Concílio mudou o rosto da Igreja

Num debate promovido esta sexta-feira pela Renascença, refletiu-se sobre o contexto em que ocorreu o Concílio Vaticano II, a forma como foi visto também em Portugal, o que fez desde logo mudar na Igreja.

 

Francisco Sarsfield Cabral – que era na altura finalista de Direito e integrava a Juventude Universitária Católica de Lisboa – confirma que o anúncio do Concílio foi uma agradável surpresa, até porque havia entre os jovens católicos portugueses uma sensação de desfasamento, desde logo na forma como era celebrada a missa: “As pessoas hoje em dia percebem o que se passa na celebração, na missa. Antes, as leituras, o Evangelho, a epístola e o primeiro texto eram lidos em Português, mas o resto era em Latim”.

Segundo o jornalista, esta realidade levava a que as pessoas não compreendessem o verdadeiro significado da missa: “Havia pessoas que rezavam o terço durante a missa. Portanto, não estavam muito identificadas com o que se estava a passar”.

Também para Luiía França a reforma litúrgica foi das mais importantes. A antiga responsável da Pax Christi em Portugal acompanhou com entusiasmo os trabalhos do Concílio, como estudante, no âmbito do movimento Graal.

Luísa França reconhece que para as mulheres foi importante deixar de ser obrigatório usarem véu na cabeça para irem à missa, que passou a ser encarada de forma diferente: “Deixou de haver a ideia da missa como um ato individual para ser a celebração da Eucaristia – e a Eucaristia era uma celebração fraterna”.

Luísa França sublinha a importância que passou a ser dada à Bíblia e diz que mudou o próprio conceito de Igreja: “Já não é só a hierarquia que é importante. Passa a ser dada importância ao povo de Deus como comunidade sacerdotal e ao trabalho dos leigos na vida da Igreja”.

                                  Padres esquecidos

Para o padre Peter Stilwell, professor de Teologia e vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa, há questões relativas aos sacerdotes que continuam em aberto desde o Concílio Vaticano II.

“Costuma-se dizer que os padres foram os grandes esquecidos do Concílio. Houve um documento dedicado a eles, dizendo como podiam organizar a sua vida, mas, como reflexão, os diáconos receberam a atenção do Concílio, os leigos receberam a atenção do Concílio, os próprios bispos, mas os padres ficaram esquecidos.”

Este fato levou a que ficassem assuntos por abordar, que hoje continuam a causar discussão na Igreja: “E há questões importantes da vida dos padres que continuam na baila, como ordenar homens casados, permitir o casamento dos padres – não é tão marginal como isso, [porque] é uma questão que mais tarde ou mais cedo terá de ser discutida de forma alargada, embora não haja agora disponibilidade das autoridades eclesiais para levantar essa questão”.

O padre Peter Stilwell admite que o actual contexto de mudança poderia justificar um novo Concílio: “A Igreja tem uma série de interrogações neste momento que precisam de ser refletidas. Tem-se tentado responder a isso através de sínodos regionais – africano, da América Latina e da Ásia. Se calhar um Concílio não fazia mal. Depende do Espírito Santo e do Papa”, conclui.

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