A Teologia de Francisco

Os cristãos devem “tornar visível e tangível a forma de vida de Jesus”. Esta é a “teologia implícita” que o teólogo espanhol José María Castillo acredita ser “a genial contribuição que o papa Francisco está oferecendo à Igreja e ao mundo”.

O artigo é publicado em seu blog Teología sin Censura, 03-02-2015. A tradução é do Cepat.

 

Eis o artigo.

Como se sabe, nem todos os católicos estão de acordo com o papa Francisco. E também se sabe que, entre aqueles que se opõem a este papa, abundam os que, de uma forma ou de outra, lamentam que o atual Sumo Pontífice da Igreja católica não seja um papa “teólogo”, mas, ao contrário, um papa “pastor”.

Ou seja, na avaliação daqueles que fazem várias objeções ao papaFrancisco, a Igreja se vê governada, neste momento, não pela teologia, mas, sim, pela pastoral. Contudo, para onde caminha uma Igreja sem teologia?

Nisto consiste uma das mais fortes acusações, que não poucos opositores deste papa se colocam e nos colocam. O que dizer sobre este assunto capital?

O professor Gerhard Ludwig Müller, que escreveu seu enorme tratado de Dogmática na Universidade de Munique e atualmente é o cardeal prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, afirma que “a teologia é sempre a iluminação científica da confissão e a práxis da fé de que Deus está presente na criação e se autocomunica em sua palavra na história e na pessoa de Jesus Cristo (2ª ed., Barcelona, Herder, p. 20).

É evidente que nem a pessoa, nem a palavra do papa Francisco se ajustam a esta definição de teologia que a Dogmática do cardeal Müller apresenta. Se certo dia a gente escutasse Francisco falar desta maneira, o mais certo é que seríamos nós que perguntaríamos: “O que está acontecendo?”.

É evidente que, do ponto de vista da “dogmática” de Müller (e do que essa “dogmática” representa), Francisco não é um papa-teólogo. Mas, isto significa que Franciscoé um papa sem teologia?

A pergunta, que acabo de expor, poderia ser formulada de outra maneira, questionando: Jesus foi – pelo que dele os evangelhos relatam – um profeta sem teologia?

Parece que o mais razoável é responder que a sábia e ampla definição do cardeal Müller se realiza no Jesus terreno que encontramos na teologia narrativa dos evangelhos. O que nos leva diretamente a uma conclusão: existe umateologia especulativa, que nos propõe ideias, teorias, conceitos. Como existe uma teologia narrativa, que apresenta uma forma de viver.

As duas teologias já se encontram no Novo Testamento. A especulativa, no apóstolo Paulo; a narrativa, nos evangelhos. É claro, é importante saber, aceitar e ter muito nitidamente as verdades teológicas que fundamentam a religião de redenção que Paulo nos apresenta.

Porém, tão verdadeiro como isso é que pouco nos servirão os profundos “ensinamentos teológicos” de Paulo, caso não tornemos nossa “a forma de vida” que o Evangelho nos apresenta, a forma de viver de Jesus, que encontramos em cada relato dos evangelhos.

É evidente que o papa Francisco, tanto em seus ensinamentos como em seu estilo de exercer o papado, parece – à primeira vista – mais um papa-pastor do que um papa-teólogo.

Porém, não é menos certo que o estilo marcadamente pastoral do papa Francisco, sem questionar em nada a dogmática da Igreja, está destacando, com sua vida e sua palavra, a necessidade e a urgência, que cabe a todos nós, de assumir e colocar em primeiro plano na vida da Igreja o que foi a forma de vida que cada página do Evangelho nos apresenta.

O que, em definitivo, não é nem mais e nem menos do que tornar visível e tangível a forma de vida de Jesus. Não é esta a “teologia implícita” que nunca pode faltar em nossas vidas? Nisto, acredito, consiste a genial contribuição que o papa Francisco está oferecendo à Igreja e ao mundo.

 

José Maria Castillo 2

José Maria Castillo

FONTE: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/539584-a-teologia-de-francisco

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Uma resposta

  1. Não sei se o cardeal Müller, apesar da sua douta afirmação sobre o papel da Teologia e de, em alguns aspetos, se distanciar do pensamento deste Papa, ousa apontar-lhe o dedo sobre a alegada falta de teologia no pensamento papal.
    Pergunto-me se quem acusa o Papa de falta de Teologia terá um conceito, uma autoridade e uma obra teológica a que nos sintamos obrigados a acolher. De que teologia ou teologias se pretende falar? Saberemos mesmo teologia? Será possível uma ação pastoral sem teologia, às cegas, de improviso? Será a teologia uma ciência exata, já feita?
    Sendo certo, que há na Escritura uma teologia especulativa e uma teologia narrativa, como muito bem explicita o articulista, também se torna pertinente perguntar se as diferentes fontes da ciência teológica não são todas válidas. Pergunto-me mesmo se uma teologia emergente da realidade, do quotidiano em articulação com a Escritura e a patrística, não terá uma validade que possa ombrear com a da teologia dita especulativa. Cristo discursava habitualmente a partir do quotidiano, dos acontecimentos e da ciência das pessoas para expor e esclarecer a sua doutrina que não era dele, mas do Pai que O enviou.
    Por mim penso, que a eventual acusação a este Papa de não ser teólogo ou de atuar sem teologia é pura diversão e constitui falta de argumento válido para o contestar ou colocar em dúvida a sua atuação.
    É óbvio que, por muito que eu goste de Paulo VI, admire a produção discursiva de João Paulo II e aprecie (aprecio mesmo)a densidade teológica de Bento XVI e a sua afabilidade e atenção, não posso nem devo nem quero subestimar o discurso, o pensamento (profundo, embora legível) de Francisco. Lá diziam os Romanos: “Suum cuique”! ou “unicuique suum”!

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