A MÍDIA COMERCIAL EM GUERRA CONTRA LULA E DILMA

Leonardo Boff* 27/09/10** 

Sou profundamente pela liberdade de expressão em nome da qual fui punido com o “silêncio obsequioso” pelas autoridades do Vaticano. Sob risco de ser preso e torturado, ajudei a editora Vozes a publicar corajosamente o “Brasil Nunca Mais”, onde se denunciavam as torturas, usando exclusivamente fontes militares, o que acelerou a queda do regime autoritário.

Esta história de vida me avalisa fazer as críticas que ora faço ao atual enfrentamento entre o Presidente Lula e a mídia comercial que reclama ser tolhida em sua liberdade. O que está ocorrendo já não é um enfrentamento de idéias e de interpretações e o uso legítimo da liberdade da imprensa. Está havendo um abuso da liberdade de imprensa que, na previsão de uma derrota eleitoral, decidiu mover uma guerra acirrada contra o Presidente Lula e a candidata Dilma Rousseff. Nessa guerra vale tudo: o factóide, a ocultação de fatos, a distorção e a mentira direta.

Precisamos dar o nome a esta mídia comercial. São famílias que, quando vêem seus interesses comerciais e ideológicos contrariados, se comportam como “famiglia” mafiosa. São donos privados que pretendem falar para todo Brasil e manter sob tutela a assim chamada opinião pública. São os donos de O Estado de São Paulo, de A Folha de São Paulo, de O Globo, da revista Veja, na qual se instalou a razão cínica e o que há de mais falso e chulo da imprensa brasileira. Estes estão a serviço de um bloco histórico assentado sobre o capital que sempre explorou o povo e que não aceita um Presidente que vem desse povo. Mais que informar e fornecer material para a discussão pública, pois essa é a missão da imprensa, esta mídia empresarial se comporta como um feroz partido de oposição.

Na sua fúria, quais desesperados e inapelavelmente derrotados, seus donos, editorialistas e analistas não têm o mínimo respeito devido a mais alta autoridade do país, ao Presidente Lula. Nele vêem apenas um peão a ser tratado com o chicote da palavra que humilha.

Mas há um fato que eles não conseguem digerir em seu estômago elitista. Custa-lhes aceitar que um operário, nordestino, sobrevivente da grande tribulação dos filhos da pobreza, chegasse a ser Presidente. Este lugar, a Presidência, assim pensam, cabe a eles, os ilustrados, os articulados com o mundo, embora não consigam se livrar do complexo de vira-latas, pois se sentem meramente menores e associados ao grande jogo mundial. Para eles, o lugar do peão é na fábrica produzindo.

Como o mostrou o grande historiador José Honório Rodrigues (Conciliação e Reforma), “a maioria dominante, conservadora ou liberal, foi sempre alienada, antiprogresssita, antinacional e não contemporânea. A liderança nunca se reconciliou com o povo. Nunca viu nele uma criatura de Deus, nunca o reconheceu, pois gostaria que ele fosse o que não é. Nunca viu suas virtudes, nem admirou seus serviços ao país, chamou-o de tudo -Jeca Tatu-; negou seus direitos; arrasou sua vida e logo que o viu crescer ela lhe negou, pouco a pouco, sua aprovação; conspirou para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que continua achando que lhe pertence (p.16)”.

Pois esse é o sentido da guerra que movem contra Lula. É uma guerra contra os pobres que estão se libertando. Eles não temem o pobre submisso. Eles têm pavor do pobre que pensa, que fala, que progride e que faz uma trajetória ascendente como Lula. Trata-se, como se depreende, de uma questão de classe. Os de baixo devem ficar em baixo. Ocorre que alguém de baixo chegou lá em cima. Tornou-se o Presidente de todos os brasileiros. Isso para eles é simplesmente intolerável.

