Jesus era feminista, dizem elas

Há linguagens sobre Deus que moldam modos de ver e de configurar a realidade, diziam as primeiras teologias feministas. Hoje, Portugal deixa de ser o único país da Europa a não ter uma associação de teólogas feministas. Elas não querem ser padres. Antes ajudar a reler imagens de Deus e o papel da mulher na Igreja.

Jesus era feminista. Isto é um anacronismo. Mas a afirmação é verdadeira, dizem estas mulheres.

Maria Julieta Dias, freira das Religiosas do Coração de Maria, é uma das participantes do Colóquio Internacional de Teologia Feminista, iniciativa fundadora da Associação Portuguesa de Teólogas Feministas, que hoje e amanhã decorre em Lisboa. Nele irá defender a “afirmação anacrónica verdadeira” de que “Jesus era feminista”.

“No tempo de Jesus, o conceito de feminismo não existia”, diz Julieta Dias ao P2. “Mas, se olharmos para a atitude de Jesus perante as mulheres, quando elas tomam a iniciativa ou quando Jesus se dirige a elas, ele é um verdadeiro feminista, no sentido de reconhecer à mulher a mesma dignidade do homem.” E para Jesus, recorda, citando São Paulo na Carta aos Gálatas, “não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, pois são todos iguais em dignidade”.

Julieta Dias vai mais além: “Se alguma coisa há de diferente, é que, com as mulheres, Jesus se sente mais reconhecido e dá mesmo saltos qualitativos na inteligência da sua missão.” E guia-nos por episódios bíblicos para confirmar o que pretende dizer. No diálogo com a samaritana, que fazia parte de um povo que não se dava com os judeus, o judeu Jesus começa por entabular conversa e acaba a dizer-lhe que é o messias. Uma revelação surpreendente, contada no Evangelho de São João. É que, por contraste, explica Julieta Dias, em outros textos equivalentes, quando os discípulos lhe dizem que é ele o messias, Jesus ordena-lhes que se calem.

Perante uma cananeia, estrangeira que procura ajuda para a filha “cruelmente atormentada por um demónio”, Jesus não responde no primeiro momento e chega mesmo a ser “antipático”, acrescenta a irmã Julieta. Depois da insistência da mulher, ele acaba por ceder, percebendo que a sua missão “não é confinada ao judaísmo, mas se destina a todo o mundo”.

A Bíblia foi o ponto de partida da teologia feminista. Alguns dos trabalhos pioneiros começaram por corrigir as traduções que enviesavam os textos com a terminologia masculina acerca de Deus, explica Teresa Toldy, autora do primeiro livro em português sobre o tema: Deus e a Palavra de Deus na Teologia Feminista (ed. Paulinas), publicado em 1998.
Não se trata apenas de passar a usar uma linguagem politicamente correcta, diz Teresa Toldy, que é teóloga e professora universitária. “Só por isso, não adianta fazer teologia feminista. Mas o facto de a linguagem mudar pode ter um impacto directo na forma como as pessoas estabelecem a sua relação com Deus.”

Toldy cita os trabalhos pioneiros de Elisabeth Schüssler Fiorenza nos Estados Unidos. “Fez uma revisão da linguagem machista das traduções bíblicas. Mas, como estava ligada a sociedades antiesclavagistas, reconheceu, na linguagem dessas traduções, formas de submissão e escravidão da mulher.”

Há um terceiro episódio citado por Julieta Dias: quando Jesus visita uma família de amigos, Marta censura a irmã, Maria, por se ter sentado a escutá-lo, em vez de ajudá-la na lide de casa. A repreensão reflecte a opinião de que as mulheres deviam tratar da casa, cabendo aos homens as tarefas públicas. Mas Jesus “não só aceita a iniciativa de Maria como a louva por ela ter escolhido a atitude da verdadeira sabedoria”. Porque escutar o mestre é a atitude do discípulo, nota Julieta Dias.

