
Missa sem povo, transmitida pela TV em Curitiba: Banquete virtual, sem convidados? – Foto: DAQUI
José Manuel Vidal – 17 Abril 2020
Eis a entrevista.

José Arregi / Religión Digital
Como a sociedade espanhola está percebendo a implicação da Igreja e o papel que está exercendo na pandemia? Está cumprindo sua função social?
Careço de dados sociológicos, porém minha impressão pessoal, desde Gipuzkoa, é que a Igreja institucional se sente mais distante ou ausente que nunca.
Compreende-se,
- pois nenhuma instituição social estava preparada para essa situação, local e planetária, inédita,
- porém no caso da Igreja Católica, seu distanciamento social e cultural se torna muito mais evidente.
Com contadíssimas exceções, a Igreja Católica acatou com civismo e responsabilidade as diretrizes administrativas sobre o confinamento – não poderia ser de outra forma –,porém creio que, no geral, revela-se incapaz
- de se fazer próxima e samaritana nesta situação, de se mostrar acessível, próxima, presente de outra maneira,
- de colocar luvas e máscaras e oferecer suas casas e seus meios materiais ou pessoais ao serviço dos mais vulneráveis,
- ou de pronunciar ao menos uma palavra humana, compreensível, de consolo e de alento tão necessários.
Minha impressão pessoal, é que a Igreja institucional se sente mais distante ou ausente que nunca – José Arregi – Tweet
Por que não conseguiu como instituição visibilizar bem sua luta contra a pandemia e não pode, e nem tentou, quebrar o teto de vidro dos grandes meios de comunicação, especialmente as televisões?
A pandemia expôs ainda mais que a instituição eclesial segue ancorada em linguagens, ideias, imagens do passado.
As eucaristias televisionadas nas Igrejas sem alma me parecem rituais de outro mundo.
- Quando os Estados estão recorrendo à geolocalização para o controle dos contágios – com o risco de que o controle acabe sendo tão perigoso quanto o contágio do vírus –,
- quando os cientistas recorrem à inteligência artificial para buscar a vacina da covid-19 – submetendo-se quase à força aos interesses de grandes farmacêuticas em uma corrida maluca para ganhar, a origem de todos os males –,
- quando o mundo inteiro está em suspense diante de um futuro que pode ser muito melhor ou muito pior que o que nos trouxe até aqui…,
- os bispos seguem animando a rezar por Deus pelo fim desta pandemia (que alguma vez acabará)
- e muitos teólogos seguem entornando o dilema de Epicuro (século IV a.C.): se Deus pode e não quer, ou se quer e não pode evitar esses sofrimentos…
Enquanto seguir imaginando Deus como Ente Supremo pessoal à imagem humana, a Igreja seguirá confinada, cada vez mais longe desta sociedade, de suas angústias e alegrias.
A pandemia expôs ainda mais que a instituição eclesial segue ancorada em linguagens, ideias, imagens do passado – José Arregi – Tweet
Crês que a Igreja institucional fará parte do novo contrato social que parece estar se tecendo?
Serão indispensáveis para isso duas condições.
Em primeiro lugar: que
- ponha a defesa efetiva dos pobres de toda a Terra, como faz o papa Francisco, por cima de todo dogma, rito e norma moral,
- assuma um paradigma cultural, político e teológico integralmente ecológico e feminista,
- e aceite radicalmente o princípio da laicidade tanto na ordem sócio-política como espiritual.
E, em segundo lugar:
- que esteja disposta a levar a cabo uma releitura da Bíblia e de toda tradição teológica, mais além de toda letra e de todo significado,
- uma reinterpretação a fundo de todos seus dogmas e categorias,
- e uma reforma absoluta do modelo clerical da Igreja.
De outro modo,
- a Igreja institucional não será fermento, testemunha, companheira de caminho e comensal de Emaús…
- sem isso, a Igreja seguirá se fazendo cada vez mais estranha e alheia a essa sociedade, até se dissolver.
