Abaixo consta a excelente entrevista que João Tavares, diretor de comunicação do MFPC (Movimento das Famílias de Padres Casados), concedeu dia 15/08/2013 a Adriana Lopes, repórter da Revista VEJA
1 – Em uma matéria que a Veja publicou em 1971, dizia que 50% das dos padres que deixavam o sacerdócio o faziam por causa do celibato. Gostaria de saber se continua assim este cenário.
R/ Não tenho dados recentes para lhe afirmar se o cenário continua o mesmo os se mudou. Numa pesquisa de 1990, no livro PADRES CASADOS – Depoimento e Pesquisa, de Jorge Ponciano e outros – Vozes – Petrópolis, o celibato é apontado como causa principal de saída, por 40.6%. Não conheço pesquisas posteriores, dentro do MFPC. Pessoalmente penso esse percentual vai além dos 50%.
2 – Ouvi que vocês defendem o celibato opcional (se não estiver certa, por favor, me corrija!!). Mas a Igreja diz que o celibato é importante para os padres se dedicarem a Igreja, a seus fieis. Gostaria de saber o que vocês, que de fato vivem e conhecem essa situação, acham de tal argumento. Atrapalharia de fato ter uma família?
R/ Defendemos, sim, o Celibato opcional. Mas vamos por partes:
– Quanto à conveniência do celibato para os padres: o celibato deixa, de fato, mais liberdade para o padre se dedicar ao trabalho pastoral. Mas isso pressupõe que o padre esteja bem realizado, consigo mesmo, com Deus, com os colegas e com o povo. Pois se não estiver realizado e feliz, seu trabalho provavelmente não vai ser bom. E todos sabemos que há muitos padres não tão felizes e realizados. Com sérios problemas afetivos e sexuais não suficientemente resolvidos. E isso, com certeza, vai prejudicar seu trabalho pastoral e sua realização pessoal, como pessoa humana.
Como vemos amplamente na mídia, essa não realização se traduz em vida dupla, com mulheres, homens ou crianças… O celibato é, sim possível. Mas só se for vivido em autenticidade e plenitude e for fonte de vida, alegria e realização para quem o professa e para o seu trabalho pastoral. O padre, na sua vivência da afetividade e da sexualidade tem, antes de mais nada, de ser um homem sério e autêntico, cumprindo o que prometeu e todos esperam dele. Tem de ser plenamente confiável. E se não consegue um razoável equilíbrio nestes aspectos, tem de deixar o ministério. Para bem seu e da Igreja-Povo-de-Deus.
Depois da grande crise dos seminários (vários fecharam) após o Concílio Vaticano II, os bispos do Brasil, preocupados com a queda nas ordenações, parece que baixaram a guarda e o nível de exigência quanto à sólida formação intelectual, espiritual, pastoral e afetivo-sexual dos seminaristas.
Conheço dioceses onde mais de metade dos seminaristas e padres de 50 anos para baixo são homossexuais. E isso, ao que consta, não é bom, sadio e salutar para quem tem de ser exemplo e pregador de moral. E educador da Infância, da Juventude e das Famílias, na fé e na moral cristãs.
Não entro no problema da livre opção sexual de cada um. Mas um homossexual assumido ou enrustido ser ordenado padre e/ou bispo, ainda é um problema para o Povo de Deus e para a Igreja como um todo. Já desde os anos 80 eu ouvia falar de lobby gay em certas dioceses. Quem não era gay era discriminado.
Os bispos, interpelados nesse aspecto, não têm respostas claras. É um assunto que se tem medo de enfrentar, que se vai levando com a barriga, sem o enfrentar a sério com coragem, clareza e determinação de resolver bem. Diria mais: na cabeça dos bispos, não está clara a ideia se podem ou não podem ordenar padre quem é gay. Tenho discutido esses assunto com vários deles, com clareza. Vejo-os reticentes e confusos. Ambíguos. E o povo fica muito confuso com essa ambiguidade… Conheci vários casos de reitores de seminário gays. Outros, que tinham namorada. E fico na séria dúvida se os bispos não vêem ou se não querem ver…
Os argumentos bíblicos, teológicos e místicos aduzidos pela hierarquia para fazer a apologia ou para justificar do Celibato sacerdotal obrigatório, como uma necessidade absoluta para a Igreja, não resistem a uma boa análise teológica, psicológica, antropológica ou sociológica. Esse apego secular, exasperado e exasperante ao celibato obrigatório no sacerdócio, é muito mais de origem platônica (para Platão o corpo era um mal e a alma era sua prisioneira, doida para se libertar dessa prisão…) e agostiniana (Agostinho era um neoplatónico brilhante de vida devassa na juventude que, convertido e feito bispo de Hipona, se tornou um grande misógino) do que propriamente cristã. A hierarquia nunca lidou bem e serenamente com o corpo, a erótica, a sexualidade e a afetividade.
