião sobre a questão do celibato na Igreja Católica?
R/ Minha e nossa opinião é que o melhor seria o celibato opcional, pois ele nada tem a ver com o sacerdócio: são coisa distintas e uma, apesar da teimosia de boa parte da hieraquia de Igreja que, por conveniência, fica inventando argumentos fracos e continuamente desmentidos pela história, de que o celibato é muito conveniente ao sacerdócio. Num claro e teimoso desrespeito às leis da natureza humana e, a meu ver, do próprio Deus que fez a humandidade constituída de homens e mulheres.
Esses argumentos são muito mais econômico-políticos do que bíblicos, teológicos, sociológicos ou psicológicos. E têm muito a ver com a lógica constantiniana de PODER, instituído na Igreja a partir do séc. IV, quando Constantino fez dos bispos príncipes e chefes no Império Romano e os vestiu de púrpura, estolas, longas e vistosas vestes, mitras, báculos, etc.
Sabemos que o celibato, o não ter família, daria ao padre muito mais disponibilidade para o serviço do seu ministério pastoral. Na condição de que:
- ele usasse todo o seu tempo para isso, o que, de fato, frequentemente não acontece;
- e de que ele tivesse uma profunda espiritualidade e uma boa vivência com o povo cristão e com os colegas para, assim, se aguentar equilibradamente e dignamente na sua condição de celibatário: coisa nada fácil, pois é uma violência à natureza que nos fez homens e mulheres e age continuamente nessa lógica.
Além disso, o celibato, o não ter esposa e filhos, deixa o padre muito mais exposto a falhas relativas à afetividade e a uma sexualidade integradora e madura, necessárias para o desabrochar completo e harmonioso da pessoa humana, macho ou fêmea que ela seja.
Daí a grande, vergonhosa e escandalosa onda de padres com amantes, homens ou mulheres, às vezes com filhos que não assumem, pedofilia, ganância, alcoolismo, vida de playboy irresponsável, etc.
5 – A associação defende o fim do celibato ou apenas revisão da questão celibatária?
R/ Defendemos o celibato opcional, pelos motivos expostos acima. Mas exigimos tanto dos padres celibatários como dos que eventualmente casarem antes de serem ordenados, dignidade e doação séria ao seu ministério.
6 – Muitos padres e demais católicos chegam a falar em uma ‘escassez de padres’. Você concorda com isso? Se sim, qual seria o/os motivos que estariam fazendo com que tenha poucas vocações ao sacerdócio?
R/ Tenho a certeza que o Espírito Santo guia a sua Igreja na história, se bem que de maneira misteriosa. Essa aduzida escassez de padres pode ser relativizada. Qual seria, no Brasil, hoje, o número ideal de padres? Um para 1000 ou 2000 fieis, como até ha pouco na Europa? No Brasil hoje, temos um padre para cerca de 6000 católicos, ou um para cada 10.000 habitantes.
O “bom número” depende muito do tipo de trabalho essencial que o padre deve fazer na Igreja. E isso, eu garanto, ninguém sabe mais ao certo.
Muitas coisas que o padre faz, já podem e devem, hoje, ser feitas por leigos. Mas padres e bispos, educados ou adestrados para um certo tipo de pastoral autoritária, onde tudo depende só deles, muito dificilmente aceitam repartir o poder na Igreja: querem colaboradores totalmente submissos, sem poder de decisão na pastoral e na administração da Igreja. E isso não dá mais.
Para esse tipo de Igreja, acho que já temos padres demais. Mas, infelizmente, parece que nos seminários continuam a formar nesse modelo autocrático e monocrático de Igreja. Pior, para esse modelo de Igreja, parece que as vocações estão até aumentando. Enterraram o Concílio Vaticano II da Igreja-Serviço e quiseram voltar para Trento, para a Igreja-Poder.
