
Federico Rampini – 23 Abril 2021 – Foto: DAQUI
A reportagem é de Federico Rampini, publicada por La Repubblica, 22-04-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.
Se for mantida essa promessa, os Estados Unidos farão sua parte para limitar o aquecimento do clima a 1,5 grau, limite máximo indicado pela comunidade científica e aceito nos acordos de Paris. Mas atingir a meta depende de muitas condições.
Em primeiro lugar, se os próprios Estados Unidos conseguirão realmente atingir o objetivo indicado por Biden.
E, além disso, depende dos demais, China na frente: hoje responsável pelo dobro da geração de CO2 em relação aos Estados Unidos.
A cúpula presidida por Biden
- reúne líderes europeus, os seus homólogos chineses Xi Jinping e o russo Vladimir Putin.
- 40 chefes de governo, incluindo 17 líderes de nações responsáveis por 80% das emissões de CO2.
A questão chinesa domina tudo, até por seus reflexos no debate político estadunidense. Um representante respeitado do Partido Republicano, o deputado Garret Graves que é o líder da oposição dentro da comissão parlamentar sobre o clima, disse:
“Tudo o que fizermos será anulado quatro vezes mais pelos chineses, se eles não interromperem o seu crescimento descontrolado nas emissões”. Infelizmente, é verdade.
A Agência Internacional de Energia (AIE) lança este alarme:
- 2021 corre o risco de ser marcado por um recorde trágico, o segundo ano mais prejudicial da história pela quantidade de CO2 liberado na atmosfera.
A causa é principalmente o crescimento asiático, especialmente chinês.
- As emissões de carbono no final do ano podem aumentar em 1,5 bilhão de toneladas alcançando os 33 bilhões, o maior aumento desde 2010, de acordo com estimativas da AIE.
- É uma reversão brutal em comparação com 2020, que em vez disso viu uma queda nas emissões, ligada à recessão do lockdown (não na China, porém, onde continuaram a crescer mesmo no ano passado).
- 2020 terminou com uma queda de 6%.
Mas com a retomada das economias asiática e estadunidense em 2021,
- o consumo de energia deve crescer 4,5%, voltando a se aproximar do recorde histórico de 2014.
- O problema é que a parte mais dinâmica da economia mundial, ou seja a China e os países asiáticos mais ligados ao seu ciclo,
- aumentarão o consumo de carvão em 4,5%.
- Um ligeiro aumento no consumo de carvão também é previsto na Europa e nos Estados Unidos.
Diante dessas projeções, a posição da China é ainda mais crucial.
Xi Jinping proclamou que
- seu país “atingirá o pico de emissões em 2030 e começará a declinar a partir daquele momento”,
- o que significa que por mais nove anos a situação está destinada a piorar para todo o mundo.
A outra meta anunciada pelo presidente chinês
- é atingir a neutralidade de carbono em 2060:
- é criticada por muitos por ser muito distante e ao mesmo tempo muito vaga (o caminho para chegar nisso não é explicado).
A China
- continua a construir novas usinas de carvão em sua própria casa
- e a exportar outras para os países emergentes, onde seus investimentos em infraestrutura da Belt and Road Initiative (New Silk Roads) se ramificam.
- Por isso, exporta um modelo de produção insustentável, também fora de suas próprias fronteiras.
Outro gigante cujas emissões de carbono continuam aumentando é a Índia.
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Tanto Pequim quanto Délhi requentaram uma linguagem acusatória contra os países industrializados mais antigos, responsáveis pelo acúmulo da poluição anterior. As recriminações, por mais legítimas que sejam, não mudam o fato de que hoje a China é o epicentro do problema e a Índia se prepara a alcançá-la.
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Outro polêmico protagonista da cúpula é Vladimir Putin.
- A Rússia tem uma economia muito pequena em comparação com os Estados Unidos, China, União Europeia e Índia.
- No entanto, é um dos maiores exportadores de energias fósseis.
- A Rússia também está se beneficiando da mudança climática: o derretimento do gelo na região ártica abriu novas oportunidades econômicas para Moscou, como rotas marítimas para transportar gás natural liquefeito.
