Pensava-se que, quando Francisco, no avião, havia exposto aos jornalistas a imagem do soco, se tratava de um deslize. Em vez disso, a nova linguagem parece refletir uma estratégia para sacudir a terminologia do “politicamente correto”, afastando de si qualquer suspeita de bonismo adoçado e começando a levantar interrogações incômodas.
A reportagem é de Marco Politi, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 06-02-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Ele tinha começado janeiro advertindo (em referência aos insultos satíricos contra o sentimento religioso, veja-se Charlie Hebdo) que, se alguém “diz um palavrão para a minha mãe, espere-se um soco“. Depois, voltando de Manila, o papa tinha confessado a sua tentação – nos tempos de Buenos Aires – de dar um chute “lá onde não bate o sol” em um negociador, que se apresentou com a oferta de uma doação de 400 mil dólares a ser dividida pela metade.
Na quarta-feira passada, Francisco elogiou um pai que lhe contou que, “de vez em quando, tenho que bater um pouco nos filhos, mas nunca na cara, para não humilhá-los”. Imitando o tapa, o papa abençoou quem pune, “faz o que é justo e segue em frente” (sem ofender a dignidade do filho, acrescentou).
O Pe. Mazzi aplaude, porque o pontífice “usa uma linguagem que todos nós usamos… Nunca é artificial… E fala como falariam os nossos pais”. Discordam aqueles que negam a pedagogia do tapa.
Pensava-se que, quando Francisco, no avião, havia exposto aos jornalistas a imagem do soco, se tratava de um deslize. Em vez disso, a nova linguagem parece refletir uma estratégia para sacudir a terminologia do “politicamente correto”, afastando de si qualquer suspeita de bonismo adoçado e começando a levantar interrogações incômodas.
Se a liberdade de sátira é um direito absoluto, é justo se fazer também a pergunta das reações que pode provocar em situações inflamadas? Sabe-se que uma parte da imprensa anglo-saxã rejeitou as caricaturas do Charlie Hebdo, sentindo-se igualmente livre para criticar a forma da crítica e, portanto, não publicá-las.
No plano educativo, Bergoglio também põe em questão – com palavras de pároco – a ideologia pedagógica do “proibido proibir”, com o seu corolário “palmada, nunca”.
Questão controversa, que muitas vezes produziu resultados contrastantes: os rebeldes mimados ao extremo em família, onde tudo é permitido, na maioria das vezes postos em confronto com as rígidas hierarquias sociais no mundo real, se arrastam diante das autoridades ou das supostas autoridades. O fato é que Francisco continuará produzindo surpresas.
Sem metáforas, ao contrário, é a carta por ele enviada aos superiores das congregações religiosas e aos presidentes das Conferências Episcopais, que exorta todos a uma maior energia contra os abusos sexuais.
Palavras secas:
“Absolutamente não há lugar no ministério para aqueles que abusam dos menores… Não poderá, portanto, ser dada prioridade a outro tipo de considerações, de qualquer natureza que sejam, como, por exemplo, o desejo de evitar o escândalo”.
A indicação é clara: que o clérigo culpado “seja excluído (do) ministério público, se tal ministério é de perigo para os menores ou de escândalo para a comunidade”.
O documento papal tem duas repercussões específicas para a Itália. Ele compromete a Conferência Episcopal Italiana (CEI) – que até agora se recusou a assumir responsabilidades nacionais – a um dever de vigilância e de controle direto sobre como são abordados (ou não) os abusos nas dioceses. E ilumina, consequentemente, a singular inércia da CEI e do Vicariato de Roma em um caso clamoroso de pedofilia.
Desde junho de 2008, arrasta-se a história do padre Ruggero Conti, titular de uma paróquia em uma diocese suburbicária de Roma, condenado, em primeira instância, em maio de 2013, por vários abusos a 14 anos e dois meses de prisão.
Conti espera, no próximo dia 12 de março, a audiência no Supremo Tribunal italiano, mas, enquanto isso, já desencadeou a vergonha da prescrição por três casos. Por mais de seis anos, nenhuma autoridade eclesiástica – nem a CEI nem o Vicariato de Roma (diocese do papa), nem o bispo Gino Reali, superior direto do padre Conti para a diocese suburbicária de Porto-Santa Rufina – jamais comunicou quais sanções canônicas foram tomadas contra o padre abusador.
À luz da carta do papa, a CEI já está expressamente chamada pela “verificação de cumprimento” das diretrizes emitidas em 2014. Descarregar tudo sobre a Congregação para a Doutrina da Fé, segundo a práxis atual, não é mais possível.
Marco Politi
FONTE: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/539725-o-qduplo-tapaq-do-papa-francisco
PARA LER MAIS:
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Uma resposta
Nada se torna mais nocivo à educação como o “politicamente correto” ou, como se diz em Portugal em alguns casos, o “nacional porreirismo” para encobrir a cobardia em tomar atitudes ou a hipocrisia para ignorar ou subestimar os erros e pecados que prejudicam as pessoas e gangrenam a sociedade.
O Papa é claro na adução do equilíbrio das liberdades. A liberdade de expressão de uns tem de permitir a liberdade de expressão de outros. E outras liberdades, como a religiosa, a de viver, a de circulação, têm de ser garantidas.
A pedagogia da Palmada, da vergastada ou da palmatoada fez o seu tempo. Foi um erro pelo sofrimento que infligiu, pela humilhação que constituiu, pela injustiça com que foi aplicada por vezes, pelo seu excesso e desproporção e por ser utilizada, não contra preguiça e outros maus comportamentos,mas contra o não saber. Hoje, exagera-se. Não se repara que formas de humilhação mais marcantes que a palmada. Mas não se pode tocar na criança ou no adolescente, podendo bater-se (o próprio aluno)no professor, que nada acontece na maior parte dos casos.
Quanto à pedofilia e abusos sexuais de menores da parte de clérigos, é óbvio que estes não podem ser admitidos ao ministério ou nele continuar, uma vez descoberto o desvio. O bispo ou o respetivo superior hierárquico tem de punir adequadamente, após conveniente processo. No entanto, não pode esquecer-se a metodologia indicada por Cristo no Evangelho de Mateus (vd Mt 18,15-17): repreensão a sós, repreensão perante testemunhas, comunicação à Igreja, consideração do irmão como pagão (redobrada atenção).
Duvido da validade da entrega do prevaricador às autoridades judiciárias estatais pelo seu bispo – o que rompe estatutariamente com a relação de confiança entre o presbitério e o bispo, que é pai, pontífice e pastor. Depois, parece que tem de ser salvaguardado por todos o escrupuloso respeito pelo conhecimento havido através da confissão sacramental. Parece que a mentalidade justicialista (que em si é de promover e aplaudir) está a esquecer isto.
Porém, quando entregue à justiça estatal, o bispo ou o superior hierárquico do clérigo deve, sem se adiantar no juízo de personalidade, colaborar com as autoridades e esperar pacientemente o desfecho judicial, mesmo respeitando o legítimo direito ao recurso.
Se não é legítimo tudo fazer para evitar o escândalo, também não se deve condenar ninguém na praça pública.
Por fim, não deve confundir-se o apoio às vítimas e a justa reparação com uma eventual pretensão indemnizatória falsa, interesseira ou desproporcionada.