
Joarez Virgolino Aires – Curitiba PR — Confesso que nos idos de oitenta, como muitos dos colegas do movimento Rumos, alimentei a acalentei um sincero e forte desejo e esperança de readmissão ao ministério presbiteral. Mas a veleidade teve curta duração! Logo, as primeiras cacetadas do autocrático Paulo segundo acordaram em mim um profundo e saudável reexame e reavaliação de todas as bases da minha eclesiologia. Fonte de minhas observações e constatações: os círculos mais próximos das sacristias e as adjacências curiais. Por todas essas cercanias, minha sensibilidade olfativa, oxigenada por uma acurada pesquisa e estudo das Sagradas Escrituras, foi farejando estranhos odores: por um lado, o malcheiroso enxofre do clericalismo pretencioso e hipócrita e, por outro, a ácida subserviência infantilizada do laicato. Dissecando esses odores, fui concluindo que não me ficavam bem nem a pele do presbítero convencido de carregar um tal sacerdócio exclusivo, nem a máscara de um leigo que se enxerga como uma espécie de coroinha. Na verdade, até hoje ainda ecoam nos meus ouvidos a solene proclamação que um estudioso colega fez no Encontro Nacional de Ribeirão Preto: “não fomos reduzidos; fomos promovidos ao estado leigo !” Leigo entendido como o “Laós”, o Povo santo e pecador (Ex 19,5; Ap 1,6 etc). E povo como herdeiro das alianças e beneficiário das promessas de salvação, povo consagrado, por oposição aos profanos. (Cfr “Dicionário Crítico de teologia de Jean –Yves Lacoste) Por esses dias, a teóloga biblista, Aíla Luzia Pinheiro de Andrade, estudando a Exortação aos Hebreus, em artigo publicado na revista franciscano “Estudos bíblicos”, Volume 30, número 119, afirma, literalmente: “Para a carta aos Hebreus o sacerdócio de Cristo e o sacerdócio dos cristãos (homens e mulheres)(são laicos. Na concepção do autor, um sacerdócio praticado somente por uma parte (kleros) dos cristãos é algo impensável, pois o que nos faz ser sacerdotes é o fato de sermos membros do Corpo do único sacerdote, o Cristo. A maioria dos cristãos, nos tempos atuais, está confusa sobre esse aspecto de nossa fé. No âmbito católico principalmente, as pessoas pensam que o sacramento da ordem confere o sacerdócio a alguém, contudo, é a Iniciação cristã a única forma de se conferir o sacerdócio no cristianismo. Todos os seguidores de Jesus, homens e mulheres, são sacerdotes. O Sacramento da Ordem faz com, que alguém, que já é sacerdote pelo batismo seja inserido no clero(kleros), ou seja, no grupo (ordo, classe, grupo dos que lideram a comunidade. No contexto dessas ousadas palavras da teóloga, recordemo-nos do documento de 38 páginas difundido em todas as 1300 paróquias católicas da Holanda, intitulado “Kerk en Ambt”, Igreja e Ministério. (…) os padres dominicanos propõem que uma pessoa escolhida pela comunidade presida igualmente a celebração da eucaristia. “Não faz diferença alguma que seja um homem ou uma mulher, homossexual ou que seja heterossexual, casado ou solteiro”. A pessoa escolhida e a comunidade pronunciariam juntas as palavras da consagração. “Pronunciar estas palavras não é um direito reservado ao sacerdote. É a expressão consciente de fé da comunidade inteira”. O opúsculo tem a aprovação dos superiores da ordem na Holanda e foi redigido pelos padres André Lascaris, professor de Teologia em Nimegue, Jan Nieuwenhuis, ex diretor do centro ecumênico dos dominicanos de Amsterdam, Harrie Salemans, pároco em Utrecht, e Ad Willems, outro teólogo de Nimegue. O teólogo inspirador, no fundo desse quadro, é um outro, o mais famoso dominicano holandês, Edward Schillebeeckx, de 93 anos, que nos anos Oitenta acabou caindo sob o exame da Congregação para a Doutrina da Fé por causa de teses próximas daquelas agora expostas nesse opúsculo. A Conferência Episcopal Holandesa reserva-se o direito de replicar oficialmente esse opúsculo. Mas já fez saber que a proposta dos dominicanos parece estar “em conflito com a doutrina da