A disciplina do celibato simplesmente é assim há séculos e continua a ser assim porque convém à hierarquia que assim seja. Garante muito mais a ECONOMIA e, sobretudo, o férreo esquema de PODER interno na hierarquia. A Igreja romana não está preparada, nem quer começar a se preparar para um clero casado, pois isso iria destruir seu atual esquema de poder. Que é constantiniano, mundano, não cristão.
– Se ter uma família atrapalharia o ministério sacerdotal: eu diria que modificaria o modo atual de ser padre.
Primeiro, o padre teria menos tempo para a pastoral. Mas aí eu pergunto: quantos padres, realmente, dão à pastoral, todo o seu tempo? Porque tantos são professores, psicólogos, cantores, etc.? Por que padre passeia tanto, inclusive para o estrangeiro?
Segundo, o padre, provavelmente, seria um homem mais humano, mais natural, mais pé-no-chão, mais misericórdia, mais compaixão, mais partilha da responsabilidade, menos poder centralizado em suas mãos, mais responsabilidade e maturidade na sua sexualidade e afetividade. E as famílias confiariam mais nele para entregarem seus filhos aos cuidados dele.
Além disso, tendo também de cuidar de sua família, seria bem mais relativista no trato com casais, jovens e crianças. E bem mais entrosado com a realidade da vida concreta, inclusiva a vida afetiva, financeira, do trabalho, etc… E bem mais pé no chão nas suas homilias.
Nesse ponto do sacerdote da ativa casado, do celibato opcional, vale uma comparação, tanto com as Igrejas Ortodoxas como com as Igrejas ditas Protestantes (não aceito a designação “evangélica” como distintiva delas em relação à católica!) que há muito vêm resolvendo bem esses problemas. Temos bons padres casados na Ortodoxa e bons padres e bispos casados nas Protestantes. Mas, naturalmente, com esquemas econômicos e de poder muito mais simples e democrático do que o esquema/estrutura católicos de poder hierárquico fechado e com total exclusão dos leigos.
No ano passado, por exemplo, o setor leigo na Convenção Anglicana na Inglaterra, impediu as mulheres de ascenderem ao Episcopado. Contra a vontade do Arcebispo de Cantuária, chefe da Igreja Anglicana e contra a maioria dos votos do padres e bispos. Coisa impossível numa Igreja católica com o Poder total na mão do alto Clero.Na mesma Igreja católica, mas de rito oriental, os padres podem casar. E não consta que sejam piores ou menos eficientes do que os padres obrigatoriamente celibatários da Igreja católica ocidental.
Há também um outro fator importante. Se o celibato é um conselho evangélico, um carisma especial dado por Deus, ele é um carisma pessoal. Portanto não pode ser imposto por uma lei eclesiástica que não tem fundamentação sólida nem na Bíblia nem na Teologia.
3 – Li que cerca de 150 mil padres deixaram o sacerdócio para casar. Desses, 7 000 no Brasil. Esse número é referente a toda história da Igreja? Ou há alguns anos para cá?
R/ Este número é de agora, atual, destes anos após o Concilio Vaticano II. Do Vaticano, informam que foram dadas cerca de 65.000 autorizações de abandono do estado clerical. Como muitos não pedem essa autorização e como muitos a estão esperando (às vezes, como no meu caso, foram 13 anos de espera!), não é difícil chegar ao número de 150.000 padres que deixaram o ministério.
Os cerca de 7.000 do Brasil, também se referem à atualidade. O grande êxodo se deu a partir dos anos 70, com a abertura dada pelo Concílio Vaticano II e com Paulo VI. Até então, pouquíssimos tinham coragem de deixar o ministério.
4 – Atualmente, quantos ex-padres pertencem a Associação Rumos? E como vocês atuam exatamente?
R/ Não tenho os números exatos da Associação Rumos, braço Jurídico do Movimento das Famílias dos Padres Casados do BRASIL – MFPC. Como cuido do nosso E-grupo, tenho em nossa Lista cerca de 800 e-mails de padres casados. Com mais uns 150 da América Latina e da Europa, com quem também estamos em intenso contato, pois fazemos parte da Federação Latino-americana e mundial dos Padres casados. Nosso Site: www.padrescasados.org , é visitado por uma média de 250 pessoas/dia, com picos de mais de 500.
5 – Acreditam que o papa Francisco poderá mudar algo a respeito do celibato?
