Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/
O historiador de origem belga e um dos estudiosos do indigenismo das últimas décadas em Chiapas, Jan de Vos, faleceu no domingo vítima de uma parada cardíaca na cidade de San Cristóbal de las Casas, onde residia e realizava suas pesquisas o também escritor. Sua trajetória e seu compromisso com as causas sociais são destacados, assim como o seu trabalho comunitário com os grupos vulneráveis e indígenas.
A reportagem está publicada no sítio espanhol Religión Digital, 26-07-2011. A tradução é do Cepat.
O bispo daquela demarcação dos Altos de Chiapas, Felipe Arizmendi Esquivel garantiu que o estudioso europeu “trabalhou com afinco pelas comunidades indígenas do Estado, principalmente pela etnia tojolabal”, assentada na selva Lacandona.
O líder católico assinalou que o trabalho do historiador belga se centrou, além disso, na tradução de textos religiosos.
“Colaborou muito nas traduções da Bíblia para esta língua (tojolabal), além de outro tipo de estudos dessa cultura”, disse, ao mesmo tempo que expressou que o pesquisador pode ser um bom exemplo para resgatar e robustecer a língua tojolabal, cujos falantes estão diminuindo e atualmente somam cerca de 55.000 pessoas.
Em relação ao falecimento, o cronista de San Cristóbal de las Casas, Jorge Paniagua Herrera manifestou que a morte de De Vos é uma perda irreparável, que deixa uma escola, uma tendência da pesquisa historiográfica das mais legítimas e valiosas do século XXI dentro de uma etapa de pós-revisão da história de Chiapas e do México. Ponderou as qualidades humanas e o rigor científico do pesquisador.
Foi um homem honesto e vertical que, com sua disciplina científica, soube beber nas fontes originais para oferecer uma história verdadeira de Chiapas, como propõe o seu livro Os Enredos de Remesal.
Paniagua Herrera, disse que De Vos teve a formação acadêmica para uma escrita clara e aberta para oferecer uma historiagrafia alheia aos mitos políticos que prevalecem na história do Estado.
Jan de Vos nasceu em Antuérpia, Bélgica, no dia 17 de março de 1936. Veio ao México em 1973, como jesuíta. Assentou-se na região da selva de Chiapas nesse mesmo ano para pregar, mas com o passar dos anos o religioso deixou a congregação para se converter em historiador, pesquisador social e antropólogo, o que lhe deu notoriedade e prestígio entre os cientistas sociais de Chiapas.
Com doutorado em História pela Universidade Católica de Lovaina em 1978, dedicou-se a estudar o passado colonial e mais recente do sudeste mexicano em geral e de Chiapas em particular. Suas especialidades eram História Regional, Etnohistória e Histórica Ecológica.
Resenha sua ficha curricular que sobre estes temas escreveu mais de 10 livros. Entre eles destaca a trilogia sobre a Selva Lacandona: A paz de Deus e o rei (1980), Ouro verde (1988) e Uma terra para semear sonhos (2002).
Outros de seus livros são: Frei Pedro Lorenzo de la Nada, missionário em Chiapas e Tabasco (1980 e 2010), A batalha do Sumidouro (1985), Viagens ao deserto da Solidão (1988 e 2003), Não queremos ser cristãos (1991), Os Enredos de Remesal (1992) e Viver na fronteira: a experiência dos índios de Chiapas (1994).
De Vos trabalhou desde 1987 como pesquisador titular no Centro de Pesquisas e Estudos Superiores em Antropologia Social do Sudeste (Ciesas), com sede na cidade de San Cristóbal de las Casas.
Foi membro do Sistema Nacional de Pesquisadores, no qual obteve em 1994 o nível mais alto e em 2004 a nomeação de Pesquisador Nacional Emérito. Além disso, foi membro regular da Academia Mexicana de Ciências e membro correspondente da Academia de Geografia e História da Guatemala.
Por seu trabalho de historiador recebeu várias distinções, entre elas o Prêmio Chiapas (1986), a Medalha Vito Alessio Robles (1999) e o Reconhecimento ao Mérito Estatal de Pesquisa Científica, outorgado pelo governo de Chiapas (2005).
Afora seu trabalho de pesquisador-escritor, De Vos se dedicou a divulgar os resultados de suas pesquisas através de vários textos de divulgação. Entre eles figuram A fronteira da fronteira sul (1992) e Nossa Raiz (2001), uma história dos povos indígenas de Chiapas escrita para eles em espanhol e os quatro dialetos maias mais falados nesse Estado.
Suas últimas duas publicações são: As torrentes vêm de longe. Uma história de Chiapas (2010) e Caminho do Mayab. Cinco incursões no passado de Chiapas(2010). Está em processo de publicação A guerra das duas virgens. A rebelião dos Zendales (1712), documentada, recriada e relembrada.
De Vos recordava sua infância como um menino que nasceu e cresceu durante a 2ª Guerra Mundial, viveu em uma casa na qual viviam soldados alemães. Seu sobrenome De Vos significava “raposa”, em sua língua natal.
Dizia ser de uma família muito católica e muito numerosa. Era um dos nove irmãos. Foi em Ambares que entrou no colégio dos jesuítas, de onde saiu aos 17 anos para ir a uma universidade francófona ao sul de Bruxelas, pois queria aperfeiçoar a segunda língua de maior importância para os flamencos. Foi nessa universidade que estudou Direito.
Foi através de um grande professor que teve na universidade, que se dedicou à vida religiosa e entrou na Companhia de Jesus aos 19 anos. Foi em 1972 que “fugiu” desse mundo de colégios na Bélgica para fazer um ano pastoral no continente americano, para ser mais preciso, na Colômbia, onde viveu um ano na região selvática de Medellín.
Foi no final de 1973 quando deixou a Colômbia para se unir, no México, a uma comunidade dos jesuítas situada em Bachajón, Chiapas. Aqui deixou a vida religiosa para se dedicar à pesquisa social entre as comunidades indígenas de Chiapas e ensinar a eles também sua própria história.
Para Jan de Vos, a consigna foi “tornar o indígena sujeito de sua própria história”. Para chegar a isso, considerou que poderia ser útil ajudando-os a conhecer sua história.