PADRES CASADOS: A IGREJA EM BUSCA DE SOLUÇÕES

                   Joarez Virgolino Aires
 
Em 1990, a pedido da Revista de Cultura Vozes, elaborei uma reflexão de natureza teológica sobre o Celibato na Igreja de tradição romana. O artigo saiu no volume 84, bimestre julho/agosto de 1990. Diante dos últimos escândalos sexuais que se propalaram pelo mundo, colocando em cheque também o problema do celibato, julguei oportuno retomar e divulgar aquela reflexão com ligeiros reparos no portal Web da Associação Rumos.
Embora seja difícil, quase impossível produzir-se um perfil único, padronizado, válido para entender o fenômeno do persistente abandono do exercício do presbiterato, na Igreja romana, há sempre uma condicio­nante invariável, raiz ou causa primeira, para quase todos os casos ou, pela menos, para um grande número deles: um vício de origem. Este “vício de origem” é, na verdade, um subpro­duto da Encarnação do Verbo, até hoje, mal digerida nas entranhas da Igreja Católica.
A hipótese que estou presumindo parte de uma análise retrospectiva da “causa primeira”. Pois acho superficial e injusta a simples análise descritiva das formas variáveis de ajustamento ou conflito dos padres casados, nos planos laico e eclesiástico. A maioria de nós veio de uma formação e cultura profundamente individualista, autoritária e auto-suficiente.
 Nossas esposas que o digam! E qual a razão deste perfil em que fomos cinzelados? Claro.que a serviço da estrutura vertical e piramidal da própria sociedade eclesiástica. Aí transparece  já o viés teológico do consórcio entre o divino e o humano: encarnação mal digerida pela teologia ortodoxa. Uma vez que os levitas são “delegados” do próprio Cristo (“Sacer­dos alter Christus!”) importa erigi-los em pedestal de divindade para que exibam entre os mortais a face do divino imortal. E quem de nós não levou isto á sério?             
Se é verdade que o microcosmo repete o macro e que a ontogênese reproduz a filogênese, entendo que todo o dilema que tem dilacerado as entranhas da Igreja nas heresias cristocêntricas dos primeiros séculos da era cristã, também se reflete no microcosmo da estruturação dos seus ministros ordenas, os presbíteros, também, impropriamente, chamados sacerdotes. Estas criaturas eram assim projetadas para levar adiante o mistério salvifica da encarnação do Verbo Divino. Ainda que treinados para a tarefa de enfatizar o consórcio humano divino, operado na pessoa de Jesus Cristo,em si mesmos já eram uma contradição ambulante, na medida em que, sendo apenas humanos, recebiam a incumbência de espelhar o di­vino, em “vasos de argila”. Mas, como no sonho de Na­bucodonosor, a criatura arquitetada pela Igreja tinha uma cabeça de ouro sobre um pedestal de barro (Daniel 2,31s). Enquanto o mundo circundante privilegiava o Sacro (teocen­trismo), a criatura sobrevivia, apesar de suas contradições. Porém, com o advento do mundo capitalista (antropocentrismo), os valores transcendentais foram marginalizados. E a .fórmula de manter a Encarnação de Jesus Cristo, na pessoa de seus presbíteros (Sacerdotes) subestimando (negando?!) o humano tornou-se insustentável, como tese universal.
Assim, para mim, a imposição universal do celibato ao clero, mais do que uma questão econômica ela dissimula um problema cristológico, um viés teológico que nos leva aos primórdios do quarto século da era cristã: fase das heresias cristológicas! Encontramos claro sintoma deste desvio teológico na própria natureza da “solução” adotada pela Cúpula reluzente da Igreja. Diante de uma situação de conflito entre o divino e o humano, entre o serviço religioso amado e o amor humano anelado não se vislumbrou nenhum acordo possível. Era preciso suprimir ou ignorar o humano para realçar o divino. Jamais misturar ou ministrar altar (feição divina) e lar (feição humana). A economia dos mistérios divinos não admitia conviver com a economia doméstica.
Dá a impressão de que a Igreja ainda receia o arianismo. Àrio, partindo do princípio de que Deus, é, por natureza, incomunicável, entendia que Cristo não é Deus como o Pai; não é seu igual nem da natureza dele. Tornou-se Deus, pelo seu heroísmo. 
Minha hipótese considera que a Igreja, carregando em seu DNA o antagonismo da heresia ariana, acabou invertendo os  sinais. Empenhada visceralmente em enfatizar o a condição divina de Cristo negada, acabou imprimindo nas feições dos seus  presbíteros, outros cristos, exclusivamente sua feição divina. Hipertrofiando a feição divina do Cristo, atrofiou sua condição humana. Assim procedendo, a Igreja estaria incorrendo numa nova forma de monarquismo: a na­tureza divina do Pai estaria sufocando a natureza humana do Filho de Deus, portanto comprometendo a própria autonomia do Verbo feito homem!
Desta forma, ao condicionar o acesso ao divino (sacerdócio) pela subestimação (negação) do humano (recusa do padre casado), afirma-se também que, na figura de Cristo Sacerdote  o humano sucumbiu ao divino.Teríamos então, neste gesto da pastoral da Igreja, em paródia, a grotesca ironia daquele ébrio que apostrofou o pregador na Igreja, exclamando: “quando a divindade sucumbe, a humanidade cambaleia … “.
 
