
Marco Grieco – 07 Outubro 2021 – Imagem: DAQUI
A reportagem é de Marco Grieco, publicada por Domani, 06-10-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.
Hoje, a esperança anunciada pelo Evangelho rompe-se com as palavras desalentadas da Irmã Veronique Margron, presidente da Conferência dos Religiosos e Religiosas da França:
“Como superar tudo isso? Não sei”.
Uma geração inteira de bispos sai irremediavelmente afetada por sua própria negligente responsabilidade.
Fala com exclusividade sobre o tema Astrid Kaptijn da Ciase, a Comissão de Abusos independente formada por 22 membros entre teólogos, magistrados e psiquiatras – nem todos crentes -, que redigiu o relatório:
“O número de agressores corresponde mais ou menos ao que já sabemos pelas Comissões de outros países. O que chama a atenção, porém, é o número de vítimas incrivelmente alto”, admite.
Poucos dias atrás, Monsenhor Eric de Moulins-Beaufort, presidente da Conferência Episcopal francesa, usou palavras duras:
“A extensão do fenômeno é maior do que poderíamos temer”. Palavras que se transformam em pedregulhos na boca das vítimas: “Precisam pagar por todos esses crimes”,
frisou na segunda-feira François Deveaux, cofundador da associação La Parole Libérée, uma das primeiras vítimas ouvidas.
392 vítimas por mês durante 70 anos
![]()
Jean-Marc Sauvé / Wikimedia Commons
Jean-Marc Sauvé, ex-membro do Conselho de Estado e presidente da Ciase, definiu os números do relatório como “extraordinários”.
Os menores abusados por pessoas consagradas em setenta anos variam de 216 mil a 330 mil:
“Números que de forma alguma podem ficar sem consequências e exigem medidas muito fortes”,
acrescentou Sauvé,
- que ressaltou como os ambientes eclesiásticos têm registado uma prevalência de violências sexuais maiores do que outros ambientes de socialização,
- como as escolas e as colônias de férias.
80% das vítimas são garotos com idades entre 10 e 13 anos.
Para a Ciase, a alta incidência de vítimas do sexo masculino em comparação com as do sexo feminino,
- em parte pode ser explicada pelo chamado “efeito oportunidade” em ambientes predatórios como oratórios e sacristias,
- por outro lado não explicaria totalmente essa peculiaridade,
- e a Igreja Católica deveria enfrentar o tema.
Entre os termos que apareceram durante a coletiva de imprensa da última segunda-feira
- está o de “agressão sexual”:
- em setenta anos, o número de agressores na igreja oscila entre 2.900 e 3.200 pedófilos
- de um total de 115.000 clérigos e religiosos no país.
Mas as palavras de Sauvé são também um ato de acusação às instituições eclesiásticas:
- “A Igreja não soube ver, não soube escutar”,declarou, apontando para a
- “extrema confusão do direito canônico sobre as responsabilidades do bispo”,
- dividido entre a aplicação das penas, promoção da justiça e gestão dos recursos humanos na diocese.
Em um exame do direito canônico, a Ciase observa também a ausência da vítima de abuso dentro dos procedimentos do direito canônico.
A responsabilidade da Igreja justapõe-se, assim, à dívida que “contraiu para com as vítimas”.
Por isso, a Comissão convida e evita considerar os ressarcimentos como dons da Igreja:
“É um ato devido”, portanto não pode ser fixo.
Isolados como em Chernobyl
Astrid Kaptijn – Foto: CIASE
“O que chama a atenção é a relação entre o número de agressores e o de vítimas, porque são realmente muitas para cada agressor”,
enfatiza Astrid Kaptijn.
Além do escândalo,
- no relatório são marcantes os testemunhos, os rostos imersos no silêncio de famílias que anularam a si mesmas diante do papel social dos sacerdotes.
