O veredito sem apelo de Bergoglio contra o padre pedófilo

 Marco Mangiacasale - pedófiloPode a justiça vaticana, em um caso de pedofilia na Igreja, chegar antes do que a italiana com uma sentença definitiva? E parecer assim ainda mais firme e inflexível? Pode, na era do Papa Francisco. Prova disso é um caso resolvido recentemente pelo Santo Ofício: o do padre Marco Mangiacasale (foto), o sacerdote da diocese de Como, na Itália, já condenado nos dois primeiros níveis do processo penal a três anos, cinco meses e 20 dias de prisão por abusos sexuais de quatro meninas menores de idade.

A reportagem é de Marco Ansaldo e Elena Affinito, publicada no jornal La Repubblica, 12-02-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O ex-pároco e depois ecônomo da paróquia de San Giuliano, com uma sentença assinada pelo papa argentino e pelo prefeito da Congregação para a Doutrina da FéDom Gerhard Ludwig Müller, no último dia 13 de dezembro, foi “reduzido ao estado laical”.

O procedimento, que ocorreu depois de uma investigação (Investigatio praevia) do delegado da averiguação, o padreAndrea Stabellini como vigário judicial, equivale, para um sacerdote, à pena máxima aplicável segundo o Direito Canônico. “É como uma condenação à morte ou à prisão perpétua”, disse um atento observador de assuntos vaticanos.

E é uma medida que, nesse caso, a Santa Sé tomou não através de um processo tradicional, com as testemunhas e a defesa. Mas até escolhendo a via administrativa, a mais rápida, dado o grau de certeza do Vaticano.

A redução do padre Mangiacasale ao estado laical é a primeira de que se tem notícia para um sacerdote italiano com Francisco. Outro caso, enfrentado no ano passado pelo Santo Ofício, é o do padre australiano Greg Reynolds.

Congregação para a Doutrina da Fé trabalha intensamente: no biênio 2011-2012, os padres despojados por Bento XVI do seu ministério sacerdotal foram cerca de 400. A fonte comenta, sem se admirar: “Essa é a política, que, em linguagem secular, poderia ser definida como justicialista, introduzida por Ratzinger quando, como cardeal, dirigia o Santo Ofício. Antes como prefeito e depois como pontífice, a fim de reprimir o triste fenômeno, ele introduziu uma legislação inflexível e, em alguns casos, não garantista”.

No documento, o Papa Francisco e o prefeito Müller dão a faculdade ao bispo da diocese de ComoDom Diego Coletti, de divulgar a notícia. No dia 30 de janeiro, uma quinta-feira à noite, Coletti convocou ao seu escritório, das 21h às 22h30min, as famílias envolvidas. Todos de pé, foi feita a leitura das disposições da hierarquia eclesiástica.

“O padre Marco Mangiacasale foi reduzido ao estado laical, não poderá trabalhar como educador nas escolas católicas, nem participar de qualquer modo de grupos ou organizações onde jovens estejam presentes”. O documento vaticano já havia sido assinado por Marco Mangiacasale. Os presentes apuseram a sua contra-assinatura. Sentando-se, pediram que o bispo divulgasse a decisão.

“De acordo conosco, é bom divulgar a notícia. Parece-nos certo que os fiéis de San Giuliano saibam como se concluiu o procedimento canônico e que existe uma Igreja limpa, na qual nós acreditamos, capaz de fazer justiça. Dê-nos um presente, Dom Coletti: no sábado, 15 de fevereiro, quando o senhor vier visitar a paróquia, diga-o à comunidade”.

A discussão foi longa. E bastante acalorada. Mas nada a fazer. Coletti decidiu manter reserva sobre o caso. Até mesmo em um momento em que, depois da polêmica ONU-Vaticano sobre a pedofilia, o próprio porta-voz papal, padreFederico Lombardi, lembrou que a Igreja aborda a questão “com uma exigência de transparência”. O golpe de cena final, na véspera da visita pastoral do bispo de Como a San Giuliano, foi a repentina comunicação do bispo de que não poderia ir, citando motivos de saúde.

Há quem diga que Coletti (que, contatado pelo La Repubblica através da sua secretaria de imprensa, preferiu não falar) se sentiu superado pela sentença da Santa Sé. E podem ser lembradas as suas palavras no momento da condenação do padre Marco, quando disse que o sacerdote “admitiu os seus erros e está seguindo um caminho de reparação do mal cometido”. Talvez, dizem no Vaticano, Dom Coletti, “como um pai, visava ainda a recuperar a própria ovelha”.

Ao contrário, há quem diga que o bispo de Como talvez agiu excessivamente na defesa do padre Marco, contribuindo, durante anos, para encobrir o caso antes que fosse descoberto graças a uma declaração de uma das meninas ao novo pároco de San Giuliano, padre Roberto Pandolfi.

Marco Mangiacasale, que, à espera da sentença definitiva da Cassazione [Supremo Tribunal de Justiça italiano], já descontou, de 8 de março a 26 de maio de 2012, dois meses de isolamento na prisão de Bassone, em Como, e agora se encontra protegido na casa da irmã, indenizou as famílias, como ordenou a justiça civil. Agora, a justiça vaticana também interveio.

Não há descontos na era da transparência do Papa Francisco.