R/ Quanto ao problema geral da discussão aberta, ampla e livre do Celibato eclesiástico, claramente fechado desde Paulo VI, (mais pelos bispos presentes no III Sínodo do que pelo próprio papa), e depois totalmente descartada por João Paulo II e Bento XVI, é bem provável que Francisco reabra de novo essa velha questão, sempre evitada, mas nunca resolvida. E, ao mesmo tempo ululante. Amplas porcentagens do clero de várias nações, em entrevistas publicadas, se tem manifestado a favor do celibato opcional. Muitos padres da ativa têm ou tiveram mulheres.
A grande dimensão da homossexualidade e pedofilia nos seminários, colégios, paróquias, etc., exige um questionamento sério da vivência da afetividade e da sexualidade do celibato obrigatório. Na África, muitos padres e vários bispos vivem com mulheres. Vários bispos foram afastados recentemente por isso. Um pouco por todo o mundo católico, há muitas mulheres e filhos de padres não reconhecidos como tais. Na Europa há, inclusive, várias Associações de mulheres de padres.
O próprio Bento XVI, tão fechado ao assunto como papa, quando tinha 40 anos, assinou documento questionando seriamente o celibato obrigatório que considerava prejudicial à Igreja. Vários episcopados nacionais, nas visitas quinquenais ad limina a Roma, têm levado ao papa essa problemática que João Paulo II sempre se recusou a enfrentar, ao mesmo tempo que apoiava firmemente o criminoso e pedófilo Pe. Mercial Maciel, fundador dos Legionários de Cristo que inundava o Vaticano de milhões de dólares e que enchia de presentes caros altos prelados da Cúria romana. Por tudo isso, acreditamos que não há como o papa Francisco não enfrentar esse gravíssimo e urgente problema do celibato obrigatório.
Já quanto à nossa problemática de 150.000 padres casados no mundo, há esperanças, pelo contexto geral do seu modo de ser, falar e agir, de atenção às periferias e aos abandonados (que é claramente o nosso caso: periferia da hierarquia que, talvez por medo, nos evita, pois sabe do nosso valor e da nossa coragem para termos dado o passo que demos), há sólidas esperanças de que o papa Francisco enfrente essa causa. Somos, claramente, uma areia no sapato ou uma espinha na garganta da hierarquia.
O papa Francisco sabe que existimos e que nos sentimos muito marginalizados. O cardeal Bergoglio teve, em Buenos Aires, boa convivência com o bispo casado Jerônimo Podestà e sua esposa Clélia, que foram os grandes incentivadores da união dos Padres casados do Brasil, na América Latina e na Europa. E os Fundadores e primeiros Presidentes da FederaçãoMundial de Padres casados.
Temos muita esperança que Francisco, depois que começar a reforma do núcleo duro da Cúria romana (difícil, delicada e perigosa tarefa…) comece a pensar também nessas fortes e incômodas realidades que não querem calar:
– o celibato obrigatório
– e a multidão dos 150.000 padres casados do mundo, cerca de um terço dos padres na Ativa…
6 – Agora uma pergunta mais pessoal, não para o grupo: o senhor, como um ex-padre, sente falta do sacerdócio?
R/ Sim, sinto falta. Entrei aos 11 anos no seminário. Me formei aos 26. Para doar a minha vida pelos outros, na construção do Reino de Deus, no meio dos mais necessitados. Cheguei ao Brasil, e fui para o sertão profundo do sul do Maranhão, em 1967. Fiquei no ministério até 1978. Foi um pedaço grande, intenso, autêntico e bonito da minha vida.
Fui muito bem preparado para isso. Me formei em Filosofia e Teologia. Estudei várias línguas. Tive a sorte de fazer a Teologia toda durante a primavera do Concílio Vaticano II que tentei vivenciar a fundo. Num seminário internacional, com colegas de 10 nações diferentes, com forte espiritualidade e grande exigência intelectual. Anos intensos, ricos, bonitos e muito sadios.
Fui feliz no meu sacerdócio e me dediquei a fundo ao ministério, na metodologia das Comunidades eclesiais de base (CEBs). Nunca tive dúvidas sobre minha vocação.
Por isso quando, a um certo momento, por vários motivos e circunstâncias, não deu mais certo, foi muito, mas muito difícil deixar o ministério e pensar em fazer uma reopção de vida. Para não me traumatizar e para redefinir a minha vida com equilíbrio, me dei dois anos de intervalo, entre a saída da Congregação a que pertencia e a decisão de casar. Até tudo ficar suficientemente claro e eu conseguir ver o casamento como possibilidade positiva de realização a dois.
Mas confesso que a excelente preparação recebida no seminário me ajudou muito nessa reopção, na preparação para o casamento e na reinserção na vida civil e na vida profissional.