O Brasil é um dos líderes dos países emergentes e é representativo de sua posição: Jair Bolsonaro está pedindo um bilhão de dólares em ajuda para reduzir o desmatamento em 40%.
A Índia está pressionando, lembrando os países ricos de seu compromisso de fornecer US $ 100 bilhões em ajuda anual para financiar sua conversão para modelos de crescimento sustentável.
Biden já alocou 1,2 bilhão (no projeto de lei do orçamento apresentado ao Congresso) e promete colocar mais dois bilhões para contribuir com o Fundo Verde para o Clima destinado para os países pobres.
Em sua própria casa, Biden enfrenta vários obstáculos para alcançar o marco que proclamou. Os custos das energias renováveis – eólica e solar – continuam caindo e isso ajuda a reduzir as emissões de carbono, ainda que tenhamos que lembrar que na definição norte-americana de “renováveis”: está sempre incluída a energia nuclear.
Mas desenvolver as fontes alternativas não basta:
- é preciso investir na reconversão da rede de distribuição, para transportar a eletricidade das áreas onde se concentra a nova capacidade eólica e solar.
- É preciso continuar pesquisas sobre armazenamento e tecnologias de armazenamento (a energia solar e eólica têm ciclos de produção descontínuos, ao contrário dos fósseis).
- É preciso investir na ampliação generalizada dos centros de distribuição de energia para recarga dos carros elétricos.
- Os serviços públicos precisam ser financiados para fechar as usinas fósseis em prazos mais curtos.
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Tudo isso faz parte do próximo plano de investimento em infraestrutura de US $ 2 trilhões, que Biden ainda precisa apresentar ao Congresso e cuja aprovação não será fácil.
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Outra contradição mescla a luta contra a emergência climática com a rivalidade EUA-China.
- O paradoxo da sustentabilidade para os Estados Unidos é o seguinte:
- quanto mais investem em energias renováveis, mais enriquecem seu grande rival.
- Pelo menos no curto prazo, não há como escapar dessa contradição.
A China, com métodos controversos,
- conquistou uma supremacia avassaladora na produção de painéis solares de baixo custo
- ou na fabricação de materiais e componentes essenciais para esses painéis.
- Por exemplo, 80% do polysilicone, um material usado em muitos painéis solares para absorver energia, vem da China.
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- Os Estados Unidos e a União Europeia respondem por 30% da demanda mundial de painéis solares, mas sua capacidade de produção se enfraqueceu, justamente como consequência da concorrência chinesa.
- Nas últimas duas décadas, o governo chinês subsidiou seus produtores domésticos de energia solar e eólica, permitindo que vendessem abaixo do custo no resto do mundo.
- Muitas empresas estadunidenses desses setores faliram ou reduziram sua capacidade de produção.
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Para complicar ainda mais a situação,
- a maioria dos fabricantes de painéis solares (ou componentes) na China têm fábricas na região de Xinjiang
- e são acusados de explorar mão de obra em detenção, presos condenados a trabalhos forçados.
O desafio econômico das energias renováveis cruza o drama dos direitos humanos, em uma região onde o regime de Pequim reprime a minoria uigur de religião islâmica.
Mas se Biden quiser atingir a meta de gerar toda a eletricidade estadunidense a partir de fontes renováveis até 2035, partindo do nível atual de apenas 40%,
- os Estados Unidos terão que mais do que dobrar o ritmo de instalação de novos painéis solares.
- O que significa, no curto prazo, fortalecer a hegemonia chinesa nesse setor.
Outras contradições dizem respeito ao setor privado, que participa da cúpula convocada por Biden.
- O Corporate América, o grande capitalismo EUA, converteu-se em massa à sustentabilidade.
- Muitas vezes, porém, se trata de “greenwashing“: uma pincelada de verde, termo usado para descrever o ambientalismo fácil produzido pelos departamentos de relações públicas para melhorar a imagem empresarial. As ações nem sempre acontecem.
- O setor financeiro, que nas propagandas parece estar na vanguarda, foi acusado justamente nesta ocasião:
- os 60 maiores bancos mundiais entre 2016 e 2020 forneceram 3,8 trilhões em financiamento para a indústria da energia fóssil.

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Federico Rampini
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