- Muitas vítimas decidiram falar depois de cinquenta anos de silêncio:
“Eu gostaria de me cercar de uma estrutura de contenção como Chernobyl, trancar aí uma parte inteira da minha história como para me libertar e ficar sem respirar”,
revela uma vítima, hoje diretor aposentado.
Página após página, no relatório, ganha cada vez mais corpo a dimensão transversal do mal, que penetra nos recessos da psique, por vezes sem ter um nome:
- “Não é preciso ficar deprimidos. Diante de algo tão grande a ser revelado, larga-se tudo como se afasta uma pedrinha, admite outra vítima.
- As centenas de audições coletadas em dois anos também contam a história de um passado difícil.”
Uma vítima, Martin, admite:
“Há uma idade em que podemos voltar a essas questões sem causar danos, porque o dano já foi feito. Não piora mais, muito pelo contrário”,
explica com uma lucidez toldada de culpa,
- o verdadeiro triste fio vermelho que liga todas as vítimas,
- cujos silêncios foram costurados com grande habilidade
- por personalidades que tinham um domínio sobre as suas consciências de menores no limiar da puberdade,
- monstros muitas vezes acolhidos em casa ou nas escolas.
Há falsas promessas de amor declaradas diante dos tabernáculos, negações que ecoam uma confiança traída:
“No abuso existe essa mistura com o lado religioso, com a parte mais profunda de um ser humano, e acho isso abjeto”,
confessa uma mulher, abusada pelo sacerdote de sua paróquia quando ainda era menor e nada sabia sobre sexualidade.
Padres cada vez mais sozinhos
A imagem dos clérigos e religiosos franceses sai irremediavelmente comprometida:
- “Há muito para mudar e melhorar. Quando se trata de estruturas em nível episcopal ou diocesano, cabe aos bispos franceses, assim como a formação dos seminaristas, que poderia ser melhorada.
- Uma mudança de mentalidade seria sair do clericalismo: isso é possível também na França, mas certamente requer mais tempo, porque se trata de um processo lento”,
explica Astrid Kaptijn.
Hoje, o estado de saúde da igreja francesa não é bom.
De acordo com um levantamento realizado no ano passado pelo Conselho Permanente da Conferência Episcopal francesa,
- de um terço dos padres que dela participaram,
- a metade declarou que vive sozinha
- e 40% se percebem como não realizados.
A situação de mal-estar mesmo nos presbíteros mais jovens
- traduz-se em sintomas depressivos, mencionados por 20 por cento dos padres que vivem sozinhos,
- muitas vezes expressos no consumo abusivo de álcool (dois em cada cinco) ou em desordens alimentares (seis em cada dez).
As duas iniciativas da Conferência Episcopal francesa – o levantamento e a comissão sobre os abusos – refletem o desejo de combater os males crônicos da instituição.
Apesar do caminho difícil a que os abusos levaram a igreja francesa, Astrid Kaptijn continua otimista:
- “Certamente há algumas coisas que são muito difíceis de ouvir e aceitar, mas estou convencida de que este pode ser um momento decisivo para a Igreja.
- É um momento crítico e delicado, mas ao mesmo tempo uma oportunidade.
E tenho a certeza de que a Igreja dispõe de fontes e recursos para melhorar a situação: é uma questão de vontade”.
Ponto de viragem

Guillaume Cuchet / Babelio
Guillaume Cuchet, professor de história contemporânea na Universidade de Paris-Est Créteil e autor do recente livro “O catolicismo ainda tem futuro na França?“, estudou profundamente o colapso da religião na França a partir de meados da década de 1960, e hoje traça uma tendência:
“O lugar do catolicismo na sociedade francesa diminuiu significativamente: em 1965, 25 por cento dos adultos frequentavam a missa aos domingos, hoje menos de 2 por cento”,
explica ao Domani.
Para o editorialista do Le Figaro, trata-se
“de uma tendência comum aos países da Europa ocidental. De um modo geral, pode-se admitir que países como França e Bélgica sejam mais secularizados do que Itália ou Portugal.
