Opto, este ano, por nomear uma questão recorrente e pouco atendida: a ressurreição da Igreja. Do ponto de vista histórico, foi a experiência de algumas mulheres que revelou aos discípulos, contra todas as evidências, que a morte não tinha sido a última palavra sobre a tragédia humana da Cruz.
Por outro, as narrativas do Novo Testamento são, em parte, o fruto de um exame de consciência sobre a cegueira que impediu os Apóstolos de entender o sentido do percurso terrestre de Jesus de Nazaré.
Chamo aqui ressurreição da Igreja ao resultado das atitudes, dos gestos, das tomadas de posição e iniciativas que romperam, ao longo de 2.000 anos, com situações de decadência, de escândalos ou de marasmo e colocaram, de novo, as comunidades cristãs sob o impulso do Pentecostes.
É um processo nunca acabado e, sob o ponto de vista local ou regional, estará sempre ameaçado pelo desleixo e pela usura do tempo. A história regista grandes rupturas e escandalosas divisões que continuam a marcar o seu tecido visível. E não só. Como esquecer o apagamento quase total, em diversas regiões, de numerosas comunidades cristãs, outrora florescentes?

Nem tudo é irremediável. Eu próprio testemunhei momentos impressionantes de ressurreição da Igreja: no rosto de João XXIII e na convocação do Vaticano II.
Vieram depois longas e persistentes tentativas para os fazer esquecer. Repetidas notícias de escândalos correram por todos os meios de comunicação. De repente, chegou o Papa Francisco.
Para usar a expressão de Ch. Péguy a pequena virtude da esperança voltou a dizer-nos bom dia todas as manhãs!Bergoglio sabe que a duplicidade na pastoral da Igreja – “nem quente nem fria”, segundo a linguagem do Apocalipse – é pior do que a morte.
Sem a memória viva da Paixão de Cristo, fonte de subversão dos poderes que multiplicam as vítimas da escravatura financeira, económica e política – o catolicismo perde o sal e não serve para nada: fica reduzido a mais uma religião. Vale a pena ver isto mais de perto.
2. A “era cristã”, fixada no séc. VI, por Dionísio, o Exíguo, tem falhas de cálculo, de alguns anos.Jesus, o Nazareno, nasceu provavelmente uns sete anos antes. Sendo assim, Jesus teria morrido com 37 anos, a 7 de Abril, do ano 30. Os cristãos não celebram a morte, mas sabem que Jesus não morreu de velho, de acidente, nem de doença prolongada.
Foi condenado à morte, depois de ter sido barbaramente torturado, num processo político-religioso, a que temos acesso através de quatro narrativas, elaboradas com propósitos cristológicos e pastorais diferentes e, por, vezes, manipuladas.
Muitos cristãos gostam de ir, em peregrinação, a Jerusalém nesta data. Nunca senti nenhuma atracção por esse lugar, nesta ou noutra data. Tornou-se, para mim, por várias razões, uma referência saturada.
Tive, uma vez, um convite fantástico para visitar os lugares sagrados das grandes religiões. Quando estava quase seduzido pela oferta, a simbólica conversa de Jesus com a Samaritana desencorajou-me. O templo de Deus, respeitado ou ofendido, somos nós. O culto, em espírito, verdade e justiça pode e deve ser realizado em qualquer lugar.
No entanto, os católicos que forem em peregrinação à chamada Terra Santa não se esqueçam de que as únicas relíquias de Jesus que lá podem encontrar são as diversas e atormentadas comunidades cristãs de ritos diferentes – por vezes pouco ecuménicas – que celebram a Eucaristia, “por todos”.
Importa partilhar com elas – nas suas diferentes expressões – a memória confusa da “mãe de todas as Igrejas”.Lendo e meditando os Evangelhos, observo que Jesus e os discípulos, de modo diverso, fracassaram todos em Jerusalém.
- Enquanto Jesus estava banhado em lágrimas de sangue, os discípulos dormiam.
- Um deles entregou o Mestre aos inimigos,
- outro negou-o,
- os restantes fugiram e a impotência de Deus era o próprio crucificado.
Apenas um grupo de mulheres, verdadeiras discípulas, aguentou tudo.