Os donos e seus aliados ideológicos perderam o pulso da história. Não se deram conta de que o Brasil mudou. Surgiram redes de movimentos sociais organizados, de onde vem Lula, e tantas outras lideranças. Não há mais lugar para coronéis e para “fazedores de cabeça” do povo. Quando Lula afirmou que “a opinião pública somos nós”, frase tão distorcida por essa mídia raivosa, quis enfatizar que o povo organizado e consciente arrebatou a pretensão da mídia comercial de ser a formadora e a porta-voz exclusiva da opinião pública. Ela tem que renunciar à ditadura da palavra escrita, falada e televisionada e disputar com outras fontes de informação e de opinião.

O povo cansado de ser governado pelas classes dominantes resolveu votar em si mesmo. Votou em Lula como o seu representante. Uma vez no Governo, operou uma revolução conceptual, inaceitável para elas. O Estado não se fez inimigo do povo, mas o indutor de mudanças profundas que beneficiaram mais de 30 milhões de brasileiros. De miseráveis se fizeram pobres laboriosos, de pobres laboriosos se fizeram classe média baixa e de classe média baixa de fizeram classe média. Começaram a comer, a ter luz em casa, a poder mandar seus filhos para a escola, a ganhar mais salário, em fim, a melhorar de vida.

Outro conceito inovador foi o desenvolvimento com inclusão social e distribuição de renda. Antes havia apenas desenvolvimento/crescimento que beneficiava aos já beneficiados à custa das massas destituídas e com salários de fome. Agora ocorreu visível mobilização de classes, gerando satisfação das grandes maiorias e a esperança que tudo ainda pode ficar melhor. Concedemos que no Governo atual há um déficit de consciência e de práticas ecológicas. Mas, importa reconhecer que Lula foi fiel à sua promessa de fazer amplas políticas públicas na direção dos mais marginalizados.

O que a grande maioria almeja é manter a continuidade deste processo de melhora e de mudança. Ora, esta continuidade é perigosa para a mídia comercial que assiste, assustada, ao fortalecimento da soberania popular que se torna crítica, não mais manipulável e com vontade de ser ator dessa nova história democrática do Brasil. Vai ser uma democracia cada vez mais participativa e não apenas delegatícia. Esta abria amplo espaço à corrupção das elites e dava preponderância aos interesses das classes opulentas e ao seu braço ideológico que é a mídia comercial. A democracia participativa escuta os movimentos sociais, faz do Movimento dos Sem Terra (MST), odiado especialmente pela VEJA, que faz questão de não ver; protagonista de mudanças sociais não somente com referência à terra, mas também ao modelo econômico e às formas cooperativas de produção.

O que está em jogo neste enfrentamento entre a mídia comercial e Lula/Dilma é a questão: que Brasil queremos? Aquele injusto, neocolonial, neoglobalizado e, no fundo, retrógrado e velhista; ou o Brasil novo com sujeitos históricos novos, antes sempre mantidos à margem e agora despontando com energias novas para construir um Brasil que ainda nunca tínhamos visto antes?

Esse Brasil é combatido na pessoa do Presidente Lula e da candidata Dilma. Mas estes representam o que deve ser. E o que deve ser tem força. Irão triunfar a despeito das más vontades deste setor endurecido da mídia comercial e empresarial. A vitória de Dilma dará solidez a este caminho novo ansiado e construído com suor e sangue por tantas gerações de brasileiros.

Fonte: Adital e Ora et Labora

Respostas de 5

  1. O que este senhor Boff, não tolera é que a midia destoe e faça criticas ao sr mito Lula ,
    Assim sendo, onde ha crítica ao mito Lula, então, esta havendo “liberdade demais”. Não sabe este senhor Boff, que nas Democracias, a liberdade permite-se que se denuncie, se critique e se oponha ao governo.
    Democracia pra que? Se só se pode dizer sim ao governo?
    Lula e seu Boff, não se contentam com 80% de popularidade! Não, eles ainda
    criticam a infima parcela que não se rende aos crimes cometidos pelo governo! Para eles , esses que criticam, o todo poderoso Mito devem ser calados!
    Como se dizem :Democracia é quando eu mando em voce, ditadura é quando voce manda em mim