Naturalmente, a atual crise dos abusos sexuais na igreja complica ainda mais a situação”,
acrescenta. Para uma das vítimas que quis se manter anônima, dois anos atrás começou o” momento de demolição” de toda a igreja católica.
Astrid Kaptijn sondou o seu e outros sofrimentos, reconhecendo a dimensão em todas as histórias misturadas de confiança traída e silêncio cúmplice:
“Nestes dois anos descobri que todas as vítimas têm uma grande dignidade. Em cada história havia algo que me impressionou ou me desafiou: a duração do abuso, a natureza sistêmica, o funcionamento da memória e sua confiabilidade, o medo de se tornar por sua vez agressores. Hoje o medo tem um peso evidente. Cabe à igreja ouvir essa cruz que ela mesmo fabricou.”

.
Marco Grieco
Leia mais:
- “A Ti, Senhor, a glória; para nós, a vergonha. Este é o momento de vergonha”, diz o Papa sobre o relatório sobre abusos sexuais do clero francês
- O pesar do Papa pelo Relatório sobre os abusos na Igreja na França
- A amargura do presidente dos bispos: “Uma atrocidade, peço mil vezes perdão”
- Os abusos na igreja francesa demonstram que o silêncio sobre a pedofilia permitiu que fosse ocultada
- O conselheiro do Papa, Hans Zollner: “Agora cabe aos bispos italianos investigar a pedofilia”
- Abusos na Igreja: o massacre francês
- Abusos sexuais na Igreja católica: o balanço avassalador da comissão Sauvé
- França. Como confiar na Igreja à luz da chocante denúncia dos abusos sexuais?
- França. Pedocriminalidade: a Igreja precisa de um verdadeiro ‘aggiornamento’, afirma editorial do Le Monde
- “Com o coração triste”: o escândalo dos padres abusadores. Artigo de Tomáš Halík
- Relatório sobre abusos sexuais na França será “assustador”
- A França é responsável pelo horror da pedofilia clerical: 330.000 vítimas em centros católicos desde 1950
- Pedofilia: 10.000 vítimas em 70 anos na Igreja francesa
- Pedofilia no clero, o mea culpa no Sínodo dos Bispos: “Por muito tempo o grito das vítimas foi um grito que a Igreja não ouviu”
- França: religiosos em sintonia com bispos na luta contra a pedofilia
- A pedofilia é “uma grande monstruosidade”, disse o papa no novo documentário
- França. Consciência da Igreja sobre a pedofilia está aumentando, constata a presidente do Senado
- Pedofilia, a petição on-line do sacerdote que pede a renúncia do arcebispo de Lyon, França
- França. Pelo menos dez mil menores sofreram abusos dentro da Igreja desde 1950
- França. “Os fiéis têm a impressão de que a Igreja está enfrentando um enorme perigo”. Entrevista com Céline Béraud
- França: bispos esperam com apreensão os resultados de um relatório inédito sobre abusos sexuais na Igreja
- Bispos franceses se responsabilizam pelos escândalos de abusos sexuais
- Luta contra a pedofilia: dois cardeais com posturas opostas sobre as responsabilidades institucionais e pessoais
- Sacerdócio, celibato e sexo
- Por que obrigar o clero a denunciar os abusos não vai resolver a crise. Artigo de Thomas Reese
- Acabar com o sigilo pontifício é um marco histórico. Mas a responsabilização precisa ser efetiva
- É hora de modificar o ”sigilo da confissão” da Igreja Católica
- Abusos: “A denúncia é necessária. Quem fez isso contra um menor agrediu a Cristo”, afirma Francisco
- Sobrevivente de abuso, Marie Collins diz que todos que ficam e ficaram em silêncio “são cúmplices” de McCarrick
- “Ainda hoje existem lugares em que a Igreja segue negando a evidência dos abusos”, afirma Hans Zollner
- Vítimas de abuso sexual querem ser ouvidas pela hierarquia da Igreja, diz Hans Zollner