NA REALIDADE, O QUE QUERIA JESUS?

É uma pergunta que continuamos a fazer. Era a Igreja o que Jesus queria? Era uma religião o que pretendia fundar?

Em conferência recente na Universidade Centro-Americana de San Salvador, o teólogo José Comblin afirmou: “O Evagelho vem de Jesus Cristo. A religião não vem dele. O Evangelho não é religioso. Jesus não fundou nenhuma religião. Não fundou ritos, não ensinou doutrinas, não organizou um sistema de governo. Nada disso. Ele se dedicou a promover o Reino de Deus. Ou seja, uma mudança radical de toda a humanidade em todos os aspectos”.

Foram estas afirmações do Pe. Comblin que levaram a resumir aqui o que escreveu, faz anos, outro teólogo, o suíço Herbert Haag.

O que a Igreja ensina será diferente do que Jesus ensinou? É claro que o ensinamento da Igreja não pode ser outro senão o do Evangelho. É nele que se encontra a voz de Cristo.

Donde nos vem tal certeza? É de estranhar que os escritores gregos e romanos da época mal tomassem conhecimento de Jesus de Nazaré que, por breves três anos, agitou a Palestina. A explicação é simples. No império romano, a questão de Jesus era um assunto meramente local e a crucificação de um perturbador era coisa rotineira, do quotidiano. O fato de os escritores judeus passarem pela história de Jesus o mais silenciosamente possível compreende-se por si. Só os seus discípulos e adeptos podiam ter um ardente interesse pela pessoa e doutrina de Jesus. Daí que escrevessem sobre ele com entusiasmo, a fim de conquistar novos admiradores. E quem narra os feitos de alguém de quem está apaixonado, corre o risco de o ealizar e de não ser totalmente objetivo. Os Evangelhos não estão isentos disso.

O Evangelho não é um único, são quatro, escritos por quatro autores, em tempos diversos (anos 70 a 100 da nossa era), em diversos lugares e para diversos tipos de leitores. Daí, algumas divergências, mas não no essencial. Os acontecimentos narrados tinham-se dado há 40-70 anos. A uma distância dessas, uma versão exata era impossível. Para mais, os evangelistas registravam por escrito os acontecimentos tal qual eram narrados nas comunidades. O que anotavam, não eram só os pensamentos de Jesus, mas também os pensamentos do narrador ou pregador, nem sempre os melhores.

Hoje os biblicistas esforçam-se por destrinçar o que é autêntica pregação de Jesus e o que é pregação posterior da Igreja.

Como profeta, Jesus outra coisa não fez senão o que os profetas de outrora fizeram: exortar as pessoas à pureza da fé e da vida, à justiça e à verdade. Não pôde pensar  em substituir a religião judaica por uma nova religião. Não foi seu desejo fundar uma religião nem uma Igreja. A fé que pregou era a fé judaica.

Com o correr dos séculos, haviam-se introduzido no judaísmo admoestações, leis e costumes que não podiam ser atribuídos aos profetas. Contra tais desfigurações, Jesus tomou por missão restaurar a verdadeira religião de Israel. E era essa a sua religião. E também a sua fé.

Havia no judaísmo, como ainda hoje há, um único dogma: o da unicidade de Deus: “Escuta Israel: O Senhor é nosso Deus, o Senhor e mais nenhum” (Dt 6,4).

Confessar este dogma era o bastante. Jesus manteve-o e não anunciou qulquer outro.

Entretanto, o católico está hoje sujeito, no mínimo, a trinta dogmas, desde a conceição imaculada de Maria à infalibilidade do Papa.

