Vaticano abre portas para padres casados e cria dilema

  • O ex-padre anglicano Robin Farrow (de óculos) é casado e tem quatro filhas, mas será ordenado na Igreja Católica em abrilO ex-padre anglicano Robin Farrow (de óculos) é casado e tem quatro filhas, mas será ordenado na Igreja Católica em abril.  Com quatro filhas ainda crianças e um bebê para chegar em alguns meses, a mulher de Robin Farrow já avisou: ele precisará levar a caçula para o trabalho nos dias mais complicados.

Fernando Duarte

Da BBC Brasil em Londres  –  09/02/201507h35

É uma situação que dificilmente chamaria a atenção em qualquer lugar do mundo, não fosse o fato de que Farrow está prestes a receber sua ordenação como padre católico.

O britânico faz parte de um grupo de novos padres anglicanos que se converteram à Igreja Católica no Reino Unido sem a obrigação de adotar o celibato – ao contrário do que se exige dos sacerdotes originalmente católicos.

“Sei que muitos fiéis católicos podem estranhar a figura de um padre casado. Mas na minha paróquia eu tenho conversado com os fiéis há meses e recebi muitas palavras de apoio à minha situação. Estudei para uma vida religiosa desde os sete anos”, conta Farrow, de 42 anos, em entrevista à BBC Brasil.

Dispensa especial

A regra para sacerdotes anglicanos está em vigor desde 2009, chancelada pelo então papa Bento 16. A decisão surpreendeu por causa do perfil conservador do pontífice alemão, e muitos analistas do Vaticano a viram como uma manobra para atrair para a Igreja anglicanos insatisfeitos com algumas decisões mais polêmicas de seu ramo do cristianismo, em especial a ordenação de bispos homossexuais.

O celibato, imposto no século 12, simboliza o triunfo do espírito sobre a carne. A premissa é de que apenas a dedicação total à Igreja faz um padre.

A possibilidade de dispensa no Reino Unido teve o objetivo de reforçar os quadros católicos num país em que o catolicismo é minoria. No entanto, há limites para a dispensa.

Papa Bento
Bento XVI foi quem abriu as portas para mais conversões de padres anglicanos e aceitou novas ordenações especiais

“Se por acaso minha esposa falecesse, que Deus proíba, eu não poderia casar de novo”, conta Farrow.

O divórcio também está fora de questão.

Amazônia

Casos como o de Farrow alimentam o argumento dos defensores de uma revisão da questão celibatária por parte da Igreja. Entre os que propõem a flexibilização está Dom Erwin Kautler, bispo austríaco que há 30 anos é o responsável pelo Prelado do Xingu, no Pará.

Dom Erwin
Bispo do Xingu, Dom Erwin diz contar com apenas 27 para 800 comunidades da região

Mais conhecido por seu envolvimento em causas ambientais e pelas críticas à injustiça social na região Norte do Brasil, Dom Erwin tem expressado recentemente sua preocupação com a escassez de sacerdotes a seu dispor. Uma das maiores circunscrições eclesiásticas do Brasil, com 365 mil quilômetros quadrados, o Xingu dispõe apenas de 27 padres.

Não é preciso muito esforço matemático para entender o problema de Dom Erwin. E o bispo não vê outra solução que não uma flexibilização do Vaticano em relação ao celibato.

Ele cita por exemplo a regra de que os diáconos, clérigos de quem não se exige o celibato, possam celebrar alguns sacramentos, incluindo o batismo, mas não a comunhão.

“Não estou defendendo o fim do celibato. Defendo que presidir a celebração da eucaristia, por exemplo, não seja um prerrogativa exclusiva de um homem celibatário”, afirma o bispo à BBC Brasil.

“O que muitos bispos querem – e sou um deles – é propor outro tipo de sacerdote ao lado do tradicional. E tomar uma posição em favor de comunidades como as da Amazônia, que praticamente estão excluídas da Eucaristia. Quem optar pela vida celibatária tem todo o direito de fazê-lo. E há inúmeras pessoas, tanto homens e mulheres, que fazem essa opção e são felizes.”