Marco Ansaldo Vaticanista 2

 

Marco Ansaldo e Elena Affinito

 

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/528234-o-veredito-sem-apelo-de-bergoglio-contra-o-padre-pedofilo

 

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Respostas de 5

  1. Será que eu li direito? “Redução ao estado laical”? Ora, se ele foi reduzido a leigo, isso significa que seu estado anterior, “o estado clerical” é superior ao “estado laical”.Estes termos colocam,ainda que não abertamente, os leigos em um estado de inferioridade. Mudam-se muitas coisas, mas a mentalidade subjacente permanece. Para esta mentalidade “clerical” (em que o padre é castigado sendo “reduzido a leigo”,ou seja, sendo rebaixado de categoria) ser padre é um posto superior de comando,enquanto o leigo por sua vez é apenas um serviçal.
    Não basta dizer que foi rebaixado de categoria, ainda se diz textualmente:”É como uma condenação à morte ou prisão perpétua”. Segundo o que diz este texto o padre que é laicizado é como se tivesse sido condenado à morte ou ficasse preso eternamente.
    Que consequências se pode tirar de uma visão dessa para os leigos? Ser leigo é como um condenado, sem chances de liberdade.
    Penso que aos leigos ainda não são reconhecidos na prática aquilo que a Igreja Hierárquica tanto apregoa, a igualdade de todos perante Cristo.
    Fiz uma digressão do assunto, mas acho que a reflexão aqui posta se ajusta numa complementação da reflexão, pois de modo algum se poderia afirmar que é um castigo se tornar leigo, pois esta é nossa vocação essencial, a de batizados.Diante de Deus, eu espero, não haverá diferença!Aos olhos dos homens já basta toda esta distinção de pessoas!

  2. É óbvio que o estado clerical é superior ao estado laical , no sentido de ter poder. Algum leigo,por acaso,escolhe algum Bispo, Cardeal, ou vota no conclave para a escolha do Papa? Isso não significa que o laico não tenha sua importância. Aliás, os catecúmenos, que foram recebidos no Vaticano pelo Papa, sabem muito bem disso.

  3. As decisões condenatórias do Vaticano, à partida, não me merecem reparo. Todavia, e contradizendo-se o texto em causa a si mesmo, salientando, por um lado, a intangibilidade da era “Francisco” e remontando a onda de penalizações para tempos anteriores, não vejo por que motivo o Vaticano seja visto com tanta suspeita por eclesiásticos e entidades externas. Se a pena eclesiástica máxima tem sido aplicada ou, pelo menos prevista, só restará acrescentar outras, de que não vejo a Igreja poder dispor, a não ser que pretendamos instaurar um clima de delação e voltar ao tempo da Inquisição: “encontrar os relapsos e relaxá-los ao braço secular”. De resto, tranquiliza-me que fraseado como este “É como uma condenação à morte ou à prisão perpétua” não provir das instâncias dicasteriais romanas, mas de observadores. Porém, não me deixa tranquilo o beneplácito pela hipotética opção pela via administrativa,plasmada no comentário: “E é uma medida que, nesse caso, a Santa Sé tomou não através de um processo tradicional, com as testemunhas e a defesa. Mas até escolhendo a via administrativa, a mais rápida, dado o grau de certeza do Vaticano.”.
    A via administrativa nunca é totalmente segura,nem o alegado “grau de certeza” a ratifica. A via judicial, que tem em conta as possibilidades de defesa e segue os elementos testemunhais, documentais e periciais de prova revela-se muito menos falível e dá maior tranquilidade a quem teve a tarefa espinhosa de sentenciar.
    Não me aflige a expressão “redução ao estado laical”. Sempre reduzi quilómetros a metros e vice-versa e ninguém me ensinou que o quilómetro era essencialmente superior ao metro (grau é grau;não é essência).

  4. Concordo com uma ação célere,mas que deveria ser preventiva (ainda que por longo tempo), só se tornando definitiva, depois do devido processo legal. A mim me aborrece sim a expressão “redução” ao estado laical. Como este nosso irmão deixará de exercer o ministério ordenado e, se quiser continuar católico, deverá viver como um leigo, seria de se mudar o termo para “retorno” ao estado laical. Reduzir é lançar a menos. Ora, nosso estado de leigos (laós, povo, laicos do povo) é um estado que foi adquirido ao preço da encarnação, paixão, morte e ressurreição de um Deus que se fez homem. Não creio que seja algo a que se possa “reduzir” outro algo.
    Para o ser humano, que pode ser maior do que ser leigo? Lembremo-nos, o ministro ordenado nada mais é que um leigo, que, pelo sacramento da ordem recebe a missão especial do cuidado da santificação dos leigos, para que os leigos possam santificar o mundo… O ordenado não deixa de ser leigo (batizado), em que pese a sublimidade da graça extraordinária que recebe….
    Nosso vocabulário reflete nossa mentalidade.

  5. É isso mesmo, Paulo Augusto da Silva. Todo o ministério é serviço. O ministério sacerdotal dos padres só existe em função do sacerdócio comum dos fiéis, ou seja, em função dos leigos. Reafirmo que a expressão “redução ao estado laical” é uma infeliz colocação.Além do mais a comparação com “condenação à morte” e “prisão perpétua” é um grande equívoco. De modo algum tornar-se leigo será por si mesmo um castigo! Um santo bispo já dizia ao seu povo: “Temo pelo que sou para vós, mas me alegro pelo que sou convosco, pois para vós sou bispo, mas convosco sou cristão”!

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