  2. Célia,
    Parece que a gente ainda não se conhece pessoalmente.
    Eu também critiquei publicamente o Leonardo Boff em algumas sua atitudes a meu ver demasiado quentes em relação a Dilma e ao PT, durante a campanha.
    Mas parece-me que sua crítica não está bem fundamentada. Para brigar com Boff é preciso algo mais de conhecimento de Teologia, Filosofia, Sociologia e Política. Ele é muito inteligente, um dos grandes teólogos vivos e profundo conhecedor da política brasileira.
    Essa sua crítica pequena e neo-liberal demais, não a afeta nem um pouco: passa por ele como água em vidro.
    Continue a ser crítica, mas com mais profundidade e conhecimento de causa.
    É preciso e é urgente distinguir bem entre liberdade de imprensa, que deve ter compromisso com a Ética, sobretudo com a verdade, e o abuso dessa liberdade para espalhar mentiras, ideologias e uso de linguagem subliminar, que diz uma coisa querendo induzir a outra.

  3. Prezada Célia, agradeço sua participação nesse site dos padres casados do Brasil. Continue a nos prestigiar com suas mensagens francas e corajosas.
    Quanto ao seu comentário sobre Leonardo Boff eu sinto-o bastante áspero e unilateral. Boff é uma personalidade de prestígio internacional e aceito universalmente.
    Seu texto, criticado por você, tem aspectos positivos e verdadeiros, ao lado de alguns criticáveis, como você apontou.
    Aliás, todos nós temos esses dois lados: positivos e negativos.
    Meu abraço, e continue “lutando”.
    Gilberto Luiz Gonzaga

  4. Caro Gilberto, lamento ver que voce, tenha receio de contrariar personalidades ,so porque tem prestigio internacional e “aceitas universalmente”.
    Segundo voce ,pessoas assim devem ser sempre adoradas, e jamais contrariadas, pois prestigio internacional significa passaporte para dizer despautérios e ser conivente com a mentira .
    Hitler também tinha prestigio internacional, Mussolini,Lenin também,
    Quanto a “aceito Universalmente”,bom isso depende, do seu ponto de vista , existem milhares de pessoas , que discordam profundamente do sr Boff e ainda outros milhares que nem sequer o conhece.
    E compromisso com a ética deveria ter o presidente Lula , apropriando-se de
    fatos como se fossem exclusivamente dele,vide plano real,bolsa escola ,bolsa alimentação etc… Como se o pais tivesse sido inventado do nada a partir de 2003,enquanto as bases para a estabilidade ja tinham sido lançadas.
    O PSDB preparou a comida e LULA serviu os pratos,sendo desonesto o bastante para demonizar seu antecessor,não reconhecendo a dadiva recebida de bandeja!
    Enfim esse é O PT amado por Boff e seus “amigos”.
    Felizmente não me deixo deslumbrar nem por fama nem por prestigio,o que conta é o que sai da boca por que o coração
    esta cheio!

  5. Prezada Célia.
    Aí vai a tréplica, mas, de minha parte, nao terá continuidade.
    Só quero lhe esclarecer:
    1) não endeuso Boff, tanto que declarei que ele tem pontos critiváveis, negativos;
    2) tenho, como você e João Tavares, reservas e desaprovações a algumas afirmativas de Boff.
    3) concordo em gênero, número e caso com algumas condenações e restrições que você teceu a
    respeito de Lula e seu PT;
    4) se nós dois temos alguma divergência em idéias, que nossos corações continuem unidos na
    amizade cristã e na esperança de dias melhores para nosso Brasil.
    5) convido você a ler (ou reler) nosso jornal dos Padres casados do Brasil, o RUMOS. Eu sou o atual editor, e gostaria de ter sua colaboração com artigos pertinentes e com críticas construtivas para seu aperfeiçoamento.
    Fraterno abraço/beijo
    Gilberto

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