Seria num domingo de fevereiro de 2005. A saúde de João Paulo II debilitava-se de dia para dia, por via principalmente do agravamento do mal de Parkinson.
Liguei a televisão para ver o “Angelus” e a bênção do Papa ao povo aglomerado na Praça de São Pedro. E testemunhei um espetáculo que nunca se apagará da minha memória. Na figura que assomou à janela, já quase nada restava do atleta de outrora. Apenas a vontade.
O papa quis falar ao povo, mas o corpo negou-se: exibiu à multidão um dorido e horrível esgar. E, confesso, eu tive vergonha da minha Igreja. Como se expõe ao público um homem assim, ele que ontem foi grande e poderoso, admirado, respeitado e escutado por tantas nações? Onde está escrito que o chefe da Igreja católica há de sê-lo até esse extremo?
Vi-me então perante o epílogo de uma tragédia que ia atingindo o apogeu. Os corifeus do Vaticano entenderam que assim findasse o herói mítico, a fim de que o coro trágico, a postos na ampla Praça de São Pedro, logo irrompesse com a aclamação: “Santo subito!”
Era assim nos primeiros tempos da Igreja: a decisão de venerar e tributar culto público a alguém já falecido dependia só dos fiéis. Primeiro, era a comunidade dos crentes que tomava a decisão espontânea de venerar os mártires. Mais tarde, a partir do século IV, quando os cristãos deixaram de ser perseguidos, o culto aos mártires diminuiu e começou-se a cultuar como santos outros personagens (monges, ascetas, homens de Deus e mulheres piedosas).
Este procedimento popular durou quase todo o primeiro milênio. Foi no ano 993 que, pela primeira vez, um santo foi canonizado por um papa: Santo Ulrico, bispo de Augsburgo. Canonizou-o João XV. Não obstante, mesmo depois, era o povo quem reconhecia os santos ou, em casos, o bispo local.
Isso prolongou-se até 1171, quando o papa Alexandre II proibiu os bispos de canonizar alguém “sem a autorização da Igreja romana”. Entretanto, a regulação das canonizações só surgiria mais tarde. Foi ditada pelo papa Urbano VIII, em 1634.
Canonizando alguém, a Igreja não quer só enaltecer a memória do santo; quer também apresentar e propor à sociedade, no canonizado, o modelo de um ideal humano e religioso.
Além disso, é nos santos canonizados ou excluídos da canonização, que a Igreja melhor põe em evidência qual é o modelo de Igreja que o papado quer impor. Assim aconteceu
- com a canonização de reis piedosos e submissos à Santa Sé, quando a Igreja se erigia em poder político;
- com o reconhecimento de um certo tipo de santidade ao militar, quando das Cruzadas contra os infiéis sarracenos;
- com a canonização de um papa como Gregório VII, protótipo dos papas mais ambiciosos, quando Roma viu ameaçado o seu poder.
Mas temos um exemplo bem mais próximo. João Paulo II beatificou 1.340 pessoas e canonizou 483 santos. Nunca se viu coisa igual. Para isso, publicou em 1983 a constituição apostólica “Divinus Perfectionis Magister”. Nela se determinava tudo quanto se requer para alguém ser elevado à dignidade dos altares.
A Igreja só deve canonizar pessoas cuja vida e conduta se ajustem exatamente ao que os bispos, a cúria e o papa desejam de um verdadeira cristão, de um cristão capaz de poder ser proposto de exemplo aos demais.
É isso que explica que João Paulo II se apressasse a canonizar Mons. Josemaria Escrivá de Balaguer, fundador do Opus Dei.
E explica também que ele se tenha negado a canonizar Mons. Oscar A. Romero, defensor dos pobres e da Teologia da Libertação, assassinado por um pistoleiro, enquanto celebrava a missa num hospital de doentes terminais.
Oscar Romero, um mártir dos nossos tempos, não o canonizou João Paulo II, porque ele não representava o modelo de Igreja que o papa Wojtyla queria impor. Canonizou-o uma grande multidão de cristãos.
Escrivá de Balaguer foi canonizado, contra a oposição de milhares de católicos, porque, com o seu Opus Dei, representava a Igreja pré-Vaticano II e os movimentos apostólicos de extrema direita (Neocatecumenato, Comunhão e Libertação, Legionários de Cristo…).
Era essa a Igreja do papa João Paulo II.
