Sobre o Deus que precisamos para atravessarmos o milênio

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O Deus que rogaremos, caso haja futuro, é aquele que exige que respeitemos o mandamento: ou nos salvamos todos ou ninguém se salva.

Rita Almeida – 29/12/2014
 O interesse que hoje tenho por Deus é mais filosófico do que religioso. Sendo assim, entendo que o conceito que se tem de Deus não é unívoco, ele vem se modificando de acordo com o tempo e as diversas culturas e sociedades. É como se cada tempo e cada sociedade tivesse o Deus (ou os deuses) que precisasse ou desejasse.

Se tomarmos o cristianismo, por exemplo, o Deus do Antigo Testamento era uma espécie de grande líder tirano e cruel, que vigiava e castigava seu povo sempre que lhe conviesse. Suas normas e regras eram rígidas e, muitas vezes, sem qualquer sentido ético, moral ou prático. O único sentido parecia ser deixar bem claro quem era o Todo Poderoso.

Já o Deus do Novo Testamento é um Deus que desceu do seu pedestal e da sua arrogância para se tornar um meio-irmão, um semelhante, que mesmo depois de morto promete ficar entre nós. Esta é exatamente a mensagem final de Jesus na Última Ceia, horas antes de ser crucificado e morto. Mas em algum momento, o Deus do cristianismo que prometeu estar entre nós passou cada vez mais a estar dentro, “habitar o coração do homem”.

Sabemos que o Deus do protestantismo, que nasce no século XV, serviu muito bem à disseminação e ao desenvolvimento do capitalismo. Ao que parece, a noção de um Deus que está dentro de cada um, tem servido muito bem à sociedade capitalista-ocidental em sua versão cada vez mais individualista e narcisista. E o Deus que produzimos neste caldeirão me parece assustador. É uma espécie de Deus-portátil, Deus-de-bolso ou um Deus-I fone; aquele que possui todos os aplicativos, conexões, contatos e arquivos que eu preciso para ser feliz.

O Deus que encontramos na sociedade capitalista-narcisista atual é um Deus que serve cada vez mais para resolver os meus problemas individuais, mesmo os mais egoístas. É um Deus capaz de atender a um pedido meu, mesmo que isso implique em sabotar o pedido de outrem. O Deus do narcisismo me permite agradecer pelo sucesso num concurso, numa seleção de trabalho ou a conquista de uma vaga na faculdade, sem questionar o fato de que isso aconteceu apenas porque alguém foi preterido.

Somente o Deus do narcisismo me permite colocar aquele tradicional adesivo no carro: “Foi Deus que me deu”, mesmo quando o digno presente é mais um a poluir o ambiente já a beira do completo caos. O Deus do narcisismo é capaz de me fazer vencedor numa disputa, ainda que do outro lado esteja alguém que fracassou, como se o meu Deus fosse melhor ou mais poderoso que o dele.

Mas que tipo de Deus é este que tolera um pedido de salvação, cuidado ou proteção para apenas eu ou meus familiares e amigos mais próximos? Que tipo de Deus me permite agradecer por ter escapado viva de um acidente em que muitos outros se tornaram vítimas fatais? Que tipo de Deus me autoriza fazer um pedido de mesa farta nas festas de fim de ano, quando a miséria e a fome devasta milhões mundo afora?

O conceito de Deus que vemos hoje é tão narcisista que até quando um desejo meu não é atendido, a explicação é: “porque Deus sabe o que é melhor para mim”.

Enfim, lamentavelmente, o Deus que nos resta atualmente é aquele que atende aos apelos do Eu, o Deus- I fone. É o Deus que promete a tão sonhada felicidade individual. Um Deus que nos demanda louvores, adoração e glorificação, além de uma prova de sua devoção e fé por meio de doação financeira. Somente um Deus narcisista e egocêntrico precisaria deste tipo de devoção ou reconhecimento.

“Meu Deus!” Aí está a exclamação que usamos em nossas orações ou sempre quando o desespero bate e tudo parece perdido. Entretanto, o Deus do indivíduo não será capaz de cumprir sua missão de nos salvar, especialmente porque nosso tempo precisa urgentemente se livrar do individualismo.

No cristianismo é preciso se livrar do Deus que se ocupa das nossas misérias egoístas e individuais e resgatar o “Pai Nosso”, aquele capaz de nos ajudar a reparar as nossas mazelas coletivas. Não aquelas que estão dentro de nós, mas as que estão entre nós; a fome, as injustiças sociais, a degradação do meio ambiente, a falta de água e saneamento básico, as guerras.