Até no túmulo o procuram. Só elas
perceberam que o passado estava vazio e foram convocadas para começarem o processo da ressurreição de toda a Igreja moribunda, no horror do Calvário.
3. Para o último Nietzsche, o cristianismo, ao impedir de atirar fora o lixo humano, os diminuídos, os fracos, conserva os que enfraquecem os povos. O indivíduo foi tomado demasiado a sério e colocado pelo cristianismo como um absoluto. A espécie humana só pode sobreviver graças aos sacrificados.
Nietzsche diz bem o que os cristãos devem recusar.
Na cruz, foi a fraqueza que venceu, pela inclusão de todos os excluídos. Estamos numa das linhas sísmicas que atravessam o mundo: Islão/Ocidente, Norte/Sul, ricos/pobres.
É na recusa destas fracturas que se pode vislumbrar a luz da Ressurreição. Boa Páscoa
20.04.2014



Respostas de 3
ué joão não estava junto com as mulheres no calvário? Na manhã de domingo maria madalena foi ao sepulcro achando que jesus estava lá, pois ela perguntou onde tinham colocado o corpo do mestre, em jerusalém a muitas relíquias para ver- o santo sepulcro e outras tantas-. Sou leigo e acho que tem coisas absurdas neste artigo.
Arnaldo,
Gostei das suas dúvidas e da sua franqueza. Mesmo não concordando, de maneira alguma, com a sua conclusão.
Se bem que dá para entender sua perplexidade: Frei Bento Domingues, dominicano, pensa e escreve a alto nível, nem sempre acessível aos leigos, mesmo europeus (ele escreve em Lisboa, num jornal português – PÚBLICO). Ele e o Pe. Anselmo Borges, missionário da Boa Nova, são duas das vozes mais ouvidas hoje na Igreja em Portugal. Com livros, palestras, debates e uma coluna semanal cada um em Jornais de grande circulação.
Que tal, Arnaldo, você destacar e mostrar algumas dessas “coisas absurdas neste artigo”?
Podemos trocar ideias sobre o assunto.
É verdade que Bento Domingues e Anselmo Borges são duas das vozes mais ouvidas em Portugal, a que se juntou, nos últimos tempos, Tolentino Mendonça. São sacerdotes que não pedem licença para exprimirem o que pensam. Respeitam globalmente a tradição teológica, mas dela tiram todas as consequências, mesmo que comportem algum desalinho em relação às correntes dominantes, o que resulta, por vezes em interpretações pouco consentâneas como o pensamento por eles expresso.
Quanto ao presente texto de Bento Domingues, é de referir que o aparente aspeto parcelar tem a ver com ser coluna de jornal de informação genérica, com limites de espaço, que terá de entender-se em termos de análise contrastiva. De facto, todos os discípulos homens abandonaram-No todos e fugiram, quando O viram preso (Mt 26, 56; Mc 14,50), ao passo que um grupo de mulheres foram ao seu encontro e permaneceram junto da cruz, fizeram-lhe as honras da sepultura, sob os cuidados de José de Arimateia, e foram as primeiras a saber da ressurreição – como referem todos os quatro evangelistas. Que João estava no calvário junto das mulheres, refere-o o próprio João, que até recebeu um encargo de receber a mãe de Jesus (Jo 19,25-27).
É de notar um pormenor referido por Marcos (Mc 14,51-52): “Ia-O seguindo um mancebo envolto apenas num lençol. Deitaram-lhe a mão, mas ele,largando o lençol, fugiu nu”.
Neste contexto de contraste, Bento Domingues tem razão. Todos os homens discípulos fugiram com medo e cobardia. Um, depois, de cortar a orelha a um dos predadores de Cristo, negou-O na hora de dever dar testemunho abonatório. Só as mulheres (mais um homem e, depois José de Arimateia – o que é proporcionalmente pouco) é que persistiram, apesar de terem também situações de medo (Mt 28,8; Mc 16,8). E ninguém lhes pode roubar a alegria de serem mensageiras da Ressurreição. Se os apóstolos e seus sucessores são as testemunhas da Ressurreição “de iure”, teremos de atribuir esse estatuto “de facto” às mulheres: “Ide, dizei aos discípulos e a Pedro que Ele vai adiante de vós para a Galileia. Lá O vereis (Mc 16,7).