Neste 27 de abril de 2014, a Igreja católica vai canonizar dois beatos: João XXIII e João Paulo II, dois papas contrastantes.
- O primeiro abriu as janelas da Igreja, para que nela entrassem os ventos que hoje agitam o mundo. E todos o amaram. E todos os corações lhe prestarão culto de santo.
- O segundo fechou as janelas da Igreja e saiu ele pelo mundo afora, visitou 129 países, falou muitas línguas e imaginou que a sua palavra era a palavra definitiva.
- Muitos o ouviram e ele não ouviu ninguém. Muitos o admiraram e amaram e fizeram santo.
- Mas também muitos resistiram à sua canonização e não o vão cultuar como santo.
Estes não engrossarão o coro, agora de apoteose, no dia 27, nem aclamarão, agora realidade, o “Santo súbito!”. Porquê?
Destacam-se aqui alguns motivos pelos quais muitos católicos pensam que João Paulo II não merece ser canonizado:
– Ele combateu a liberdade de pensamento e de ensino na Igreja, silenciando ou excomungando mais de 500 teólogos e teólogas em todo o mundo.
– Atacou a Teologia da Libertação, desarticulando sistematicamente a Igreja dos pobres, mediante a condenação dos seus principais representantes, o cancelamento de centros de ensino teológico, a aliança com setores conservadores do poder político e experiências eclesiais contrárias à libertação.
– O seu silêncio perante as ditaduras militares latino-americanas custou a vida de inúmeros cristãos e cristãs, entre eles Mons. Oscar Arnulfo Romero, que, um ano antes de ser assassinado, foi a Roma e não foi recebido nem apoiado pelo papa.
– Apoiou e protegeu até à sua morte, Marcial Maciel (padre pederasta, usuário drogas, pai de vários filhos de diversas mulheres, e o fundador dos Legionários de Cristo), sabendo o papa do sofrimento e abuso infligidos às vítimas.
– Participou no encobrimento de sacerdotes pederastas (incluindo bispos e cardeais), mudando-os sistematicamente de lugar, a fim de os proteger da justiça, e ocasionando com isso a multiplicação de danos a menores, famílias e própria Igreja.
Como conclusão, ouso utilizar o que alguém uma vez escreveu.
“Vivemos na sociedade da imagem. Tudo é aparência, nada mais tem a áspera consistência da realidade. E, sem realidade que a sustente, a imagem se torna simulacro e, ao primeiro teste, se esfuma”.In: CONCILIUM Revista Internacional de Teologia, 351 (2013/3): Santos e Santidade Hoje?
Não poderá ser também assim com a santidade?
Luís Guerreiro
Teólogo, filósofo, escritor, tradutor. Português, foi missionário em Angola. Membro Fundador do MFPC. Casado com Irene, moram em Brasília, desde meados da década de 70.
Fonte: Enviado por e-mail – luisirenecacais@solar.com.br




Respostas de 4
Tive ” vergonha da minha igreja” ? Como assim? Por acaso tem vergonha de Jesus Cristo que, mesmo humilhado, espancado, linchado fisicamente e moralmente e mesmo crucificado resistiu até o fim? O fato do Papa João Paulo II também ter ido até o último de suas forças, deve, sim, nos encher de orgulho.
Carlos Henrique, o autor não quis dizer que teve vergonha de Jesus Cristo ou de João Paulo II, mas sim que teve vergonha da exploração midiática a que o ser humano Voytila e papa JP II foi exposto por um grupo de dentro do Vaticano que dominou tudo nos últimos anos dele, impediu a sua renúncia e quis tirar proveito da exposição do que devia ser vivido no respeito a uma vida que, naturalmente, se esvai. Foi uma falta de bom senso e de misericórdia com a decrepitude de um ser humano. Um péssimo espetáculo de profundo mau gosto e extremamente deprimente a que esse grupo tinha a obrigação de ter poupado João Paulo II, a Igreja e o mundo.
Para dizer pouco, afirmo que esse grupo foi sádico.
João Tavares
Afinal, o que significa ser santo para a Igreja?
Amar Jesus Cristo é uma coisa, aceitar o comportamento de uma instituição que impõe um método litúrgico da Idade Média é outra coisa. Amo Jesus Cristo e o Evangelho e reprovo o modelo de de Igreja Medieval.