Respostas de 8
Excelente entrevista, sem meias palavras, no estilo que o próprio papa Francisco gosta. Lembro que na entrevista do papa à bordo, no retorno do Brasil, ele disse aos jornalistas que prefere os que discordam àqueles que dizem tutto bello e depois não fazem. Isto é muito bom para a igreja institucional. Subserviência não, Autenticidade sim. Acho que o nosso colega Tavares na entrevista contribui muito para a reflexão e maturação do episcopado em função da conversão pastoral solicitada pelo papa na palestra dirigida aos bispos durante a JMJ. O papa Francisco deseja ser informado das coisas e por isso deixou os aposentos do Vaticano onde ficaria isolado para participar de uma mesa comum na residência Santa Marta. Esta para mim é a característica de um papa que vai preferir decisões colegiadas desengavetando as propostas do Concilio Vat.II à autocracia dos seus antecessores que se preocupavam em descobrir erros, condenar teólogos e exigir silencio obsequioso. O fato de surpreender com o anúncio da canonização de João XXIII é sinal muito claro de uma nova aurora.
Parabens pelo seu posicionameto.
É é o que sempre defendi quando tive a oportunidade falr.
Pe. Oralino Zanchin
…esta entrevista esta excelente!
Concordo… e penso que o celibato opcional seria até um enriquecimento da Igreja ocidental. Poderíamos adotar tal e qual no Oriente, inclusive com a regra de deixar o episcopado reservado aos celibatários ( em sua maioria os religiosos ou monges)
Neste pouco tempo de experiência como clérigo, tenho encontrado jovens verdadeiramente bons, esforçados na busca sincera de fazer a vontade de Deus, capazes, inteligentes, que amam a Igreja e possuem grande fé, mas que, infelizmente ou não, não possuem o carisma, digamos assim, do celibato. No meu modo de entender, seriam grandes e bons padres, mas que infelizmente não podem sê-lo e, realmente melhor que não sejam, por causa da atual disciplina eclesiástica.
É claro que sou totalmente obediente à atual disciplina, o senhor sabe disso, e eu mesmo escolheria ser celibatário caso fosse permitido optar, mas penso que a discussão da questão é muito salutar, sobretudo, quando feita como deve ser, à luz do Espírito Santo, com muita, mas muita mesmo oração!
Bom dia João!
Acabo de ler sua entrevista à Adriana,da revista Veja.
No iníco achei que você ” pegou, pesado” mas ao lê-la até o fim,
devo agradecer-lhe a clareza, a precisão em colocar o que a Igreja
está precisando e não tem coragem de “abrir e verbo” e falar como deve.
Obrigada por manifestar o desejo que muita gente sente, mas nada pode fazer.
De termos padres, mas humanos, padres”gente” padres que vivem a realidade do povo.
Sobre tudo lhe agradeço por seu testemunho, de vida, experiência e autenticidade.
O Mestre Jesus ,continua contanto com você na propagação do Evangelho. Abraços. Ir.lourdes
Concordo plenamente com a entrevista. Vejo que o maior problema hoje que a Igreja deve enfrentar é a homossexualidade pois, 75% dos padres que conheço são homossexuais. E temos estudos sérios sobre isso dizendo que a Igreja Católica é a maior instituição homossexual do mundo.
Acho meio difícil 75 % dos padres serem homossexuais, quando em uma ocasião umas 54 % dos padres da ativa confessaram de terem ligação com uma mulher ????
João Tavares fala em sua entrevista que o Papa sabe que existimos (aproximadamente 7.000 no Brasil e 150.000 no mundo). Todos os Bispos também estão carecas de saber disso, mas não estão se importando nem um pouco, porque, como bons e zelosos Pastores, mandam sempre os fiéis rezarem pelas “vocações sacerdotais”. Que venham… muitas…, de preferência, celibatárias. Mas parece que essa oração está valendo pouco: ou porque Deus está surdo ou porque não está mais fazendo muita questão de padres assim para sua Igreja.
Olá, João,
…Quando me vi apaixonada por um padre fiquei bastante confusa. E para entender melhor o que se passava comigo, passei a pesquisar sobre o assunto. E nesse caminho encontrei vocês: os padres casados.
E como é de minha natureza questionar, pesquisar, buscar conhecimento, tentar saber e entender passei a buscar ainda mais informações. E hoje, certa ou errada (é fato que vivemos aprendendo) posso te dizer com segurança que acredito que a verdadeira Igreja, ainda que embrionária é a proposta pelo Movimento dos padres casados.
Vocês estão nas minhas orações diárias e peço a Deus que eu possa presenciar o dia que o estado civil não seja mais importante para a hierarquia que a vocação em levar adiante os ensinamentos de Jesus. Muita luz para você, esposa família e todo o movimento…Parabéns
Luz