De acordo com estatísticas apresentadas por um estudo da universidade americana de Georgetown, citando documentos do Vaticano, o número de católicos no mundo cresceu 64% entre 1975 e 2008, atingindo pela primeira vez a casa de 1 bilhão. O mesmo estudo, no entanto, estima que o número de padres no mundo seja de pouco mais de 400 mil e que tenha estacionado nos últimos 40 anos.

Detalhe do Vaticano
Segundo estudos, o número de padres ordenados no mundo teria estacionado nos últimos 40 anos, enquanto o de fiéis disparou

No Brasil, no mais recente censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 120 milhões de brasileiros se declararam católicos. O Censo Anual da Igreja Católica no Brasil estima em cerca de 22 mil o número de padres.

Escândalo

Especialistas citam diversas causas para a desproporcionalidade, incluindo uma redução no número de frequentadores de missas. Mas o imenso sacrifício pessoal exigido dos interessados em virar padre frequentemente é citado não só para desestimular novas chegadas, mas como fator de “deserções”.

Na Itália, bem perto das muralhas do Vaticano, estima-se que 6 mil padres tenham abandonado a batina para assumir ou iniciar relacionamentos. O país atualmente tem 33 mil padres.

O papa Francisco
O papa Francisco tem recebido pedidos para reavaliar a posição da Igreja Católica em relação ao celibato

A discussão ganhou força depois da revelação de diversos escândalos de pedofilia na Igreja nos últimos anos.

“Ninguém discute que o celibato tem seu valor, mas ele deve ser facultativo justamente para evitar desvios de comportamento por quem não está preparado para assumir um compromisso tão ilustre”, explica Alex Walker, padre britânico que em 1988 deixou a vida religiosa para se casar.

Atualmente, ele faz parte do Advent Group, que pressiona por mudanças na postura do Vaticano e oferece assistência para sacerdotes que sigam o mesmo caminho de Walker.

Padre dando mão à moça
Na Itália, calcula-se que milhares de padres deixaram o sacerdócio nos últimos para se casar.

“Estou casado há 25 anos e não teria deixado a Igreja se o celibato fosse opcional. Conheço muitos fieis que prefeririam que seus padres pudessem se casar.”

Resistência

Dom Erwin diz ter apresentado seu caso ao papa Francisco, mas acredita que só uma articulação dos bispos brasileiros junto ao Vaticano possa levar a questão adiante.

O mais recente pronunciamento do pontífice sobre o celibato ocorreu em agosto do ano passado. Em entrevista ao jornal italiano La Repubblica, Francisco é citado como admitindo que a exigência havia “criado problemas” para a Igreja.

Não são apenas os anglicanos que conseguem ser exceção à regra. Nos Ritos Orientais, um ramo autônomo pouco conhecido do Catolicismo, os padres podem ser casados.

Paul Sullins
Para o sociólogo e padre casado Sullins, a posição da igreja não é contraditória por causa da aceitação dos anglicanos convertidos

Curiosamente, porém, padres de exceção também estão entre os defensores dostatus quo católico.

É o caso de Paul Sullins, padre americano casado convertido ao catolicismo. Sociólogo da Universidade Católica Americana, em Washington, ele lançará em livro em abril um estudo sobre padres casados nos EUA – o número segundo ele, chega a cem.

“O exemplo de alguém que renuncia ao casamento e ao sexo numa sociedade tão sexualizada quanto a nossa é algo formidável. E este sacrifício tem um valor institucional importante para a Igreja”, diz o sociólogo.

Robin Farrow concorda: “A Igreja sofreria muito em termos de imagem junto aos fiéis se adotasse muitas mudanças nesse sentido. O celibato ajudou muito a Igreja em termos de carisma”.

Fernando Duarte

FONTE: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/02/150203_gb_celibato_fd
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Uma resposta