Este único dogma do judaísmo deixava um amplo espaço à liberdade. No tempo de Jesus, os fariseus acreditavam na ressurreição, os saduceus, não. Todavia, uns e outros frequentavam o mesmo Templo e lá rezavam ou ofereciam os seus sacrifícios. Além dos fariseus e saduceus, existia um outro partido religioso, o dos essênios, cujo centro era Qumran, às margens do Mar Morto. Os essênios não iam ao Templo, rejeitavam o sacerdócio que lá servia e celebravam a Páscoa noutra data, sem o cordeiro. Não obstante, ninguém lhes negava a condição de judeus.

Tal como existia em Israel um só dogma, existia também um só andamento: “Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças” (Dt 6,5). Quer dizer: a fé só é bem fundada, quando se converte em amor.

Mas, e o mandamento do amor ao próximo? Muitos cristãos pensam que esse mandamento foi uma novidade trazida por Jesus. Na realidade, ele já constava no Antigo Testamento: “Não te vingarás nem guardarás rancor aos filhos do teu povo, mas amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19,18). Portanto, Jesus já o encontrou na Escritura. Fez, porém, dele algo novo. Não só o universalizou. No Antigo Testamento, ambos os mandamentos se encontravam em contextos diferentes. Jesus associou-os, embutiu-os e fundiu-os numa única unidade (Mc 12,28-31). É que, sem o amor ao próximo, o amor a Deus é uma ilusão.

Jesus não nos disse o que devemos fazer a cada momento. Deixou-nos apenas normas de uma vida simples. Elas nos deviam bastar: que Deus é um Pai bondoso; que devíamos obedecer antes a Deus que aos homens; que diante de Deus todos os seres humanos são iguais; que, em virtude disso, também nós os havemos de tratar como tais; que Deus não olha às obras exteriores, mas ao coração; que devemos orar com confiança, mas que a nossa oração não tem valor, se nós, ao mesmo tempo, formos impiedosos com o próximo; que Deus nos perdoa, se nós soubermos perdoar; que, após a morte, não sucumbiremos, mas continuaremos a viver para sempre.

Se não tentou fundar e organizar uma Igreja, foi também por acreditar que o fim do mundo estava iminente. E, para preparar as pessoas para esse final, o que anunciou foi o Reino de Deus.

Entretanto, o mundo não acabou. Quando isso se tornou evidente, é que, nas comunidades que se reuniam em seu nome, se achou urgente anotar a pregação de Jesus, a fim de que ela não se perdesse. Foi assim que os evangelhos começaram a ser escritos relativamente tarde, quarenta ou mais anos depois da morte de Jesus. Mas o terem sido escritos devemo-lo às comunidades cristãs primitivas. E o não terem desaparecido como tantos livros da antiguidade, devemo-lo à Igreja, desdobramento dessas comunidades, que os conservou como tesouro precioso. E foi sob a sua vigilância que eles foram traduzidos até hoje em milhares de línguas.

Não se pode ocultar que a Igreja, em muitos aspectos, também obscureceu a memória de Jesus. Daí que ouçamos com frequência: “Jesus, sim, Igreja, não!” E somos capazes de entender. A organização e instituição da Igreja foram coisas necessárias. Entretanto, as instituições, com o tempo, se convertem facilmente em mecanismos que estiolam a vida. A sua doutrina, que era importante, ao se fixar e cristalizar em dogmas, sujeitou os crentes, restringindo-lhes a liberdade. Mas nós não podemos aceitar de olhos fechados tudo quanto a Igreja faz ou diz. Temos de ser cristãos críticos, porque ela precisa, a todo o tempo, de reforma. E as reformas nunca vêm de cima, vêm sempre de baixo. Para isso, temos, nas nossas mãos, o Evangelho. O mundo ouve a voz de Jesus pela voz da Igreja. Mas só escutará a Igreja, se ouvir nela a voz de Jesus, a voz do Evangelho.

Fonte: Herbert Haag, in Jesus von Nazaret, Herder, 1997.

Síntese: Luís Guerreiro

Uma resposta

  1. devemos rezar muito,assim como passaram muitos imperios,esse romano deve desaparecer do mapa,

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