CORRUPÇÃO TEOLÓGICA

1. Este título é estranho, mas tem um contexto: a minha participação numa ”mesa redonda”, sob o título “o Ministério Público e o combate à corrupção”, na perspectiva da sociedade civil.

 Este contexto torna o título ainda mais estranho, pois não vivemos numa sociedade sacral. São, aliás, as próprias referências cristãs que impõem a dessacralização do poder econômico e político, assim como a utilização da religião para o justificar. Por isso mesmo, julgo interessante seguir o caminho que levou à própria denúncia da corrupção teológica “uma operação diabólica” , que dava cobertura à corrupção econômica e política.

Segundo as narrativas do Evangelho, mal Jesus acabou de reorientar a sua vida e de abandonar o caminho de João Baptista, foi assaltado por tentações que procuravam separá-lo da sua missão de intervir no mundo a partir dos excluídos e humilhados.

Os Evangelhos sinópticos comprazem-se em encenar três formas simbólicas de corrupção, tão simbólicas que foram, são e continuarão onipresentes: a econômica, a política e a religiosa. Mostram que este quadro é fundamental para especificar a missão de Jesus, a alteração que Ele procurou imprimir às concepções messiânicas do seu tempo e que continuam a interrogar-nos.

As três tentações são, todas elas, populistas. Se Jesus queria ter sucesso, era obrigado a resolver, ainda que de forma miraculosa, a questão econômica: ”converter pedras em pão”. A seguir, teria de mostrar que tinha força para vencer a humilhação do seu povo: em vez de um país ocupado, Jesus deveria apresentar-se com um desígnio dominador de outros povos, fazendo uma aliança com o diabo, senhor do mundo. Finalmente, só com uma religião, feita espetáculo, seria possível realizar o programa econômico e político.

Este diabo é um perito em corrupção teológica. Deus é reduzido a um agente econômico, dominador dos povos e um milagreiro de pacotilha. O diabo é quem distribui o jogo do céu e da terra.

2. As evocadas narrativas dos evangelhos mostram que, se Jesus resistiu às seduções do dinheiro, do poder e da religião exibicionista, o mesmo não aconteceu com os seus discípulos. A raiz da sua incompreensão do caminho de Jesus é, particularmente, sublinhada em S. Marcos (caps. 4 a 10). Eles procuram o caminho do sucesso, do poder, da dominação. Desenvolve-se, entre eles, uma tal rivalidade que os divide em grupos de pressão. É dito, expressamente, que a discussão entre eles versava sobre esta questão muito simples: quando Jesus conseguisse o poder, qual deles seria o maior? Tiago e João, filhos de Zebedeu, adiantaram-se: «Mestre, queremos que nos concedas o que te vamos pedir. Ele perguntou: que quereis que vos conceda? Disseram: que nos concedas, na tua glória, sentar um à tua direita e o outro à tua esquerda”. Ouvindo isto, os dez começaram a indignar-se contra Tiago e João. Chamando-os, Jesus disse-lhes: sabeis que aqueles que vemos governar as nações as dominam e os seus grandes as tiranizam. Entre vós não deverá ser assim: ao contrário, aquele que dentre vós quiser ser grande, seja o vosso servidor e aquele que quiser ser o primeiro dentre vós, seja o servo de todos. Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos».

Poderíamos, agora, fazer um mapa de todas as situações e intervenções de Jesus em relação ao poder econômico, político e religioso. Não se trata de uma maldição, mas de um combate, multifacetado, a essa idolatria que transforma os seres humanos em escravos daquilo que os deveria servir. Numa sociedade laica, este discurso pode parecer completamente desajustado. Só na aparência. Deus e a religião não são chamados ao caso, mas as leis da economia, da finança e da gestão foram divinizadas ao serviço de um deus cada vez mais oculto. São milhares e milhares os seus sacerdotes formados nos santuários das ciências da economia, da finança e da gestão, que o ervem e pregam reverência aos ignorantes, aos que não frequentaram essas universidades classificadas como santuários de excelência.