                                               O lugar da mulher

Seguidoras eram também várias outras mulheres, acrescenta esta religiosa, que diz ter chegado à teologia feminista também depois de se pôr a estudar a Bíblia. Os evangelhos contam que várias mulheres acompanhavam Jesus, tendo algumas colocado os seus bens ao serviço do grupo, recorda. “Foram elas que tomaram a iniciativa de aderir ao movimento de Jesus e ele não as rejeitou.” E, depois da ressurreição, recorda, é às mulheres que ele pede que congreguem de novo os seguidores.

Portugal será, talvez, o último país da Europa a ter uma associação de teólogas feministas, diz Teresa Toldy. Incluindo nesta afirmação os países do Leste. Só em Espanha, são vários os grupos, associações e cursos universitários nesta área.

Roser Solé Besteiros, formada em Filosofia, do Colectiu de Dones en l’Església, da Catalunha, que participa também no colóquio de Lisboa, diz ao P2 que o objectivo da sua associação é “manter a atitude crítica em relação ao sistema patriarcal em todas as suas dimensões”. E ajudar também a “mudar as estruturas patriarcais da Igreja”.

O Colectivo de Mulheres na Igreja tem uma dimensão interconfessional, não se limitando ao catolicismo, mas a sua aposta fundamental é na formação na base, ajudando a que as mulheres possam interiorizar o seu lugar próprio, explica.

“A teologia pretende dizer Deus a partir do lugar que se ocupa”, diz Maria Carlos Ramos, licenciada em Teologia pela Universidade Católica Portuguesa e que integra o Graal, movimento internacional de mulheres católicas. O ser mulher é também um ponto de partida, diz, e a Teologia como área do saber “tem cada vez mais expressão e originalidade”. Uma associação pode também estimular as pessoas interessadas a investigar nesta área.

A teologia feminista, que se inicia na década de 1960, “continua a fazer sentido no interior do catolicismo”, diz Teresa Toldy. Por causa das imagens “androcêntricas de Deus” e pela “insistência na masculinidade de Jesus como argumento para excluir as mulheres”.

Também está em causa, claro, o lugar das mulheres no interior da Igreja Católica e a possibilidade de acesso aos ministérios – à ordenação como padres. Mas essa não é a questão fundamental, insistem todas. “Não gostamos que nos digam que queremos ser padres. A intenção não é repetir um modelo de Igreja que não nos agrada, mas contribuir para um serviço onde caberiam também pessoas casadas”, diz Roser Solé. E também, por exemplo, definindo se o Papa é aquele que manda ou se é um primus inter pares.

Roser admite que as igrejas protestantes com mulheres pastoras e bispos não resolveram o problema do paradigma. “Não é uma mudança rápida, é um processo lento e não se trata de fazer ascender a mulher a lugares da hierarquia.” Cita o caso de Inglaterra, onde muitas pessoas recusam receber mulheres negras como pastoras, para dizer: “Há que reinventar a ecclesia, a Igreja, como comunidade ao serviço dos outros.”.

As teologias feministas – o mais exacto é falar no plural, tendo em conta as diferentes correntes que existem – vão desde as que propõem uma linguagem igualitária às que recuperam o discurso da diferença, embora não para estabelecer hierarquias, explica Teresa Toldy.

Há também as que discutem a essência do cristianismo, na linha da teologia da libertação partindo da perspectiva dos mais pobres. Ou, ainda, as que analisam a permanência dos factores do colonialismo nas mentalidades.
Há as teologias que procuram encontrar o Jesus feminista e há as que dizem que o que importa é o sentido geral do texto bíblico e da relação que, com ele, as pessoas vão estabelecendo ao longo da história.

