Bispo Dom Luciano e Santa Mônica

 

 

Homilia de padre Pedro Camilo Telles, em Belo Horizonte, em 5 de Setembro de 2013. Haec opportet facere et illa non omittere.

O texto do evangelho desta  terça-feira me sugere o itinerário para nossa reflexão. “É preciso fazer isto e não omitir aquilo”. Celebramos a memória de dom Luciano Mendes de Almeida, mas não podemos omitir a memória da santa de hoje, santa Mônica. Esta primou por uma maternidade sofrida, mas fecunda. Gerou Agostinho no seu seio e gerou santo Agostinho, nas lágrimas e nas súplicas.

Ele, dom Luciano, como sacerdote e como bispo, certamente muitas vezes em lágrimas, gerou o Cristo em milhares de almas e o gerou também através de intensos trabalhos pastorais e na vivência de uma caridade quase heroica, devotada aos mais pobres e marginalizados. Carinho e atenções maternas em ambos, continuamente, e nas mais diversas circunstâncias, muitas delas adversas.

Mônica, em Tagaste e em Cartago, viveu na paciência e na esperança os sofrimentos que lhe advinham do marido Patrício e do filho desmiolado Agostinho.

Dom Luciano, na grande são Paulo e na vasta arquidiocese de Mariana, viveu, na paciência e na esperança, as agruras do pastoreio episcopal.

Paciência, virtude necessária para suportar as deficiências, os erros e até desmandos daqueles a quem se ama. Esperança, na certeza de que o bem e a graça divina agem in tempore oportuno.

Assim santa Mônica, e,  do mesmo modo, dom Luciano, caminharam na esperança.

Ambos assediavam os céus com orações, renúncias, silêncios. “O coração do jovem ainda está demasiado rebelde, mas há de chegar a hora de Deus”, disse a Mônica o sábio e santo bispo de Milão.  E diante de suas queixas, o mesmo sábio bispo lhe disse: “É impossível que o filho de tantas lágrimas se condene”. Não teria dom Luciano, nos seus momentos de agonia e de lágrimas, ouvido do Cristo, no seu íntimo, palavras semelhantes, ao auscultar o coração rebelde de seus pupilos? Ele estava certo de que a hora de Deus iria chegar um dia!

A intensa alegria de Mônica aconteceu naquele agosto de 386, quando Agostinho lhe anunciou sua plena aceitação da fé católica. E atingiu o grau máximo, na páscoa de 387, quando santo Ambrósio lhe conferiu o batismo.

E também intensa alegria inundou o coração de Dom Luciano na sua ordenação sacerdotal, na sua ordenação episcopal, na criação da Rede Vida de Televisão, na implantação de comunidades paroquiais com fervor missionário, no esforço para erradicar a fome e a miséria, na multiplicação dos serviços e casas de atendimento aos idosos, crianças, jovens, homens do campo, dependentes químicos, pessoas carentes e com deficiência.  Nesta histórica arquidiocese de Mariana implantou sabia e prudentemente os projetos do Concílio Vaticano II. Criou as cinco regiões pastorais e os vicariatos, organizou centros de pastoral, encontros de presbíteros e diáconos. Criou a sonhada Faculdade Arquidiocesana de Mariana e ordenou  para esta arquidiocese cerca de 94 sacerdotes.

Como todos percebemos, são muitos e variados os aspectos proeminentes e paralelos da vida e da pessoa de Mônica e de Dom Luciano.

É preciso fazer isto e não omitir aquilo (haec oportet facere et illa non omittere). Eu vejo em ambos a presença de uma fé robusta, que se transforma em marca fundamental de suas personalidades. “Beata quae credidisti”… Ela e ele creram, por isto falaram e agiram. Não “cogito, ergo sum” “ o penso , logo existo”, mas o “creio,  logo falo!”.

É pela fé  ingressamos na escola  de Cristo e  nos tornamos discípulos do Divino Mestre. A alegria e a felicidade, que a fé nos concede, também nos torna missionários: Mônica e dom Luciano, mulher e homem de fé,  queriam difundir a felicidade que esta virtude lhes  proporcionava. A fé é convicção,  convicção que, por sua vez, convence. Ela e ele convenciam a todos que deles se aproximavam.

Santidade é a graça de Deus, operando em seres humanos e através deles. Ela se manifesta por uma estrutura de virtudes em dois patamares: o patamar das três virtudes sobrenaturais ou teologais, fé, esperança e caridade e o das quatro virtudes morais ou cardiais (derivadas originalmente da ética de Aristóteles) a prudência, a justiça, a coragem e a temperança.

Como se espera que todos os cristãos pratiquem estas virtudes, santo é alguém que as pratica em grau heroico ou excepcional. O conhecido teólogo suíço, Hans Urs von Balthasar, escreveu que “ninguém é tão ele mesmo, quanto o santo, o qual se oferece ao plano de Deus e, para cumpri-lo, está preparado para entrega a Deus todo o seu ser, corpo, alma e espírito”.

Mônica desabafou ao seu filho Agostinho: “Filho, quanto a mim, nada mais pode ainda atrair-me nesta vida…minhas esperanças já se realizaram… “ (Conf. IX, 10,26). – Dom Luciano demonstrou, é o
testemunho de todos que com ele privaram, amplo e total desprendimento de tudo que é material. Na realidade, a esta vida só o prendia o desejo de “ver cristãos católicos os filhos que a Providência lhe confiou.

Contemplemos Mônica; observemos dom Luciano! Admiremos a ambos, pois eles deixaram tudo e seguiram o Mestre. Inspice et fac secundum exemplum. Ao contemplá-los,  procuremos imitá-los.
Amém!

Pedro Camilo Telles

Monsenhor Pedro Terra Filho, professor do Instituto de Filosofia e Teologia dom João Resende Costa
–  PUCMINAS.

pedrocamilotelles@gmail.com

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