Igreja Católica”. (…) A polêmica instalou-se no catolicismo holandês e na ordem dominicana. Além de propor a celebração da missa por pessoas escolhidas pela comunidade, o texto sugere uma espécie de revolta das “bases” católicas: é preciso que os fiéis tenham a “liberdade necessária, teologicamente justificada, para escolher o seu líder ou equipe de líderes a partir do seu seio”, escrevem. Intitulado “A Igreja e o Ministério”, o documento acaba, no entanto, por se centrar na questão de quem pode ou não celebrar a eucaristia. Questão que o próprio Legrand não deixa passar ao lado. “Hoje, os debates concentram-se na questão do poder”, acusa. Os dominicanos holandeses citam várias “ambiguidades” da situação atual: quando não há padres, as comunidades fazem uma “celebração da Palavra e da Comunhão”, idêntica à missa, mas sem a consagração das hóstias. Estas celebrações podem ser presididas mesmo por mulheres e muitos fiéis não veem a diferença em relação à missa verdadeira, dizem. E recordam o que se passou ao longo da história: nem sempre dominou o modelo de uma hierarquia que manda. Diante dessa constatação é que vejo o clericalismo e o infantilismo laical como uma das mais dolorosas chagas do catolicismo atual. O clericalismo sufoca a vida da Igreja porque pretende sequestrar, numa só cacetada as três pessoas da Santíssima Trindade. Se as Conferências episcopais ousarem tomar decisões corajosas, conforme tem recomendado o Papa Francisco, acredito que esse caminho apontado pelos dominicanos será uma saudável e vivificadora solução. Por esse rumo, manter ou abolir a obrigatoriedade do celibato; ordenar ou não mulheres tornam-se questões irrelevantes, quase bizantinas! Pois o ruim para a Igreja não é que faltem presbíteros mas que esses sejam centralizadores e dominadores. Que adiantaria ordenar mulheres possuídas pelo mesmo clericalismo masculino?! Para mim, equiparar nos defeitos não seria uma boa coisa para a Igreja. Por esses dias, consultando o “Dicionário Crítico de teologia de Jean –Yves Lacoste, verifiquei que, até o século XIII, a fórmula da absolvição sacramental era deprecativa e não declarativa. O Oriente mantem a fórmula deprecativa. Santo Tomás de Aquino mudou-a de e “Que Deus te perdoe para Eu te perdoo”. Estou quase convencido de que o nosso querido papa Francisco também pensa assim e já está dando passos para corrigir grande parte dessa bagunça toda que está chafurdando e amesquinhando a Igreja de Jesus Cristo. Para mim, o primeiro gesto dele já apontava nessa direção. Estive colado na TV durante todo o processo de sua apresentação. Atento, acompanhei tudo e vi e me chamou muita atenção quando ele, apresentando-se já como Bispo de Roma, a primeira coisa que fez, depois de uma singela saudação humana, despojada de clericalismo, sem nenhuma adocicada jaculatória foi pedir que o Povo o abençoasse. No mesmo dia, acompanhando as TVs ouvi padres comentaristas já remendando as palavras do papa informando que ele pedira ao povo que rezasse por ele. De fato ele fez isso mas logo depois. A primeira coisa que fez, ao apresentar-se, foi inclinar-se e pedir a benção do povo. Ali já senti e percebi logo que “algo de novo se apresentava no reino da Dinamarca!” Enxerguei nesses dois simples e despretensiosos gestos um salto revolucionário; um verdadeiro grito do Ipiranga: Independência ou morte. Eureka. Não é o clero a fonte de poder. O poder divino emana do povo eleito, ungido pelo Espirito Santo no tríplice múnus: régio, profético e sacerdotal! É como se Francisco estivesse gritando: Estão vendo, eu, o vosso papa, declaro que esse povo deve ser visto, doravante, como apto e qualificado com pleno direito de invocar e lançar a bênção de Deus sobre o Papa, escolhido pelo Espírito Santo. Enviado pelo autor Joarez Virgolino Aires
Enviado pelo autor.
Uma resposta
Texto rico, escrito com a alma e o coração. Gostei muito e compactuo com muitas das questões colocadas no texto. Parabéns.