Interessante artigo do Pe. Celso Kallarrari
Do artigo abaixo: “…a problemática do celibato consiste na seguinte questão: ele é um carisma e, por isso, torna-se então problemático obrigá-lo. Não cabe a menor dúvida de que o celibato, embora seja um dom para alguns, para outros se converte em terrível carga que conduz à solidão, ao álcool e ao abuso de drogas, assim como a condutas sexuais inapropriadas…uma carga que requer seguir sendo estudada” –
João Tavares
Fonte: www.abiblia.org
Biblicamente falando, a base de argumentação ao celibato pela Igreja Católica sustenta-se no exemplo de Paulo I Cor 7, 1-9, onde ele afirma que o celibato é a melhor forma para dedicar-se totalmente à evangelização. Entretanto, em outra passagem, o mesmo apóstolo Paulo, reivindica o direito de levar consigo uma esposa (uxores), traduzido por Jerônimo (383, Adv. Helvidium) por “levar esposas” (uxores circumducere). Este termo mais tarde vai ser traduzido, intencionalmente, por “mulheres” na bíblia católica e não por “esposas” como corretamente a exegese do texto o apresenta: “Não temos nós o direito de levar conosco uma esposa crente como fazem os outros apóstolos, os irmãos do Senhor e Pedro? ” (I Cor 9, 5). Ora, sabemos que o apóstolo Pedro (Mc 1, 29-31) e todos os demais, exceto João, casaram-se. Afinal, conforme a tradição da Igreja nos ensina, o celibato não deve ser uma lei, mas uma opção livre daquele candidato ao sacerdote que, realmente, sente-se vocacionado para o celibato. O celibato obrigatório passa a ser, portanto, lei dos homens e não divina.
1. Padres casados na Igreja Católica Romana
O que muitas pessoas não sabem (inclusive os próprios fiéis) é que, na Igreja Católica Romana, os padres podem casar-se. Na Igreja Romana, existem duas grandes divisões de ritos: o latino, adotado na Europa, África e nas Américas (do norte, central e do sul) e o rito oriental, somando um total de 22 Igrejas, subordinadas ao Vaticano, onde os padres podem casar. Todavia, somente aqueles padres católicos romanos orientais que optarem pelo casamento antes de ser ordenado sacerdote, assim como nas Igrejas Ortodoxas e Anglicana.
No Líbano, a Igreja Católica Maronita é um desses exemplos. Lá como em todo o oriente, os religiosos podem (livremente) optar pelo celibato ou pelo casamento e, por isso, não há nenhum impedimento legal para o exercício do sacerdócio. No mundo oriental, os católicos romanos, apesar de ser minoria, somam um total de 16 milhões.
No Brasil, os bispos das Igrejas Católicas Orientais (maronita, melquita e ucraniana) enviaram um documento a Roma solicitando a liberação do matrimônio para seus futuros padres. Até hoje, não obtiveram resposta. Fares Maakaroun, arcebispo Grec o-Melquita da Igreja Católica no Brasil, é a favor do celibato opcional e da ordenação de homens casados. Ele é filho de um padre casado e espera que o Vaticano possa um dia deixar livre ao candidato ao ministério fazer opção pelo celibato ou casamento. De acordo com Dom Faris, “Se estamos interessados na comunhão com os ortodoxos, por que não preparar desde já homens casados, no interior da Igreja Católica Romana para assumir o sacerdócio?”.
Na verdade, no pontificado de João Paulo II, por mais contrário que esse papa fora ao casamento dos padres, já havia declarado, (apud The Oxford Dictionary of Popes), em julho de 1993, que “O celibato não é essencial ao sacerdócio; não foi uma lei promulgada por Jesus Cristo”. E, historicamente, bem sabemos que afirmar outra coisa seria incoerência com os dados históricos porque contradiz a história da própria Igreja Ocidental. Por questões proselitistas, outra grande incoerência é a Igreja Católica receber padres casados com suas respectivas esposas e filhos da Igreja Anglicana e não permitir que aqueles padres que contraíram casamento e vivem uma vida exemplar possam celebrar a santa missa.
Afinal, desde o século I, Pedro (considerado o primeiro papa somente no século V e VI) era casado, juntamente com todos os apóstolos que Jesus escolheu, exceto João, conforme documentos históricos registram. E, ainda, os documentos indicam que até as mulheres dos padres presidiam à ceia eucarística na Igreja primitiva e que, na história da Igreja, 39 papas se casaram e alguns tiveram filhos. O papa Alexandre VI teve vários filhos, o papa Sérgio III (898) se apaixonou por uma italiana chamada Marozia e teve um filho com ela. Este filho (o papa João XI) foi papa aos 22 anos de idade.
Não há dúvidas, portanto, de que o poder papal cresceu e se auto-afirmou com o Imperador Romano Valentiniano II, no ano de 445. Este imperador reconheceu, oficialmente, o poder do papa no exercício de autoridade sobre as demais Igrejas. Em termos históricos, o primeiro papa, oficialmente falando, seria Gregório (600 D. C.) porque o termo “papa” significa “pai” e era usado até o ano 500 D. C. por todos os bispos ocidentais.