3. Ficando no plano religioso, os esquemas da corrupção teológica são muito variados. Apesar de, nos textos do Novo Testamento, Jesus Cristo ser a presença humana de Deus, desenvolveu-se uma cristologia que o colocou longe daqueles de quem é irmão. A partir daí, foi preciso desenvolver um sistema de mediações, de cunhas e influências para conseguir as suas graças. A devoção a Nossa Senhora e aos Santos “segundo a especialidade de cada um”, pretendendo aproximar-nos de Cristo, acaba por dar a ideia errada de que Ele está longe de nós. Ora Jesus Cristo é a máxima proximidade de Deus, Deus conosco. Os Santos são expressões dessa proximidade.

A oração, o ato essencial da religião, o ato de atenção e de acolhimento do Mistério, não se deve transformar numa técnica de tirar Deus da sua distração, ignorância ou indiferença. Não é um meio de informação e convencimento de Deus.

Somos criados à imagem e semelhança do incansável, eterno e misterioso amor de Deus. Não devemos criar representações de Deus à imagem e semelhança dos nossos defeitos. Essa é a grande corrupção teológica.

Frei Bento Domingues, O.P

Respostas de 6

  1. Um artigo válido para meditação!!!
    Este site está ótimo!!!
    Finalmente saimos do tema exclusivo “celibato” e temos temas variados e atuais.
    Obrigada pelo empenho.
    Irene

  2. Mais uma vez agradeço seus oportunos e incentivadores comentários, prezada Irene.
    Giba

  3. Irene e demais colegas do MFPC,

    Pouco a pouco vamos tendo mais colaboradores. Tu e Luís, inclusive, que têm acesso a boas fontes e sabem traduzir de várias línguas.
    Uns dez de nós enviando bons artigos, o Diretor do Site, José Moura aí de Brasília,vai ter bastante mais escolha de assuntos válidos e atuais.

    De fato o Site se abriu mais: chamados pela nossa vocação de lutarmos pelo Reino de Deus nas estruturas políticas, judiciais, econômicas,tanto a nível nacional como internacional, temos amplo campo de interesses e de ação.
    O VII Encontro da Federação Latino-Americana das Famílias dos Padres casados nos abriu os olhos ao nos mostrar como nossos colegas da língua espanhola, do México à Argentina, são bem mais entrosados no político e no social do que nós do Brasil. E isso foi muito bom: nos abriu os olhos para outras dimensões importantes das quais estávamos ausentes demais.

    Então, agora, temos de ficar sempre com um olho na Igreja e na estrutura eclesiástica em que somos especialistas. Inclusive no grave e nunca resolvido problema do celibato e os problemas com ele conexos: a homossexualidade, a pedofilia e a irresponsabilidade de tantos padres com suas mulheres e filhos não assumidos (com apoio das autoridades eclesiásticas). E outro olho na realidade político-social, jurídica, ecológica, etc. Em que podemos e devemos intervir, pois capacidade não nos falta, mas até agora, tínhamos estado omissos demais.
    Como bem dizia o saudoso João XXIII: temos de estar atentos aos sinais dos tempos, aos ventos da História, ao a sopro do Espírito que continua a garantir a liberdade, a esperança e o improviso na sua Igreja. E não se deixa manietar nem impressionar pelos poderes instituídos na Igreja

    João Tavares

  4. Muito bem, caro João. Assim você incentiva novos colaboradores para o site, o e-grupo e o jornal Rumos.
    Continue destemido na luta em prol de um mundo melhor.
    Giba

  5. Esta corrupção teológica, permite que a Igreja se torne fonte de poder e não de serviço. Sendo a Igreja um poder formador de consciência e ao impedir toda e qualquer participação democrática dos leigos e ao excluir a mulher de todo seu quadro de poder, torna-se responsável pela apatia dos cidaddãos no exercício da cidadania civil. Deseducado do exercício da cidadania eclesial sente-se desmotivado do exercício da cidadania civil

  6. José amigo, nossa Igreja precisa o quanto antes de profunda revisão nesses pontos anotados por você. Endosso sua proposta.
    Giba

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