A crise do coronavírus está fazendo aflorar o lado religioso de muita gente, que estava escondido até agora? Os indiferentes religiosos voltarão ao catolicismo ou irão definitivamente em busca de novas espiritualidades?
Parece claro que o coronavírus faz com que sintamos em carne viva nossa fragilidade e vulnerabilidade, nossa finitude, nossa morte. De imediato,
- a humanidade, começando pelas maiores potências,
- encontra-se confinada, confrontada com seus medos, sua solidão, sua morte e a morte das pessoas queridas,
- em estado de conflito planetário, como nunca visto antes.
É muito possível que essa pandemia leve muita gente a redescobrir a necessidade da espiritualidade como profundidade da vida e de todo o real – José Arregi – Tweet
Porém, creio que seria um grande erro pensar que isso vai significar o recrudescimento das formas religiosas tradicionais e, concretamente, da Igreja Católica.
É muito possível que muita gente redescubra a profunda necessidade de se olhar mais a fundo
- a si mesmo, à natureza que somos,
- ao céu estrelado,
- de submergir-se no Mistério do que é,
- de se reconciliar com suas feridas profundas,
- de reconhecer a necessidade e cuidado e de ternura,
- de reinventar a economia e a política,
- de recuperar a paz, o respiro, o alento a nível pessoal e estrutural, a nível econômico, político, planetário,
- de voltar a sentir que todos somos um e que somente juntos poderemos nos salvar.
É muito possível que essa pandemia
- leve muita gente a redescobrir a necessidade da “espiritualidade” como profundidade da vida e de todo o real,
- porém não creio que, ao menos na imensa maioria, voltem a encontrar nas instituições religiosas tradicionais com seus dogmas, ritos e códigos.
O medo da morte que perpassa pela sociedade encontrou sentido, consolo e esperança na Igreja? Sem a possibilidade de realizar funerais, a Igreja perdeu o último rito de passagem que lhe restava?
- Espero que a situação atual seja um parênteses
- e que possamos voltar a nos despedir de nossos mortos de maneira presencial e coletiva,
- seja em uma forma religiosa ou laica.
Espero que voltem os funerais religiosos,
- porém gostaria que, depois do coronavírus, mude sua linguagem e seu marco arcaico,
- e nelas se dê o necessário às demandas e propostas (textos, gestos, palavra) das famílias “não crentes”,
- de modo que os distanciados da Igreja possam se sentir confortáveis nelas, recebam o consolo real,
- e a fronteira entre a “liturgia” (ação do povo) religiosa e leiga vá se diminuindo.
Muitos bispos utilizam massivamente as novas tecnologias para difundir a mesma mensagem de sempre, medieval, incompreensível. Quanto mais se difunde, mais negativo é seu efeito, maior a distância entre o Evangelho e a cultura – José Arregi – Tweet
A internet se consagrou (depois de ser demonizada por muitos clérigos) como um grande meio de humanização e de evangelização?
Obrigado Internet!
- Sem ela, a pandemia teria sido uma catástrofe familiar, social, econômica… muito maior para todos.
- Sem ela, também as instituições religiosas teriam sentido muito mais.
Porém, ao mesmo tempo, o coronavírus deveria ser
- uma ocasião para pararmos e pensar pausadamente sobre como utilizar a Internet muito mais sabiamente,
- uma ocasião para medir os riscos de passarmos o dia colados a uma tela
- ou à ameaça de um controle ditatorial de nossas vidas por parte dos Estados e dos grandes poderes desumanos.
O mesmo vale para as instituições religiosas:
- muitos bispos utilizam massivamente as novas tecnologias
- para difundir a mesma mensagem “de sempre”, medieval, incompreensível.
Quanto mais se difunde,
- mais negativo é seu efeito,
- mais cresce a distância entre o Evangelho e a cultura,
- mais descuida a Igreja de sua missão profética no mundo de hoje.
É a hora de um grande discernimento por parte da Igreja institucional.
Como será a Igreja pós-coronavírus? Que características terá? Para que linhas apontará? Afetará as reformas do papa Francisco?