Se a Bíblia foi o ponto de partida, as teologias feministas afirmaram-se, depois, no estudo de um conjunto de áreas temáticas: desde logo a história da Igreja, recuperando fi guras de mulheres relevantes, mesmo do ponto de vista teológico. Maria Madalena, ainda no tempo de Jesus, várias líderes das comunidades fundadas por São Paulo, abadessas e místicas como Hildegarda de Bingen, Juliana de Norwich ou Teresa d’Ávila são apenas alguns dos nomes de um largo panteão, cita Teresa Toldy. No caso de Teresa d’Ávila, diz a teóloga, o grau de complexidade dos seus escritos “é semelhante ao dos textos de São João da Cruz”. Mas, como as mulheres não podiam ser teólogas, Teresa d’Ávila foi designada como mística. Em 1970, o Papa Paulo VI acabaria por proclamá-la como “doutora da Igreja” – mas, de forma perversa, o documento do Vaticano que diz que a Igreja não pode mudar a prática de apenas ordenar homens foi assinado, em 1976, no dia da festa de Santa Teresa d’Ávila, a 15 de Outubro.

Hildegarda de Bingen, além de compositora, médica e escritora, aconselhou e afrontou Papas e bispos e descreve visões com mulheres no altar, no lugar do padre. “É uma grande erudita”, comenta Teresa Toldy.

A linguagem acerca de Deus, predominantemente masculina, pode legitimar uma ordem social patriarcal, diz Teresa Toldy. “Quando se fala da paternidade de Deus, o que interessa é falar da relação. Por isso, Deus pode ser visto como pai, mas também como mãe.” E acrescenta: são metáforas, mas as metáforas configuram também modos de ver e de fazer. Julieta Dias vai à Bíblia buscar outro exemplo para dizer o mesmo.

No Evangelho de São Lucas, Jesus conta três parábolas sobre o amor de Deus, usando as imagens de um pastor, uma mulher e um pai. A do meio fala de uma mulher que perde uma dracma e não descansa enquanto não a encontra. Em todas as três há “a mesma dedicação e a mesma vontade de fazer festa” depois de se encontrar o que se perdera. O que, recorda, vem no seguimento das imagens do livro de Isaías, no Antigo Testamento: “Sereis amamentados, sereis levados ao colo e acariciados sobre os joelhos. Como a mãe consola o seu filho, assim Eu vos consolarei.”.
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António Marujo, jornalista português
Fonte: http://jornal.publico.pt/noticia/18-11-2011/jesus-era-feminista-dizem-elas-23435615.htm

Respostas de 5

  1. Acho muito estranho à Igreja Católica Romana, não citar o nome de Maria Madalena, como uma santa! Ao meu vêr, ela é realmente uma verdadeira santa, pois esteve com Jesus Cristo, em toda sua caminhada na Terra. Acredito que precisam rever os estudos Bíblicos de Maria Madalena. Ela realmente esteve na vida ,morte e ressureição de Jesus Cristo.

  2. Janete, você tem toda a razão. Maria Madalena é uma grande santa, por tudo que consta nos Evangelhos sobre ela.
    Nós assim a consideramos, embora não tenha havido uma “canonização” oficial por falta de certos requisitos “burocráticos eclesiais”, como, por exemplo, a comprovação médico-oficial de 2 milagres a ela atribuidos. Mas isto é secundário. Ela é, sim, uma grande SANTA! Giba

  3. Cheguei aqui procurando ler as teólogas; Li…Frei Bento O.P.
    Boa Nova! Resgatar a bela Mensagem de Jesus, igualitária entre homens e mulheres, indistintamente, é a única saída para uma Igreja falida, monarquista, hierárquica, absolutista. Somente com os homens e as mulheres de mãos dadas,em suas bases fundamentais, o Cristianismo se manterá Vivo e Promissor. Quem mais ganhará serão os homens e as mulheres, em humanidade, sabedoria e espiritualidade.
    Martha Pires Ferreira (Brasil RJ)

  4. Concordo com os demais comentários sobre Maria Madalena; não acho necessario uma canonização para quem recebeu privilegios do próprio Jesus, não de qulquer um da hierarquia da igreja; e mais, Madalena é que deveria ter sido chefe da igreja e não Pedro; será que isto não é averdadeira historia?

  5. Apenas para esclarecer Maria Madalena é e sempre foi uma santa do santoral romano, com festa própria em 22 de julho e com grande devoção popular

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