OPINIÃO
Barbara Wesel – 26/06/2021
A ascensão de Viktor Orbán vem do manual do totalitarismo. A União Europeia foi complacente com isso e só agora, diante da nova lei homofóbica húngara, resolveu levantar a voz. Talvez tarde demais, opina Barbara Wesel.
Finalmente! Todos que, há anos, vinham dizendo que a União Europeia deveria mostrar ao “pequeno ditador” Viktor Orbán o cartão vermelho foram recompensados na última quinta-feira (24/06). Era como estar em um parquinho, onde após anos de não interferência a maioria finalmente enfrenta o valentão e mostra a ele o seu lugar. Como espectador, você observa com satisfação – exceto que tudo isso deveria ter acontecido anos antes.
A lei indiscutível que discrimina os homossexuais, bissexuais e transexuais e os coloca na mesma categoria de pedófilos levou a uma explosão de fúria na cúpula da União Europeia, num nível que nunca havia sido visto antes. Normalmente, prevalecem as regras do coleguismo educado. Mas isso acabou: fila após fila de chefes de governo enfrentaram o húngaro e lhe disseram como seu governo é antidemocrático, discriminatório e homofóbico e que a nova lei é intolerável.
Ao seu lado, Orbán teve apenas os chefes de governo poloneses e eslovenos.
- E o húngaro não hesitou em afirmar na frente dos jornalistas que sua lei tinha como único objetivo proteger as crianças.
- Como se esta estúpida desculpa pudesse esconder o fato de que Orbán lançou uma guerra cultural contra os valores liberais.
O chefe de governo de Luxemburgo, Xavier Bettel, falou comoventemente na cúpula sobre sua própria homossexualidade e questões de identidade do passado. Se Orbán ainda pudesse ter vergonha, teria sido esse o momento.
- Mas ele segue fiel há anos a seu plano de cimentar seu poder como governante autocrático,
- apoiado por um grupo de aliados que ele alimenta com fundos da UE.
Nada disso aconteceu em segredo. Viktor Orbán implementou seus planos diante dos olhos da Europa e até mesmo vendeu sua “democracia iliberal” como um novo modelo político. O resultado é uma cleptocracia perfeita, dominada por bandidos de rua.
- Com a lei anti-LGBTQ, porém, Orbán foi longe demais.
- A opinião pública no Ocidente contra tal discriminação é agora tão forte, que os líderes da UE se revoltaram contra ele.
Indignação europeia chega tarde demais
Mas onde eles estavam antes?
- Mark Rutte, por exemplo, com sua forte afirmação de que a Hungria não tem lugar mais na UE?
- O belga que cunhou a bela frase de que não se pode escolher a homossexualidade, mas não há desculpa para a homofobia.
- E finalmente a chanceler federal alemã, que condenou claramente a lei de Orbán.
Foi precisamente Angela Merkel e seu partido
- foram complacentes com Orbán durante anos,
- encobriram seu desenvolvimento antidemocrático sob a proteção do poderoso bloco conservador no Parlamento Europeu,
- mantiveram as críticas longe dele e finalmente tornaram possível sua ascensão ao poder em Budapeste.
Agora lágrimas de crocodilo estão sendo derramadas sobre a lei antigays.
A ascensão de Orbán vem diretamente do manual do totalitarismo:
- primeiro a mídia é censurada e alinhada ao governo,
- a independência do Judiciário é destruída,
- as instituições são infiltradas por cúmplices corruptos.
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Então, a sociedade civil fica seca, e a liberdade da ciência e da cultura se torna corroída. Tudo isso foi observado durante anos por outros chefes de governo europeus, que apertavam a mão de Orbán de maneira amigável a cada cúpula.
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Caminho sem volta?
Reclamar agora sobre o enfraquecimento dos valores democráticos é chorar sobre o leite derramado.
- Vocês alimentaram esta cobra em sua casa, caros europeus, não se lamentem agora que ela é venenosa.
- De fato, a UE carece de instrumentos para colocar em seu lugar governantes como Orbán.
- Só cortando o fluxo de dinheiro seria possível limitar seu poder.
Mas isso continua sendo muito difícil. Merkel apoiou o fundo especial da pandemia como algo mais importante do que conter o pequeno ditador do Danúbio.
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A esperança provavelmente surgirá se os excessos de Orbán agora unirem a oposição. Talvez a UE possa ajudar com a mídia no exílio para dar à oposição uma chance na campanha eleitoral. E é claro que cada euro dos cofres de Bruxelas que chega à Hungria deve ser submetido a estrito escrutínio. Com auditores e promotores de justiça em sua cola, a vida de Orbán será menos tranquila.
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A propósito, a mídia controlada da Hungria espalhou agora que George Soros, o financiador judeu e ex-apoiador de Orbán, instigou a discussão sobre a lei LGBTQ.
Esta é uma propaganda antissemita do tipo nacional-socialista – portanto, em sua próxima reunião, os líderes da União Europeia deveriam, na verdade, interrogar a direita húngara sobre a suspeita de fascismo. Eles também têm negligenciado essa imundície por muito tempo.
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Barbara Wesel
é correspondente da DW em Bruxelas. O texto reflete a opinião da autora, não necessariamente da DW.

Uma resposta
Vejo muitas vezes esta jornalista no noticiário da DW. A aprecio muito.