A Igreja Maronita foi fundada por São Marun quem permitiu (conforme a tradição oriental) o casamento dos seus sacerdotes. Ele não quis se desviar dos costumes e tradições herdadas desde o início do cristianismo primitivo quando era comum a ordenação de homens casados, cuja opção (não imposição) deveria ser adotada por toda a Igreja Católica. Principalmente nesses novos tempos onde o inimigo (satanás) tenta astutamente destruir a Igreja de Cristo e, por isso, utiliza-se dos meios de comunicação de massa para descobrir a vida desregrada de alguns sacerdotes, divulgando, sobretudo, escândalos relacionados ao homossexualismo, a vida conjugal e o que é pior, pedofilia no seio da Igreja.
Com o advento da Internet, muita coisa veio à tona. Por exemplo, não dá para esconder que, atualmente, na Igreja Católica Maronita do Líbano há 1.200 sacerdotes. Destes, metade do clero (600 padres) pertence a ordens religiosas e fazem livremente a opção pelo celibato. A outra metade, isto é, 600 padres diocesanos são casados. De acordo com o bispo católico El Hage, esses sacerdotes não criam problemas e são excelentes sacerdotes. Só para ter uma idéia, no oriente, não se tem problemas com homossexualismo ou pedofilia entre esses padres. Nos últimos dois anos, somente dois sacerdotes abandonaram a batina.
2. A proibição do casamento na história da Igreja
De fato, não há como negar que, nos primeiros séculos do cristianismo, não havia quaisquer proibição em relação à ordenação de padres casados. No século V, por exemplo, os 300 bispos dos que participaram do Concílio de Rímini eram casados. Entretanto, as proibições só começaram a ocorrer (em algumas dioceses) somente a partir dos séculos IV e V, por questões administrativas e econômicas. Em outros termos, um padre casado e com filhos significava que para a Igreja teria que dividir os seus bens com os futuros herdeiros do sacerdote. Para quem fica a herança do padre? Para os filhos e esposa ou para a Igreja?
Entre os católicos orientais e ortodoxos, a tese é de que se a Igreja mantiver seus ministros como celibatários (solteiros) e, aparentemente, viver como São Paulo a castidade, estaria (I Cor 7, 1-9) podando as vocações de homens casados que, evidentemente, fazem a opção pelo sacerdote, conforme os conselhos do próprio Paulo que diz que “é bom que o homem não toque em mulher, mas, por causa da imoralidade, cada um deve ter sua esposa, e cada mulher o seu próprio marido (…). […] Gostaria que todos os homens fossem como eu; mas cada um tem o seu próprio dom da parte de Deus; um de um modo, outro de outro. Digo, porém, aos solteiros e às viúvas: É bom que permaneçam como eu. Mas, se não conseguem controlar-se, devem casar-se, pois é melhor casar-se do que ficar ardendo de desejo” (I Cor 7, 1-9).
Noutras passagens do Novo Testamento, fica mais clara ainda a tradição bíblica dos cristãos primitivos: “O diácono deve ser marido de uma só mulher e governar bem seus filhos e sua própria casa. Os que servirem bem alcançarão uma excelente posição e grande determinação na fé em Cristo Jesus” (I Tm 3, 12-13). Recentemente, percebe-se uma volta, um resgate (a depender do bispo local) do ministério tradicional e bíblico dos diáconos, esquecidos, por muito tempo, pela Igreja Romana. Em relação ao sacerdote: “É preciso que o presbítero (sacerdote) seja irrepreensível, marido de uma só mulher e tenha filhos crentes que não sejam acusados de libertinagem ou de insubmissão” (Tt 1, 6).
Somente no Concílio de Latrão, em 1123, é que o celibato passou a ser (somente no Ocidente) uma imposição disciplinar aos futuros padres. Mas somente no século XVI no Concílio de Trento (1545 a 1563) que, oficialmente, a Igreja Católica do Ocidente instituiu lei, norma interna, proibindo o casamento dos padres e exigindo o celibato. No Oriente Cristão, sejam para Católicos ou para Ortodoxos, os homens casados mantêm o direito de ser ordenado conforme o estado que se encontre (casado ou solteiro) e, somente os bispos e patriarcas devem ser celibatários como sempre foi na tradição da Igreja. E o mais bonito: não faltam padres, há muitas vocações, diferentemente do mundo ocidental. Em suma, o celibato não tem nada a ver com dogma, mas é uma questão disciplinar, isto é, uma estratégia política e econômica da Igreja, podendo ser revogado por qualquer papa quando quiser.
3. A lei ou o direito?
Gostaria de finalizar, comentando sobre um excelente livro de um sacerdote católico romano, o americano Donald Cozzens (2007) que também é psicólogo, professor e reitor de teologia pastoral em seminário e que, inclusive, trabalhou por muitos anos na orientação de sacerdotes, principalmente aqueles envolvidos nos escândalos de pedofilia e suas vítimas nas últimas décadas. Segundo o autor, o cerne de tal questão do celibato obrigatório o acompanha desde quando sentiu, ainda no curso primário, a vocação ao sacerdócio. Segundo o referido padre, a problemática do celibato consiste na seguinte questão: ele é um carisma e, por isso, torna-se então problemático obrigá-lo.
