Marcelo Barros compartilha inquietações quanto à euforia que cerca a participação do Papa Francisco durante a JMJ. Ajuda-nos a enxergar aspectos inquietantes normalmente não percebidos por quem se acha mais envolvido pelo clima de euforia em vigor. Vejamos seu relato, publicado em seu Site nos dias do JMJ. Com certeza, uma atitude de oba! oba! pode nos desviar do trabalho conjunto e sério da verdadeira, séria e urgente reforma de que nossa Igreja precisa
Estou nesse momento indo para a favela de Santa Marta, no Rio, onde a Telesur, televisão bolivariana da Venezuela que transmite para toda a América Latina de língua espanhola, colocou o seu estúdio.
Minha tarefa com eles é comentar, a partir da teologia da libertação e da opção dos mais pobres, a visita do papa e a Jornada da Juventude.
É claro que a própria figura do papa é de Igreja Cristandade e enquanto ele não renunciar a ser chefe de estado e monarca absoluto da cristandade medieval, não adianta esses gestos simpáticos (que correm o risco de ser populistas) de sair do papamóvel e andar de jipe ou querer estar mais perto do povo. Será sempre como rei. E de acordo com isso, o arcebispo do Rio e os organizadores da viagem combinaram que o papa terá muito mais contato com o governo, autoridades políticas, elite econômica etc. do que com a juventude propriamente.
Com a juventude será sempre atos de massa e tradicionais – missa e via sacra. Com os outros, encontros mais livres. A não ser com uma delegação de jovens que coordenam a jornada junto com os padres e bispos. Alguém de vocês sabe me dizer para que ou por que ou que sentido tem um papa abençoar os símbolos dos jogos olímpicos ou da Copa – que são instrumentos de confraternização da humanidade e são ecumênicos por si mesmos? Querem um sinal de mais cristandade nostálgica de sua hegemonia no mundo do que isso? Até que ponto o papa Francisco conseguirá abrir brechas nessa fortaleza medieval? Veremos.
O importante me parece ter claro: independentemente de Marcelo Rossi ou de Fábio de Melo, toda a jornada é um ato de cristandade e tem como finalidade trazer a juventude à Igreja Católica tradicional com missa e via sacra medieval e nem mesmo com círculos bíblicos ou leitura orante da Bíblia ou grupos de jovem refletindo sobre a missão do jovem na escola e na universidade ou no trabalho. Não. Nas devoções do tempo em que eu era criança, antes do Vaticano II. Não sei se não haverá uma hora santa e um terço. E é claro nada ecumênico, nenhuma referência a outras Igrejas, outras religiões ou simplesmente à juventude do mundo que não acampa em nenhuma catedral religiosa.
Vocês sabem que durante toda essa semana, ligada à Jornada, o pessoal mais ligado às pastorais sociais e CEBs, vão ter o espaço da Tenda dos Mártires ou Tenda da Caminhada (não sei bem ainda como vão chamar) e que está implantada em uma paróquia da zona norte do Rio (perto da estação do metrô Maria das Graças) e que funcionará com debates e celebrações no estilo da caminhada da Igreja dos mártires e da libertação. Consegui que a TELESUR colocasse uma jornalista e uma câmara lá para noticiar para toda a América Latina os eventos mais significativos que não serão paralelos aos oficiais da JMJ, mas vamos dizer complementares. Temos de ser ecumênicos e não ficar falando de nós para nós mesmos. Então vamos sim participar dos grandes momentos juntos com toda a juventude aqui reunida.
Sem dúvida, eu e alguns colegas tentaremos pegar uma ou outra palavra de Francisco, aqui e ali, para dizer seu apoio aos empobrecidos e seu desejo de um mundo mais justo e igualitário. Certamente isso teremos porque a própria estrutura eclesiástica precisa desse discurso, depois do inverno ártico ou antártico dos dois últimos pontificados.
O problema é o risco de que, ao fazermos isso, estaremos legitimando esse modelo monárquico de Cristandade – aparentemente mais renovada e pintada de nova – sem deixar claro que os pobres não precisam apenas da piedade simpática do papa que vai a Lampedusa orar pelos africanos mortos na travessia do Mediterrâneo e lamentar os estragos evidentes da sociedade capitalista assassina.
Querem sim ser sujeitos de sua história e querem sim o apoio e a adesão do papa e de todos à sua causa, mas isso significa bolivarianismo e teologia da libertação? Será que Francisco chega até lá?
Se sim, pensemos em como apoiá-lo na luta interna lá com os Bertoni da vida, os que estão se beneficiando com o banco do Vaticano, o IOR e as 190 embaixadas do papa espalhadas pelo mundo (imaginem o nome pomposo: Nunciaturas apostólicas! Só se for dos apóstolos da Igreja Universal do Reino de Deus e sua teologia da prosperidade), sem falar no sempre vivo e atuante Bento XVI, morando, é claro, dentro do Vaticano a alguns metros da casa em que mora o atual papa e principal redator da primeira encíclica do Francisco (Lumen Fidei) que é uma visão da fé para a cristandade do século XIII (antes do Concilio de Trento) e que sem dúvida é o máximo que esse tipo de modelo de Igreja consegue alcançar.(No último capítulo, no final da carta, o atual papa tentou dar um tom mais simples e pastoral que parece a conversa amigável do pastor do que se crê pastor universal (de novo a ideia de Cristandade) em pleno s éculo XXI, mas sem querer entrar nos assuntos polêmicos ou fortes dos desafios da fé para o mundo atual.
Vou para o meu trabalho na TELESUR e os abraço na esperança sim de um mundo novo e uma Igreja renovada absolutamente possível, mas não a partir do papa (mesmo se esse for Francisco) e sim de nossas comunidades e pastorais populares na linha da eclesiologia do Vaticano II: Igrejas locais mais autônomas, com cara própria de Igrejas e não de departamentos locais ou filiais da cúria romana. É isso. Desculpem essa conversa comprida e um pouco de desabafo. É minha confiança em vocês que me permitem isso.
Marcelo Barros, monge beneditino e assessor de movimentos populares, como o MST e o MTC (movimento de trabalhadores cristãos – antiga ACO)
Enviado por Eduardo Hoornaert – e.hoornaert@yahoo.com.br
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Uma resposta
Concordo in totum com as inquietações do Marcelo Barros sobre os reais frutos que a JMJ (Jornada Mundial da Juventude) trará para a Igreja. Já presenciei, há anos, frustrações terríveis de jovens que, após os famosos EJC (Encontros de Jovens com Cristo), voltando às suas comunidades de origem, por falta de lideranças e de uma fundamentação sólida de fé e de vida cristã autêntica nas paróquias, em pouco tempo, viram “apagar-se” aquele fogo de palha que alguém, com a máxima boa vontade, havia acendido em seus corações.
O mais rápido possível, nossos Bispos e padres terão de se convencer de que a simpatia, a simplicidade e todo o carisma do Papa Francisco não vão, sozinhos, renovar a Igreja. Se continuarem acomodados como sempre estiveram, esperando que tudo venha de cima, nem um voozinho extra do Espírito Santo vai adiantar.