Vocações ministeriais bloqueadas

… “Se atribuem a si mesmos o poder de ditar ao Espírito de liberdade os canais e as condições em que Ele deve agir”

O problema não é falta de vocações, mas os condicionamentos em que as enclausura (fecha) o sistema dominante chamando e atribuindo a si tradições e poderes que deixam de lado a tradição apostólica e a única lei em vigor para os discípulos de Jesus: o amor.

Que outra coisa são as vocações dentro da corporação baseada em Cristo, se não os talentos (Mateus 25:14-30) conforme Deus os distribúi, os carismas, dons gratúitos do Espírito de Deus em função da edificação deste corpo deCristo? Embora sejam diferentes como os membros de um corpo, quer em termos de sua importância, quer em suas funções, o que, afinal, tem valor diante de Deus, é que pessoa os administre, cada um com a sua capacidade (1 Coríntios capítulo 12 .. 13 e 14; Ro 12:3-8).
O que em princípio se deve ter por certo é que os talentos, os carismas, ou seja, a vocação, não é dada pelo papa ou por um bispo, mas por Deus, pelo Espírito de Deus que sopra onde quer, sem distinção de sexo ou estado de vida. É óbvio que são as igrejas de base, as comunidades locais, cujo poder de “examinar tudo e ficar com o que (em consciência) considerem autêntico” (1 Ts 5.21), que devem promover e escolher seus ministros, seus pastores e distinguir entre profetas falsos e verdadeiros, como era costume nos primeiros séculos do cristianismo.
O que, de acordo com Bernhard Häring, é inaceitável é que os superiores (termo anti-evangélico) se atribuam o poder de “ditar ao Espírito da Liberdade os canais e as condições em Ele deve agir”, ou seja, exclusivamente em varões solteiros. Chegar a este absurdo, pretender colocar-se acima de Deus, revela a ausência total daquele zelo pela causa de Jesus que caracterizava São Paulo, quando ele argumentava contra a rivalidade, dizendo: “Que Cristo seja anunciado, é nisto que me alegro”, seja com boa ou má intenção (FIL1 ,15-18).
Além disso, ninguém fala de “sacerdotes”. Jesus, um judeu até o final de sua vida, não estabeleceu qualquer novo sacerdócio ou sacrifícios, a não ser a misericórdia (Mt 9,13), nem a necessidade de templos (Jo 4.23). Para Jesus, Deus é imediato e não exige intermediários sagrado. Seu templo somos nós. Jesus enviou os apóstolos e discípulos para anunciar a Boa Nova. Nenhum deles, como Jesus féis à religião judaica, se apresentava com sacerdote.A chamada sucessão apostólica é uma invenção que não tem base na tradição primitiva.
Sabemos que no princípio quem presidia a Ceia do Senhor eram homens ou mulheres de prestígio, pais ou mães em suas casas, sem se considerarem uma espécie de magos, cujos gestos ou palavras produzissem “ex opere operantis = (pelo poder dessa pessoa)” o milagre da transubstanciação. Eram jantares ou ceias comunitários, num clima de amizade, sinais de entrega de suas vidas no estilo da Última Ceia do Senhor.
A lei do celibato é apenas uma de uma série de atribuições impostas ao “sacerdócio” católico que marcam algumas vidas muito particulares. Contudo, não só o ministério na Igreja, mas também todo este sistema hierárquico piramidal de poderes de alguns irmãos na fé sobre as bases, exige um reinício com base nos Evangelhos e na tradição apostólica e é a partir destas que se deve agir. Já se falou e escreveu o suficiente. Tudo podemos esperar do Espírito de Deus se nos deixarmos guiar por Ele.
Fonte: Enviado pelo autor, por e-mail: fwieser@speedy.com.pe

*Franz Wieser, missionário alemão no Peru há mais de 40 anos. Padre casado
Tradução do espanhol: João Tavres

Respostas de 2

  1. Belíssimo texto, porém, discordo penamente. Com toda sinceridade, creio (tenho certeza) de que o Espírito Santo age onde, como e quando quer, porém Ele não se contradiz, Jesus instituiu a Igreja através de Pedro e a sucessão apostólica é a forma dEle continuar guiando seus discípulos, seu povo, assim como Pedro fez na época. Pedro, por sinal, nosso 1º Papa.
    Esse discurso contestador caracteriza a tentativa de ‘adaptar’ a Palavra de Deus à sua própria vontade e opinião, consequentemente indo contra a Igreja de Deus que é fiel, obediente e santa.
    Os sacerdotes de Deus são aqueles que ouvem e obedecem à Sua vontade, que ouvem e obedecem à Sua Igreja, Noiva do Senhor, instrumento de Deus para construção do Reino. Aqueles que não são capazes de fazer isso e ‘pensam’ sentir o chmado do ‘Espírito de Liberdade’ ao ‘sacerdócio’, certamente, ou não compreenderam o que o Espírito está a soprar, ou estão equivocados quanto à procedência desse sopro.

  2. Lila, respeito seu pensamento, embora não concorde com ele.
    Aliás a quase totalidade dos católicos – e bons católicos! – não concordam com você. Nem a maioria dos padres, nem mais de 50% dos bispos.
    É o que dizem e confirmam estatísticas pelo mundo inteiro, inclusive dentro das fileiras do clero e do episcopado.
    Convido-a a aprofundar seus estudos teológicos, bíblicos e eclesiástico-históricos, e provavelmente mudará de ideia.
    Giba

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *