Autor de livro sobre a homossexualidade na Igreja afirma que a instituição ainda não dá orientação clara
Fonte: http://www.estadao.com.br/
José Maria Mayrink – O Estado de S.Paulo
ENTREVISTA – Edênio Valle, padre e psicólogo
Polêmica. Para padre Edênio, revisão da lei canônica que impõe o celibato é necessária
Do papa aos formadores de seminaristas, as autoridades da Igreja Católica se preocupam com as tendências homossexuais de candidatos ao sacerdócio e à vida religiosa, mas não conseguem apontar o que se deve fazer para enfrentar as mudanças no campo afetivo que invadem seminários e conventos.
Numa visão psicoterapêutica e pedagógica, o padre e psicólogo Edênio Valle discute no livro Tendências Homossexuais em Seminaristas e Religiosos (Edições Loyola), escrito em colaboração com Deolino Baldissera, Eliana Massih e Ênio Brito Pinto, também psicólogos, o desafio enfrentado pela Igreja. Para os autores, os escândalos de pedofilia no clero forçaram o Vaticano a tomar posição, mas a questão é mais ampla.
Leia a seguir a entrevista.
A Igreja se esforça para acompanhar os seminaristas com tendências homossexuais?
Há uma preocupação e um esforço. Mas os documentos e instruções oficiais não são suficientes do ponto de vista do que se deve fazer. Tendem a ficar na repetição do que é essencial e a permanecer no campo dos princípios e da doutrina.
Esses textos tratam mais dos escândalos de pedofilia ou se estendem à formação e acompanhamento de portadores de tendências homossexuais?
Os escândalos provocados pelo comportamento do clero de vários países foram o estopim de algumas tomadas de posição da Igreja. A respeito da homossexualidade, existem documentos da autoridade eclesiástica que se referem aos problemas e polêmicas sobre o assunto. São posicionamentos independentes da questão da pedofilia ou da homossexualidade no clero. Eles representam uma reação aos debates que se dão na opinião pública. Têm a ver também com a força política que o movimento gay adquiriu nos últimos tempos. Outro ponto que mexe com a Igreja é a veemência com que a maior parte do fogo se concentra contra a Igreja Católica e contra o papa. Os documentos sobre a pedofilia, de cunho mais jurídico, tendem a ser cada vez mais duros e exigentes no plano dos procedimentos a serem observados. Já não é o que ocorre nos documentos referentes à homossexualidade, mais voltados para a formação e o acompanhamento dos seminaristas e padres.
Há resistência da Igreja e dos formadores a recorrer ao auxílio de psicólogos e outros especialistas nos seminários e conventos?
Houve e ainda há resistência, tanto na Igreja Católica quanto nas protestantes históricas. Julgo ser, em boa parte, uma questão de desinformação. Vejo algo análogo em setores não religiosos e acadêmicos mais conservadores. Há uma concordância quanto à necessidade de se condenar a homofobia. Até o catecismo da Igreja Católica reconhece e afirma os direitos de pessoas com tendência homossexual dentro e fora da Igreja. A questão da união civil entre indivíduos do mesmo sexo não encontra concordância tão grande, em especial se sob essa designação fala de casamento, no sentido católico de sacramento e/ou no sentido adotado pela Constituição brasileira.
Não houve uma evolução?
Muitos seminários católicos têm hoje psicólogos acompanhando os jovens. Há exceções, naturalmente. O problema é que alguns casos são bastante complicados e precisam de tratamento. “Sair do armário” só não resolve o problema psicológico de fundo.
Qual é a orientação da Igreja se um seminarista não parece capaz de assumir o compromisso do celibato?
As normas quanto às condições afetivas/sexuais a serem exigidas de um candidato ao presbiterado são as mesmas para todos, independentemente de sua orientação sexual. Na prática, a tendência homossexual acaba ocupando mais espaço e gerando mais preocupação.
Como a Igreja reage à manifestação de movimentos gays que reivindicam a ordenação de homossexuais como um direito?
A Igreja tem sido firme quanto ao princípio em si e não há indícios de mudança. A mera pressão gay não deve mudar seu ponto de vista. Na prática, porém, essa firmeza já não é tão radical. Daí talvez o fato de haver uma preocupação maior com os candidatos de tendência homoafetiva.
O fim do celibato seria solução para a sexualidade no clero?
É preciso distinguir o fim do celibato do fim da lei do celibato. Na Igreja Católica, só uma minoria propõe seriamente o fim do celibato. Na espiritualidade cristã, o que conta é a liberdade e não a lei. Enquanto lei canonicamente imposta, o celibato precisa ser revisto. Sendo livre, o celibato ajudaria no sentido de uma melhor vivência da sexualidade por parte dos ministros da Igreja.
Respostas de 4
a Hierarquia da Igreja Católica tem que criar vergonha na cara e deixar de ser retrógada, ser mais autêntica e honesta consigo mesma, todo mundo sabe que ninguém vive sem sexo. quem não tem parceiro ou parceira vive se martirizando na masturbação e fica aí pregando uma moral fajuta seria muito mais bonito se a igreja reconheçesse que o celibato como a igreja impõe causa muito problemas afetivos, e de mal-humor, psicológicos na maioria dos cléricos tanto em Bispos como em padres. o celibato não é um dado de fé e sim uma questão política, ideológica é uma questão de status social como uma casta dos intocavéis.
As vezes eu me pergunto: qual o verdadeiro sentido do celibato imposto aos sacerdotes? Será que tem sentido? Ou será que nele a Igreja se esconde? Não entendo e acho injusto ver tantos sacerdotes sendo forçados, pela Igreja, a largarem a “batina”, para poderem viver o amor ao lado de uma mulher. Enquanto outros, vivem uma vida desregrada, com alcoolismo, desvio de dinheiro, tendo relações com mulheres ou homens e, as vezes até com crianças. E, diante desses atos a Igreja passa a mão na cabeça dos sacerdotes. Não entendo, o pecado é assumir o amor com responsabilidade e fidelidade? E pior, a esse “pecado” a Igreja não perdoa, não entende, nem compreende. Enquanto, que em relação aos outros pecados citados aqui, a misericórdia da Igreja os alcança, os perdoa e, muitas vezes, os esconde. Quais são os valores que a Igreja prega? Não sei mais… Amo a Igreja Católica e dela faço parte, mas não posso concordar com ela diante de tal realidade.
VOU TECER ESSE COMENTÁRIO EM REPARAÇÃO AO ANTERIOR. EM PRIMEIRO LUGAR QUEM TEM AMOR A IGREJA VALORIZA-A COMO SUA PRÓPRIA MÃE. HOJE EM DIA POR DESCONHECIMENTO OU CONTAMINADO POR IDEOLOGIAS OU PARA IMPOR DESEJOS PRÓPRIOS (SEM RENUNCIAS), MUITOS SE ACHAM NO DIREITO DE FALAR DA IGREJA COMO UMA COISA QUALQUER. O RESPEITO PASSA LÉGUAS. PENSO QUE AS PESSOAS CRIAM POSTURAS RADICAIS QUE NÃO LEVAM A NADA PARA DEFENDER IDEOLOGIAS IMPOSTAS, SOBRETUDO PELA MIDIA COMO UM TODO, EM TORNO DO SEXO; E TAMBÉM VIVENCIAS QUE NÃO SE ADEQUAM A VIDA SEGUNDO O EVANGELHO. DE FATO A IGREJA SOMOS TODOS NÓS, HOMENS E MULHERES PECADORES! ESTAMOS SEMPRE ABERTOS PARA CRESCER, COMO IGREJA, POVO DE DEUS.
Prezada Paula, você tem toda a razão com este opotuno e lindo comentário.
Os 6 mil padres casados do Brasil lhe agradecem a compreensão.
Queira Deus que quanto antes a cúpula da Igreja suspenda esta injusta imposição do celibato obrigatório ao clero católico.
como foi opcional desde Cristo (que escolheu os primeiros padres casados – os apóstolos) até o século XI.