É bem provável que não seja possível ou desejável um Deus único para toda a humanidade. A diversidade de culturas e religiões pelo mundo não possibilitaria isso, mas é fundamental e urgente perseguirmos a ética de um Deus para Todos, e não só para todos os seres humanos, mas para todos os seres que habitam este planeta, animados ou não.

Resumindo, se a função de Deus é nos salvar, nos libertar e nos proteger, o Deus do narcisismo, se é que realmente precisamos dele algum dia, não nos serve mais. O Deus que irá permitir à humanidade fazer sua travessia em direção ao próximo milênio precisa ser um outro Deus.

Precisamos parar de orar a Deus para curar nossa unha encravada, proteger nossa prole, melhorar nossa vida financeira ou sustentar nosso amor-próprio. Nossas orações (representantes autênticas do nosso desejo) precisam se livrar do narcisismo e do egoísmo e alcançar o campo da alteridade. Caso não modifiquemos nossas orações, o abismo narcísico do EU irá nos engolir em breve.

Sendo assim, o Deus que precisamos ou que deveríamos desejar não é mais o Deus que está dentro, mas o Deus que está entre nós. O Deus que nos une, que nos enlaça, que possibilita o amor, que nos faz irmãos porque habitantes do mesmo planeta. O Deus que precisamos invocar não é o “Meu Deus”. O Deus que nos permitirá sobreviver é o “Nosso Deus”, ou o “Pai Nosso” o Deus da alteridade.

O Deus que precisaremos para não sucumbirmos como espécie não poderá ser tolerante com a ideia de salvação individual, seja ela de que tipo for. O Deus que rogaremos, caso haja futuro, é aquele que exige que respeitemos o seguinte mandamento: ou nos salvamos todos ou ninguém se salva.

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Rita Almeida 

“Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar…”

FONTE: http://ritadecassiadeaalmeida.blogspot.com.br/

Respostas de 2

  1. Rita, não é possível comparar o protestantismo com as atitudes (nem chamo de teologia) da igrejas neopentecostais. Não tem nada de semelhante… leia as 95 teses, pesquise sobre a participação das mulheres no movimento da reforma… a bíblia foi traduzida para a língua do povo para que este a entendesse pelo menos um pouco…foi uma libertação! A reforma fez com que a palavra do evangelho fosse lida, estudada, assimilada, digerida… se hoje as igrejas sérias estudam a bíblia, fazem hermenêutica e contextualizam a Palavra é devido o movimento da reforma realizado em tempos muito conturbados da Igreja cristã. Não podes simplesmente escrever uma critica assim do nada sobre o protestantismo sem olhar para seu berço…e hoje as igrejas protestantes que seguem o evangelho são muito pecadoras como todas as outras igrejas comprometidas, mas somos igrejas que caminham em busca de vida, e não de alienação e querendo aparecer melhor que as outras. Buscamos parcerias, diálogo, respeito, cidadania, ordenação das mulheres, acolhimento as pessoas homoafetivas, vida em comunhão, diversidade na unidade.

  2. Eu acho que o o indivíduo que reflete precisa prever, na sua sua vida pessoal um período sem deus.
    Um período em que não faz referância a um personagem exterior a ele, que conhece todas as suas ações e seus pensamentos, que dirigiria toda sua vida, que depois de sua morte, em outro mundo, pode recompensá-lo no seu céu ou puni-lo no seu inferno! Ele deve ser capaz de assumir sua vida, toda a sua vida. Aliás, os valores de justiça, de respeito pelos outros, de solidariedade não são reservados aos os crentes de qualquer religião. Eles já existiam antes do aparecimento dos três monoteísmos. Além disso as guerras praticados em nome de Deus, tanto por cristãos na Idade Média pelos islamitas agora nos dizem como a intrusão de um deus na vida social pode ser perniciosa.
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    Je pense que l’individu réfléchi a besoin de prévoir dans sa vie personnelle une période sans dieu.
    Une période où il ne fait plus référence à un personnage extérieur à lui, qui connaîtrait tous ses actes et toutes ses pensées, qui dirigerait toute sa vie, qui après sa mort, dans un autre monde, peut le récompenser dans son ciel ou le punir dans son enfer ! Il doit pouvoir assumer sa vie, toute sa vie. D’ailleurs les valeurs de justice, de respect de l’autre, de solidarité ne sont pas réservées aux croyants de quelque religion. Elles existaient avant l’apparition des 3 monothéismes. De plus les guerres pratiquées au nom d’un dieu aussi bien par les chrétiens au moyen âge que par les islamistes aujourd’hui nous disent comment l’intrusion d’un dieu dans la vie sociale peut être pernicieux .

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