Na visão desse autor, a crise acontece justamente porque a Igreja Católica regulamentou um carisma. E, em muitos casos, o seminarista assume o sacerdócio célibe, isto é, não sem nenhuma experiência sexual, “TENDO OU NÃO O CARISMA”, mas confiando na graça de viver com alegria a disciplina do celibato. Todavia, esquece-se de que “A GRAÇA SUPÕE A NATUREZA” e de que confiar na graça sem a natureza se chama presunção. De acordo com o padre católico João Batista Libânio, doutor em Teologia Greco-romana, “Não cabe a menor dúvida de que o celibato, embora seja um dom para alguns, para outros se converte em terrível carga que conduz à solidão, ao álcool e ao abuso de droga s, assim como a condutas sexuais inapropriadas… uma carga que requer seguir sendo estudada” (LIBÂNIO, 2007, p. 189).
Respostas de 14
Concordo plenamente! A Igreja Católica Romana precisa rever alguns conceitos e práticas! Parabéns pelo artigo esclarecedor e ao mesmo tempo instrutivo e formativo.
Artigo de profuno conhecimento, estou certo de que um dia o homem reconhecerá a grandeza do AMOR DIVINO e não mais rejeitará ninguém em nome de dogmas.
Prezado Pauo Henrique, respeiamos sua opinião.
Mas esclarecemos que nada existe de conraditório nem anti-evangélico nem anti-humano na união de sacerdócio e casamento.
Você deve saber que os padres se casavam desde Jesus Cristo (dos 12 apóstolos, 11 eram casados, inclusive Pedro, o 1o Papa).
e até o século XI todos os padres católicos casavam.
Um Papa teve a infeliz idéia de proibir o casamento temporariamente, e isso lamentavelmente perdura 10 séculos, contra os direitos humanos dos padres, e contra a tradição e o Evangelho. Leia as cartas de São Paulo, onde fala aos padres que tenham só uma esposa e eduquem bem seus filhos.
Um bom curso de teologia ajudaria você a atualizar sua mentalidade.
Eu percebo que nesta atual conjuntura religiosa o Igreja Catolica precisa rever esta situação do casamento do Padre, com isso ao meu ver as coisas fluiriam muito mais, seja, teriamos mais vocacionados ao sacerdocio, não pelo fato de casar por casar mas sim por estarmos dentro do conceito Biblico ” crescei e multiplicai”.
Prezado Felix, sempre plenamente corretas as suas observações. Estamos de pleno acordo com você, bem como a grande maioria dos padres e leigos, e já um grande número de bispos.
Giba
achei o documentario fabuloso. conheço um alguém que tem dificuldade com alcool. acho que ochamado de Cristo tem que ser o principal ideal. porem acho que a igreja não deve submeter seus sacerdotes a ideais que ´talvez só lhe favoreça.
é claro que,biblicamente todo homem não pode ser privado do casamento,pois nosso Deus deixou bem claro,não é bom que o homem esteja sóooooo
Amigo Roberto, você tem toda a razão. Grato. Giba.
Prezada Katherina, grato por seu comentário. Realmente, nossa Igreja católica deixava seus padres casarem até o século XI. Por motivos oportunistas e econômicos proibiu temporariamente o casamento, mas este TEMPORARIAMENTE já dura 10 séculos…!!!
Que Deus a ilumine para mudar isso quanto antes.
Giba
eu acho um absurdo os padres nâo poder casar,ele é uma pessoa senti falta de carinho,como outra qualquer,acho que se os padres podesem casar os escandalos seriam bem menos…Ângela
Ângela Maria, você pensa como a maioria dos bons católicos que conhecem a bíblia e a história eclesiástica de nossa Igreja.
Até o século XI a totalidade dos padres católicos casava. Uma proibição “temporária” perdura até hoje!
Esperamos dias melhores.
Giba
Muito bom artigo pena que poucos teem conhecimento de obra tão valiosa.A Igreja Romana está em profunda contradição quando permite padres casados no Oriente e os proibe no Ocidente. A Igreja Maronita mesmo é uma prova disso. Nasse sentido todas as PUCs fecham as portas, entendem de tudo menos do que são regidos seus dirigentes.(o direito natural de seus padres). Vergonha, hipocrisia a sol aberto.Até onde vai esse tipo de visão? Jesus curou a sogra de Pedro.
nas igrejas orientais que seguem o ensinamento do papa é permetido os padres casarem.
…nem mais…a igreja católica deturpou certos e importantes valores do verdadeiro Cristianismo…a Igreja é uma comunidade doente porque não obedece às leis de Cristo mas sim as leis dos homens…fico triste quando me deparo frente a atitudes desumanas e inadequadas de certos sacerdotes…