O papa Francisco está querendo mudar, voltar à simplicidade do Evangelho, à Igreja-Serviço que vai às periferias, lá onde estão as ovelhas, mas muitos cardeais e bispos estão lhe fazendo dura e clara oposição, pois essa nova visão de Igreja os obrigaria a se desinstalarem, a irem para o meio do povo e a ficar “com cheiro de ovelhas”, com conclama Francisco.
Depois de 44 anos de volta à Igreja poder, de 1979 a 2013, não vai ser fácil
7 – No Brasil, estima-se que sete mil padres já abandonaram a batina para poder se casar. Qual, na sua opinião, seria a razão para que se chegasse a esse índic?
R/ Temos um estudo estatístico de 1990:
- 40%, saiu por causa o celibato obrigatório
- 14% por causa da estrutura obsoleta da hiararquia da Igreja
- 8% por se sentirem isolados na hierarquia
- 9% por crise existencial
8 – Existe algum índice do número de padres que deixaram a batina para casar no Maranhão?
R/ – Sim, somos cerca de 30 conhecidos e em certo contato e mais uns dez ou 15 que sabemos que existem mas que estão arredios.
9 – Você acha que o fim do celibato ou a revisão dessa questão, com a flexibilização, ajudaria a aumentar o número de padres na Igreja?
R/ Sim. Com toda a certeza.
10 – Há quanto tempo você deixou a batina para casar? Tem filhos?
R/ Deixei há 37 anos. Tenho duas filhas e uma neta.
11 – Como é a sua relação com sua família (pai, mãe, irmãos…), e com a comunidade em que vive?
R/ Muito boa. Quando deixei, sofreram um pouco, mas entenderam e receberam muito bem minha esposa e filhas. Com a comunidade, muito normal: a comunidade cristã está muito mais prepara do que a hierarquia para entender e aceitar a realidade dos padres que casam. Nunca escondo minha condição de padre casado.
12 – O que mudou (se mudou) na sua relação com Deus e com o sagrado, após deixar a batina para se casar?
R/ Com Deus, nada mudou: a fé é a mesma. Talvez até cresceu. A vontade de trabalhar no Reino de Deus, naturalmente dentro de novas circunstâncias e limites, continua.
Com o sagrado, no sentido de partilha na paróquia, movimentos, mudou bastante. Também porque discordo bastante do tipo de pastoral dos “novos” padres. O que mais me entristece é a pouca preparação humana, intelectual, espiritual e pastoral dos padres e bispos: faltam objetivos claros, falta uma séria pastoral de conjunto, falta uma visão clara de Igreja, em que rumo caminhar. A Catequese, que deveria ser a base de uma inteligência e vivência da Fé, se resume a um ano ou pouco mais. Por isso continuamos a ser uma Igreja com cristãos profundamente ignorantes das bases bíblicas e racionais da nossa fé.
13 – Alguns casos de pedofilia e homossexualismo no clero vieram à tona nos últimos anos. Você acha que isso tem alguma relação com a questão da exigência do celibato?
R/ Sim. com certeza, por mais que a hierarquia tente negar. Mesmo sendo verdade que o homossexualismo existe em todas as classes sociais, o clero e religiosos e religiosas, presos, muitas vezes contra a sua escolha livre, mas porque foi o jeito, à condição necessária para se tornarem padre ou freira, também estão muito sujeitos a esses impulsos de satisfação sexual com os meios e as pessoas acessíveis.
E, tendo em conta a presença contínua ou frequente, junto com certa autoridade real ou, pelo menos moral, que exerciam/exercem sobre seus fieis e alunos, isso facilitava ou facilita muito os numerosos e gravíssimos abusos de que há mais de dez anos se vem falando e que foram um verdadeiro tsunami na Igreja Católica.
João Tavares
Do Setor de Cominucação do MFPC. Editor do Site: https://padrescasados.com.br/
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Respostas de 2
João,
muito bem falado!