Num momento de suprema inspiração, com o Vatica­no II, a Igreja quase conseguia alcançar a homeostase (equilíbrio instável entre termos dispares) entre o divino e o humano, levando às últimas conseqüências a encarnação do Verbo divino. É, pois, com profundo pesar que vemos a Igreja, hoje, caminhando às avessas da história. Ao invés de aprimorar o “aggiornamento” inaugurado pelo bom e saudoso João XXIII, nota-se uma “fúria iconoclasta” de rapidamente “corrigir” o Vaticano II. Sem falar na inevitá­vel conclusão lógica de que, ao se cristalizar a imposição do “sacerdócio como prêmio ao celibato, a Igreja consegue, ao mesmo tempo, desmoralizar dois lindos sacramentos: o da ordem e o do matrimônio” (Padres Casados, Depoimentos e Pesquisas).
Não pretendo também generalizar, considerando que to­das as situações de padres casados estejam vinculadas a esta causa. Pelos dados da pesquisa de “Rumos” (Padres casa­dos, Depoimento e Pesquisa, Jorge et alii, Petrópolis, RJ, Vozes, 1990) isto é aplicável a 64% dos casos conhecidos.
Num universo de três mil “assinalados”, encontramos toda aquela variedade de criaturas que se manifestaram na bela visão de São Pedro (Atos 10,9-23): “répteis”, “quadrúpe­des” e “criaturas aladas”. De fato. Qualquer classificação generalizada, quanto à atual postura civil ou eclesiástica  do clero expurgado, é absolutamente falsa. Porque se é verdade que existem entre nós alguns (13 % conforme opus citatus) que ainda sonham com as sacristias (criaturas aladas), é igualmente verdade que há aqueles que são radicalmente clerófobos, ou quase ateus, para não falar daqueles outros, pouquíssimos, que hoje militam até, no espiritismo (“quadrúpedes?!”).
Conheço, pelo menos, um exemplar para cada variedade desta coleção.
Seria esta “monstruosidade” um subproduto da “traição” e “revolta” para com a Santa Madre?! Dez anos de vivência dentro do movimento Rumos autorizam-me a negar, perempto­riamente, esta hipótese. Por tudo que tenho lido e visto, nem somos apenas “répteis”, seres asquerosos e degradados, como gostariam alguns reacionários da Igreja ( … “aqueles infeli­zes, ‘in’ Sacerdotalis Coelibatus”, n. 83/85, 1967, Paulo VI); nem “quadrúpedes”, pela ingenuidade ou aviltamento a que nos reduziram; nem, tampouco, “criaturas aladas”, como talvez alguns dentre nós gostariam, ao alimentarem sonhos nefelibatas. (os que caminham sobre as nuvens!) Somos, tão-somente, como todos os mortais, aquela parcela dolorida do Corpo Místico de Cristo, com suas falhas e aspirações, em busca da casa do Pai. O lema “Rumos”, traduz, pois, muito bem, este perfil dos egressos. Somos a Igreja em busca de soluções!
padrescasados@gmail.com
Sic Locutus est Vigolino.

