Jan de Vos, pai espiritual

Da Revolta Zapatista em Chiapas – México

“Eu fui para converter os índios e eles me converteram”

Entrevista a Amiguet Louis – La Vanguardia em Espanha – La Fogata

Eu tenho 70 anos e o coração inteiro e entregue, mesmo com quatro “pontes de safena”. Nasci em Antuérpia, cidade cinzenta e monótona, e mudei para a luz da América. Fui jesuíta e sempre serei apaixonado companheiro de Jesus. A revolução e uma mulher me tiraram dos meus livros de história para a protagonizarmos juntos. A religião maia não é inferior à nossa.

– Minha família era muito católica: meu pai era um deputado democrata cristão e minha mãe rezava para ver um de seus nove filhos no altar. E conseguiu: me tornei um jesuíta.

– Você deu aulas em uma escola?

Eu fui para a Colômbia como um missionário. Eu comprei a melhor rede do mundo. Fazem-nas na cadeia de Mérida, no Yucatan mexicano. Os prisioneiros me venderamuma enorme rede de casal (me apercebi disso na floresta, dinate dos risos furtivos dos nativos).

– Você ilumina seu rosto ao lembrar isso.

– Eu vi a luz! Da Bélgica maçante e monótona para a selva e o oceano do Chocó. Na estação seca, subia os rios pela floresta até às aldeias indígenas com dois pares de sapatos: um par seco em minha mochila, enquanto o usava o outro. Eu estava tão feliz que eu me recusei a voltar.Enquanto isso, Gustavo Gutierrez escreve sua Teologia da Libertação no Peru.

– A América Latina fervia de indignação.

‘Eu fui para o México e descobri o mundo maia. Eles me mandaram para converter, mas logo percebi que tinha 500 anos tentando evangelizar o Maya sem sucesso: Aquilo não ele não fazia nenhum sentido.

– Por quê?

Falhamos porque pen~´avamos que éramos superiores aos índios. Eu quis conhecê-los antes de lhes impor qualquer coisa. Pratiquei a observação participativa antropológica praticada com os Maya durante 30 anos e estudei sua história: escrevi dez livros.

– Alguma conclusão?

-Os Maias acabaram me convertendo.

– Como?

-Me fizeram pensar. Para aprofundar a minha fé, eu decidi estudar teologia em Tübingen. Eu era um aluno de Ratzinger …

-Ele agora tem muitos mais alunos.

Hoje Bento XVI -… … E de Hans Kung.

“Foi hóspede dos opostos.

-Ratzinger, escrupuloso e disciplinado, ensinava uma disciplina do Neo-Tomismo. Ao contrário, Küng era um playboy da teologia.

– Popular?

-Para o nosso escândalo vinha dar-nos aula de teologia num Porsche vermelho. Quando chegou Maio de 68, Kung aceita alegremente debate após debate, mas Ratzinger se assustava muitíssimo do assalto às aulas dos estudantes. Eu decidi voltar para os meus Mayas.

– Você os viu com olhos diferentes?

Reli-a Bíblia. Descobri que a religiosidade deles era diferente, mas não inferior à nossa. Nossa religião é baseada na revelação feita pelos profetas e o último é Jesus de Nazaré, o filho de Deus para os cristãos, que, finalmente, nos dá a divulgação completa.

– Não acho que é a única verdadeira?

-Antes de Moisés, todos nós vivíamos a mesma religiosidade de culto à fertilidade e à terra que vivem os mayasa fertilidade e da vida da terra Maya: comungam com a natureza, a revelação eterna e quotidiana.

– Poderia se dizer que isso é idolatria e animismo.

-Nós todos fomos como eles. Moisés vai para Canaã e destroi a religião da natureza. Aqui começa o divórcio entre as religiões dominantes e nosso meio ambiente.

– Por quê?

-Moisés e seu povo não são agricultores, mas nômades, e Javé é um deus tribal. Guia só o seu povo na batalha para dominar as outras tribos, porque lhes ordenou: “repovoai a terra e submetei-a”

– Não não parece um lema do Greenpeace.

-Em vez disso, os maias resistiram a 500 anos de evangelização, porque consideram a terra como sua mãe. Toda vez que semeiam, lhe pedem perdão “Perdoa-nos, Mãe, devemos abrir-te para poder comer.” E não entendem que alguém possa comprar ou vender a terra sem trair a sua alma. Como é que alguém pode comprar ou vender sua mãe?

-Não me faças dizer nomes …

-Eu me recuso a considerar a minha religiosidade superior à religiosidade maya : aprender com eles! Eu vi, impotente, como destruimos a floresta para a subjugar e explorar.

-Você é um relativista moral: condenado.

– Eu sou o que eu vivi.

– E, sendo assim, você ainda é cristão?

“Eu não sou um jesuíta, mas” um companheiro de Jesus. ” Eu acredito em Jesus, sem intermediários e vejo a nosso lado todos os dias: Jesus era um desajustado, um pária, que era contra a religião estabelecida. Os poderosos e os sacerdotes o condenaram à morte, mas Jesus vive hoje na luta dos que sofrem: os despossuídos, os bem-aventuradosa que herdarão a mãe-terra porque a amam e morrerão por ela

– E você acabou sendo zapatistas.

-Pelo amor dos indígenas … e a uma mulher.

– Muito jovem, não é? Que perigo!

-Ela era a filha do fundador do Fundo de Cultura Económica: uma intelectual comprometida e mulher revolucionária as 24 horas.

– Eu não sei se seria minha cmpanheira ideal.

– Ufa! Não era fácil viver com ela! Mas agradeço a ela e à revolução duas coisas: ter-me tirado do passado e ter-me arrancado do escritório. Eu parei de escrever a história sozinho para a poder protagonizar com ela.

– Como?

-A maioria dos zapatistas tinham sido catequizados ou por meus companheiros …

– Vocês jesuítas eram um perigo.

-… Quando ocomandante David pegou minha mão, docemente me lembrou que ele foi meu aluno. Ele me pediu para escrever a história da Mayas, “porque a nossa história é o fundamento da nossa dignidade.”

– Um belo encargo

– Procurei patronos e o editei luxuosamente em quatro línguas maiaa e em espanhol. Vendemos 10 mil: cada um ao preço de uma cerveja. Hoje o chamam de “livro negro” pela cor dase capaa e o lêem com orgulho. A revolução continua agora nos municípios: sem câmaras, mas mais do que nunca perto do povo.


Tradução do Espanhol: João Tavares

Fonte: http://www.lafogata.org/zapatismo/zap_28-1.htm

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