  1. Caríssimos irmãos(ãs),
    O Brasil já teve grandes bispos que acenaram para o fim do celibato, como já foi citado, no entanto, apenas o bispo Dom Carlos Duarte, fez algo de concreto (aboliu o celibato e permitiu a missa em língua vernácula – e após ser afastado pelo papa, fundou a igreja católica apostólica brasileira, já sonhada e iniciada pelo cônego Amorim, porém os padres casados ou que desejavam o fim do celibato não o apoiaram, prova disso é que a igreja católica brasileira quase faliu por falta de padres ,, somente agora começa a reerguer-se, pois começaram a formar os próprios padres ,, Outro grande bispo é dom MILINGO (ex arcebispo de Lusaka) que não ficou no somente discurso, ao contrário, casou-se e atualmente percorre o mundo organizando os padres casados, no entanto, no Brasil, os padres casados ficaram de longe, com medo, talvez esperando uma benção do papa, ao invés de formarem fileiras junto ao bispo MILINGO e fortalecer o clero casado. E não podemos esquecer de Dom Salomão Ferraz (falecido bispo auxiliar Arquidiocese de SP), que era casado (alguns filhos e netos ainda vivos em SP), esse bispo participou do concílio Vaticano II, a convite do próprio Papa, ,, Sempre lutou pela reintegração dos padres casados. Fundou a Ordem de Santo André em 1928, a qual sempre teve padres casados. Ainda hoje os padres da Ordem de Santo André, podem ser casados ou celibatários. a Ordem de Santo André, não é igreja católica brasileira (ICAB) ,, A Ordem de Santo André é uma congregação católica apostólica de rito romano e mantem em São Paulo seis paroquias, cujos padres são casados e receberam do então Cardeal Ratzinger, uma carta (2005) pedindo que esperassem o momento oportuno para reintegração. Irmãos, desculpem-me a falta de sabedoria, mas acho que a maioria dos padres casados no Brasil e talvez no mundo, são uns medrosos que ficam escrevendo bonito, mas na pratica são incapazes de iniciar uma revolução, se organizando e construindo capelas e paroquias, assim como fiz Dom Salomão Ferraz e os padres casados, fieis ao seu carisma, lutam nas paroquias (Ordem de Santo André – com 6 paroquias em São Paulo, 2 no RJ e 3 na região Nordeste). Por que não se reúnem e se organizem como igreja local, como paroquias ,, pois, ficar nesse discurso nostálgico não vai levar a nada. Nos encontros nacionais e até internacionais (MFPC) temos a nítida compreensão de que nada vai mudar, pois ficamos no discurso e não tomamos iniciativas (práxis) práticas e formamos um clero paralelo, assim como fizera dom Carlos Duarte, Dom Salomão Ferraz (fundador da Venerável Ordem Católica de Santo André Apóstolo), e/ou dom Emmanuel MILINGO. Desculpem-me. Já participei dos encontros de padres casados MPC, mas confesso que desanimei, pois era sempre a mesma coisa ,, quando alguém sugeria de começarmos a fazer um clero casado, paralelo ao celibatário, ,, os mais velhos ficavam de cara fechada e o assunto não seguia. Falar na Igreja católica brasileira era como mostrar um leproso, pois todos ficavam calados e demonstravam que não tinham coragem de construir a própria paroquia ou evangelizar o povo do próprio bairro. É preciso mostrar, com iniciativas, de que os padres casados pode trabalhar civilmente, cuidar da família e ser pároco da comunidade local, e principalmente ser capaz de construir a própria paróquia e ali desenvolver a evangelização e serviços sociais, etc.
    Sou padre Casado, Católico rito ortodoxo. Estive no rito latino (romano) por 15 anos ,, deixei a 7 anos, casei, sou professor ,, a 6 anos estou exercendo o ministério ordenado no rito ortodoxo ,, construí uma linda paroquia onde os mais de 400 fiéis (atualmente) participam ativamente das missas dominicais, as 10h e 18h30 ,, meus dois filhos e esposa cantam na missa, ajudam na catequese e com a comunidade faz da paroquia um ponto de referência, onde todos sabem que ali o padre é casado e todos sabem quem é sua esposa, ao contrário do celibatário que fica no outro bairro, sendo descrito como um padre mulherengo e que gasta o dinheiro da paroquia no shopping e na vida de burguês que tem na casa paroquia, ,, Novamente peço-vos desculpas. Irmãos, se querem ser readmitidos, então, vamos pressionar os bispos diocesanos ou simplesmente começar a construir capelas e paroquias, onde possamos ministrar os sacramentos e rezar com o povo , visitar os doentes e dar formação social ao povo pobre e carente. Bom, desejo-lhes boa sorte e que o papa Francisco continue firme na organização da Igreja.

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