Respostas de 4

  1. Olá!
    Eu gostaria de fazer uma pergunta, e talvez proposta:

    Por que o movimento dos padres casados não se move em direção à Igreja Ortodoxa, tão ou mais católica que a Igreja Romana, que tem sacerdócio válido, apostólico, sem problemas com essa questão do casamento? Afinal na Igreja Oriental a grande maioria dos padres são casados! Isso fortaleceria o conhecimento da igreja oriental, ignorada por grande parte da população, e muitos homens honestos, homens verdadeiros, não essa vergonha de homossexuais e pedófilos, estariam exercendo seu ministério, anunciando a ortodoxia no Brasil! Isso é o que penso e essa seria minha proposta para essa questão! Um abraço a todos

  2. Creio, com muito convicção, caro irmão “Marciano” que o sr. deveria se informar um pouco mais sobre a Igreja Ortodoxa, pois, caso não seja sabido, embora sejam eles sacerdotes de ministério válido e poderem optar pelo ordem e pelo matrimônio, 75% (Dados oficiais), que de acordo com a exatidão objetiva da matemática simboliza uma maioria, num todo de 100%, são os que optam pelo celibato. Quanto ao problema de pedofilia e homossexualismo, saiba você que a maioria dos casos de pedofilia acontecem nos lares, seguido em segundo lugar, nos ambiantes de trabalho e terminando em último nas religiões. À propósito, você é casado?
    Já o homossexualismo sempre esteve presente na cultura ocidental, desde os gregos antigos, porém na civilização pós-cristã ele não é aceito por ir de encontro as leis naturais e aos mandamento do Senhor – Não pecar contra a castidade!
    Portanto Sr. Marciano, acredito piamente que questões como casamentos de sacerdotes e adesão à Igrejas (a), (b) ou seja quais forem , constitui uma visão muito particularizadora, altamente individualista, restritiva e sobretudo relativa, acerca de um problema que não deve ser encarado como algo que é novo e que será sanado apenas com o casamento. Há! quão feliz teria sido a pobre garota de Alagoinha se o matrimônio de seus pais fosse o bastante para não gerar aquele abominável caso de pedofilia!
    Um certo pensador já disse: “A grande maldição do homem consiste em sempre ter que optar entre duas escolhas, jamais ele poderá escolher e arcar com todas as opções que se lhe aparece”. Pois bem, o matrimônio não impede o sacerdócio, eles são independentes, porém, existe uma norma que deve ser seguida. A Igreja não impõe o celibato, mas ele é consequência de uma opção que se for verdadeiramente fundamental, não necessitará de uma segunda opção, que visa unir-se a alguém que se ama. Sendo o amor incondicional e Deus manifestado no amor, segue as opções de se viver o mistério da salvação no matrimônio ou no sacerdócio. Se algum homem quer ser padre e contrair matrimônio, o faça da maneira mais própria, peça ao bispo e ele pedirá ao papa. Não façamos, caro amigo, como os “poltros, animais sem razão”, que quando não querem algo, se põe aos berros de um relincho !
    Pax Vobis!

  3. OK, Cidinha, agradecemos seu oportuno comentário sobre esse celibato obrigatório dos padres católicos do rito latino.

  4. Respondo que atualmente os padres casados nada recebem da Igreja para seu sustento. Muitos sofrem penúria. Até o século XI todos os padres católicos eram csados, desde os apostolos de Jesus. A Igeja sustentava seus padres e familiares.
    Esperamos que este sistema volte quanto antes.

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