Muitos se assustam com os prenúncios de uma nova época. Falamos dos sinais dos tempos como grandes faróis. Mas logo acrescentamos o capítulo das crises de que o radar nos adverte. Quem é medroso tem receio de avançar. Preferiria a calmaria. E assim se estagna. É o marasmo.
Mas vida é, por definição, movimento. E, se necessariamente se movimenta, não pode parar. Contudo, sobrevém o receio das mudanças. Muda tudo? A nova época constará de uma outra humanidade? Será o início de uma nova História?
Para entender a passagem para a nova época temos que ter presente a genial interpretação aristotélica do movimento. Para fazer frente ao fixismo de Parmênides, segundo o qual seria impossível qualquer mudança, e ao relativismo de Heráclito, para o qual tudo muda e nada permanece, Aristóteles avançou com a teoria do ato e da potência. Em toda mudança há algo que permanece e algo que se transforma. Não existe ruptura absoluta. Falamos, por isso, de evolução. O que será, de algum modo, já era. Mas era de outra maneira, o que se expressa pela potência. Passa, depois, a ser um ato. Assim, a semente é árvore em potência. Significa que tem tudo para se tornar árvore. Mas ainda não é. Quem não conhece sua potencialidade não consegue projetar seu futuro. Mas este já lhe é intrínseco. Basta que desabroche.
Nós vivemos no tempo. Isto significa que temos um presente, é nosso aqui e agora. Mas estamos em movimento, o que equivale a afirmar que temos também um passado que, por uma providência especial, fica, em grande parte, na memória, para não perdermos nossa identidade, e que teremos um futuro, que igualmente, por um dom especial que recebemos de Deus, nos leva a fazer projetos de vida. Deste modo cada pessoa é, no seu presente, o que foi no passado e o que projeta para o futuro. Em outras palavras: quem não tem passado não vive o presente e quem não consegue projetar um futuro não se desenvolve. Seu presente, aqui e agora, se reduz a praticamente nada. Não passa de um sopro. A identidade de cada um, bem como da sociedade em geral, está exatamente na capacidade de armazenar seu passado e de projetar seu futuro.
Estamos na síntese do tema das mudanças de época. Envolve a humanidade inteira. Nosso passado continuará sempre sendo nosso, o que equivale a dizer que determinará nossa identidade humana e nos garantirá a realização de nosso projeto futuro. Acontece que o projeto que temos, denominado de “nova época”, não é pessoal. Nem depende da vontade de alguns poucos. É toda a humanidade que caminha. Estar em mudança só é possível se já se é, da algum modo, o que se há de ser. Estamos, necessariamente, no plano da vida, que concerne a todos. Transcende as individualidades, sem ser abstração. É convivência.
Crise é, por natureza, abstração, quando se considera apenas um aspecto deixando de lado os demais. É nosso modo de conhecer parcial e parceladamente. Einstein privilegiava a posição do observador, a partir da qual vê o universo. Assim firmou o princípio da relatividade. Não conseguimos ver tudo, ao mesmo tempo, sob todos os ângulos e aspectos. A crise aponta uma realidade, vista apenas sob um ângulo. Cabe-nos reinseri-la no contexto pleno da vida. Viver é mais que pensar, mais que querer e sentir. Viver é conviver. Conviver é crer, esperar e amar.
A humanidade de ontem, de hoje e de amanhã só vive porque o tempo lhe permite crer, esperar e amar. Nesta perspectiva supera suas crises e se orienta, pelos sinais dos tempos, para a eternidade.
Dom Dadeus Grings
Arcebispo de Porto Alegre – RS
Fonte: http://www1.maedorosario.com.br/2010/10/mudanca-de-epoca.html
Respostas de 2
Gostei muito da simplicidade com que D. Grings se expressou. Li e reli… Aconselho que o façam. Ele joga uma luz para a nossa reflexão do MFPC. Vamos contextualizar dentro de uma ótica filosófica: No fixismo de Parmênides nós padres casados seriamos sacerdos in aeternum e isto alimentaria os saudosistas. No relativismo de Heráclito tivemos uma missão dentro de um curto espaço de tempo que já se foi e não voltará jamais. “Não podemos entrar duas vezes no mesmo rio” e portanto vamos esquecer o passado. Esta teoria agrada aos laicisistas. Mas, segundo Aristóteles, existe dentro de nós a essência… não há ruptura absoluta entre o que éramos e o que procuramos ser… Ainda, nas entrelinhas do que escreveu o arcebispo de Porto Alegre, vejo que os muitos padres que deixaram o ministerio e se casaram, simplesmente provocaram uma mudança de época, romperam com um estilo de igreja tridentina. E isto é a humanidade caminhando e a igreja orientada pelos sinais dos tempos rumo à eternidade. Abraço Aristóteles e igualmente Dom Dadeus Grings e com este espírito marcho para participar do nosso XIX encontro em Fortaleza.
Você fala com conhecimento histórico. Em Fortaleza haverá debate muito produtivo a respeito.
Admiro este e outros seus comentários. Nada contra.
Giba