O coronavírus
- nos demonstrou, mais uma vez, que o futuro é imprevisível,
- e constitui um claro convite à cautela também a respeito do futuro concreto da Igreja.
Em qualquer caso, essa pandemia poderia constituir um sinal dos tempos que chama a Igreja a dar um salto adiante histórico em uma dupla linha estritamente relacionada:
uma chamada, em primeiro lugar
- a se converter pessoal e institucionalmente na Igreja dos pobres e para os pobres,
- dando prioridade absoluta à bem-aventurança e à libertação dos pobres respeitando a doutrina;
um chamado, em segundo lugar,
- a reiventar radicalmente outro modelo não clerical-hierárquico-masculino da Igreja
- e, ao mesmo tempo, a renovar a fundo (não somente em linguagens e formas superficiais) toda a teologia (crenças, ritos, normas…).
O mais provável é que a Igreja seja incapaz de responder a esse duplo e único desafio, e que a distância entre a Igreja e o mundo de hoje aumente e a crise da Igreja se acentue – José Arregi – Tweet
O mais provável, me parece, é que a Igreja
- seja incapaz de responder a esse duplo e único desafio,
- e que, em consequência, a distância entre a Igreja e o mundo de hoje aumente
- e a crise da Igreja se acentue.
O papa Francisco está sendo um profeta mundial de uma Igreja pobre e para os pobres, porém sua teologia segue sendo muito tradicional. Enquanto persista esse desajuste, a reforma necessária da Igreja me parece impossível.
Poderá seguir mantendo sua atual estrutura econômica, territorial e funcional?
- A drástica redução numérica dos fiéis (que creio que acabará se estendendo a nível planetário) por um lado,
- e, por outro, a globalização da Internet
- exigem, efetivamente, que se repense todo o funcionamento e a organização da Igreja Católica (paróquias, dioceses, Vaticano, distinção entre clérigos-leigos, exclusão da mulher, sacramentos…).
A pesadíssima maquinaria clerical, vertical e centralizada é insustentável. Porém não se trata tanto de “formas de organização”, mas sim de modelo de religião e de Igreja.
A pandemia despertou no laicato a consciência do seu ser “povo sacerdotal” e, portanto, a exigência de assumir ministérios ordenados?
Essa consciência vem de muito antes, porém é verdade que a pandemia e o confinamento a agudizam.
- E não se trata de que os “leigos” assumam “ministérios ordenados”,
- mas sim de superar a distinção entre leigos e clérigos (distinção criada pelos clérigos)
- e, portanto, entre “ministérios ordenados” e “ministérios não ordenados”,
- como se os primeiros emanassem de Cristo através de seu representante sagrado (o bispo) e os segundos fossem “mera delegação da comunidade”.
Esse esquema já não tem sentido. Aprenderemos no confinamento? Um coronavírus terá que nos ensinar essa nova teologia?
A atual práxis sacramental terá que ser revisada, especialmente a eucaristia e a penitência?
- Como entender que não podemos celebrar a memória sacramental de Jesus porque não podemos ir a uma igreja ou porque um “sacerdote ordenado” não possa vir à casa?
- Como seguir mantendo que não há “sacramento eucarístico” (que significa dar graças pela vida) se não há “transubstanciação” do pão e do vinho ou do que seja em “Corpo de Cristo”?
- Pois o que são o pão, o vinho e tudo o que é senão o corpo de Cristo, se soubermos olhá-los com os olhos do evangelho?
- E como entender que não somos perdoados se um sacerdote canonicamente ordenado não nos absolve?
O que é o pecado senão o dano que fazemos a nós mesmos, e como curá-lo senão derramando um pouco de olho ungido uns sobre os outros, confinados em casa ou na rua ou nas instituições políticas e nas leis do mercado que terá que revisar quando passe essa pandemia, se não queremos que outra pandemia muito pior acabe com todos?
- O que é o perdão senão seguir cuidando a vida e confiando no outro?
- Não devem ser nossa palavra, nosso olhar e nossos gestos cotidianos o verdadeiro sacramento do perdão mútuo, “setenta vezes sete”, cada dia?
José Maria Vidal
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