
A noção de limites – principalmente em relação à disponibilidade de recursos naturais e energéticos – foi completamente perdida por parte da atividade econômica. Extrapolou-se, por consequência, as fronteiras daquilo que se convenciona chamar de razoável, ponderável, aceitável, em termos de respeito à biosfera.
Não por acaso, é sintomática a percepção de que a raça humana “desenvolveu” mecanismos com mais facilidade para a “destruição” do que pela “preservação”, tendo em vista que para a realização dessa última é imprescindível o desenvolvimento de uma consciência coletiva.
As provas incontestes dessa falta de parcimônia para com o meio ambiente, contidas na completa ausência de um tipo específico de consciência planetária, talvez estejam presentes na prática e hábitos enraizados em diversas culturas que enaltecem, sobremaneira, o consumo excessivo, fazendo da aquisição material espécie de dogma para a promoção pessoal, verdadeiro cabedal paradigmático da conquista do progresso e do bem-estar.
Essa cultura do “ter”, vinculada intimamente ao ato de consumir, constantemente se sobrepõe e, por isso, afronta acintosamente à cultura do “ser” que, por sua vez, se liga às questões morais, éticas e mesmo de conduta pessoal.
No caso específico do “ter”, é a materialidade que se expressa com força ímpar, penetrando no consciente dos mais vorazes consumidores, naqueles chamados suntuosos compradores, nos que estão (ou nunca estiveram) poucos preocupados com as consequências ao planeta de um consumo ostensivo.
Em outras palavras, daqueles que pouco se importam se essa busca pelo progresso econômico e pelo bem-estar material será ou não inimiga da preservação ambiental; afinal, o que importa em matéria de respeitar as leis do mercado de consumo passa longe, mas muito longe, da necessidade em preservar o meio ambiente.

Esse excesso de produção/consumo – causador em primeiro plano da dilapidação dos recursos naturais – está expresso nos 20% da humanidade residente nos países mais avançados que se apropriam de 80% de toda a produção material mundial.
Isso faz com que, em larga medida, não haja uma adaptação das atividades econômicas às leis da natureza. Se houvesse, os níveis de produção e consumo seriam indubitavelmente mais cônscios e menos agressivos.
Contudo, como a ordem que vem do mercado aponta para a “necessidade” de se produzir (sempre mais e mais) para com isso promover o crescimento econômico, a única “consciência” que parece se estabelecer se dá em torno de fazer com que o “ter” prevaleça sobre qualquer condição.
Por isso se constata o confronto latente entre o sistema econômico (que se expande sem limites) e o sistema ecológico (que decreta os limites não respeitados pela atividade econômica).
Disso decorre afimar, igualmente, que os processos econômicos e sociais nunca estiveram essencialmente a serviço da vida, dificultando assim a criação dessa consciência planetária em torno de se buscar, primordialmente, a partir da ação individual, o compromisso com o planeta (nossa Casa Comum – Gaia, nos dizeres dos gregos), com a preservação das espécies (parceiros de nossa convivência) e com o cuidado específico em relação à não dilapidação frenética dos serviços ecossistêmicos (indispensáveis ao nosso viver).
Essa falta de consciência planetária – especificamente em relação aos serviços ambientais – enaltecido pela cultura do “ter”, leva a graves distúrbios. Por isso, é comum que muitos saibam até mesmo explicar os valores dos produtos, mas são incapazes de mensurar os valores da natureza. Em geral, sabe-se com facilidade o preço (custo) de uma mesa feita de mogno, mas não se sabe o “custo” que representa a derrubada de um Jequitiba de 200 anos.
O que passa a “valer mais” são as mercadorias, não a natureza e os recursos dela extraídos para a fabricação dessas mercadorias. Lamentavelmente, tem-se aqui uma acintosa inversão de valores. “Ter” vale mais que “Ser”. “Comprar” vale mais que “Preservar”, e “Produzir” se torna sinônimo de “Progredir”, mesmo que isso custe “Destruir” o meio ambiente, o “Eco” (casa).
Marcus Eduardo de Oliveira
Economista e professor de economia na FAC-FITO e no UNIFIEO, em São Paulo.
prof.marcuseduardo@bol.com.br
Adital
FONTE: http://tribunadonorte.com.br/noticia/a-cultura-do-a-tera/305525?utm_campaign=noticia&utm_source=rel
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Uma resposta
Quando a perspetiva axiológica é o ser e o estar, promove-se o desenvolvimento da personalidade pluridimensional em termos harmoniosos, a participação na vida social é efetiva e construtiva e a Terra é a casa comum. Ao invés, quando a perspetiva egoísta do ter predomina, vale tudo: a produção vale-se da destruição de recursos atá ao seu esgotamento, a Terra começa a evidenciar mostras caprichosas de agressividade para com os seres humanos. O consumismo estraga as relações interpessoais e intergrupais, em que os poucos ricos ganham e os muitíssimos pobres, se sobrevivem, é abaixo do limiar da pobreza. Vêm as guerras, as formas mais diversas de escravidão. A economia torna-se economicismo e as pessoas são reduzidas a números ou a peças de engrenagem que os agentes do diabo usam a seu bel-prazer. É o espezinhamento, a invejam a cobiça, a soberba – disfarçadas de jogo das liberdades em absoluto ou, em alternativa, a coberto do falso igualitarismo.
Cresça o número daqueles e daquelas que façam cordão com o Papa Francisco para que surjam políticos que tomem a peito a causa da sociedade, promovendo trabalho, educação, segurança e saúde para todos; e surjam cristãos mais empenhados na evangelização que abranja no homem na sua multidimensionalidade, com a marca da referência explícita a Cristo morto e ressuscitado e o horizonte do mundo a refazer segundo o coração de Deus, no diálogo afetuoso com as realidades sociais, económicas, culturais e políticas.