Porém, te esqueceste de um item, uma vantagem que o padre casado tem sobre o padre celibatário: Um Padre, pároco, que tem família é muito mais capaz de atender aos problemas dos seus fieis que teem família. O que um padre celibatário entende de problemas que surgem entre o casal e entre pais e filhos? O quê ele sabe da luta dos pais para dar aos seus filhos comida, roupa, escola etc…..
Muitas vezes ouvi: “Mas eles veem de uma família, sabem que é vida na família”. Mas naqueles tempos em que eles eram crianças os tempos eram outros, e mais, os filhos dificilmente entendam todos os problemas que os pais teem entre eles e com a criação dos filhos.
abraço
Irene
Irene, assino em baixo de tua observação.
Tenho 48 anos de idade, fui ordenado aos 27 anos de idade. Durante 15 anos fui vigário e pároco em São Paulo e estou a 03 anos casado, em processo de acolhida na Venerável Ordem Católica de Santo André, fundada por Dom Salomão Ferraz, que foi bispo auxiliar da Arquidiocese de São Paulo. Dom Salomão Feraz foi o primeiro padre e bispo católico, apostólico romano, casado, aceito pelo Papa João XXIII. Dom Salomão participou ativamente do concílio Vaticano II e suas teses e intervenções no concílio foram sobre a Missa em língua Vernácula e o celibato facultativo. Ele fundou a Ordem de Santo André (Padres Missionário Andrelinos) em 1928. A referida congregação sempre teve padres solteiros e casados. Nesses tempos atuais, mantem em São Paulo 06 paróquias, as quais sempre com grande participação de fiéis e todos sabem que o padre é casado, aliás, para eles o estranho é quando recebem a visita de algum padre solteiro.
Conforme um comentário feito, em outro tema, por um padre de rito ortodoxo, no Brasil houve grandes bispos que defenderam o celibato facultativo e não ficaram somente no discurso, ao contrário, fizeram acontecer, isto é, iniciar um movimento de padres casados (Cônego Amorim, Dom Carlos Duarte e Dom Salomão Ferraz) e em atualmente temos a figura carismática de Dom Emmanuel MILINGO (bispo legitimamente ordenado pelo papa Paulo VI), foi arcebispo da diocese de Lusaka (África), era amigo do Papa João Paulo II, no entanto, casou-se e percorre o mundo animando e organizando os padres casados que desejam, verdadeiramente, continuar no exercício do ministério ordenado.
Creio, piamente, que este é o momento oportuno para os padres casados e suas digníssimas esposas (sacerdotisas) se levantarem e formarem fileiras, criando um clero paralelo ao clero “celibatário”. O Papa Francisco já deu a dica, ao dizer que devemos buscar alternativas. Então, não fiquemos esperando esses bispos pensarem ou apresentarem um projeto ao Papa, pois eles não querem padres casados e alguns têm medo dos padres casados. Vamos nós apresentarmos ao papa um projeto onde os padres casados podem voltar ao exercício presbiteral, cuidar da família e serem verdadeiros pastores paroquiais (cura, pároco), pois os padres solteiros (celibatários) nem sempre estão inseridos integralmente nas paroquias, prova disso é que nunc se encontra o padre na paroquia. são as secretárias que administram as paroquias. Os padres ficam nas suas luxuosas casas paroquiais, com algumas exceções, claro, mas 98% só aparece na Igreja 15 minutos antes da Missa e quando atendem o povo é em horário marcado ou determinado por eles. Mas, sempre estão nos shopping, saunas, shows, cinemas, carro do ano, acompanhados dos “sobrinhos ou afilhados” ,, na paroquia estão sempre cansados, com cara de desanimo. Se forem conversar com um “evangélico” sobre Bíblia ,, coitados, passam vergonha.
Desculpem-me pela intromissão e expressão do meu pensar.
Dominus vobiscum.
Com a benção de Deus sobre nós todos, Pai, Filho e Espírito Santo. Amém!
Pe. Willian
Padre casado.