
Por Carlos Esteban | 02/09/2019 – Foto: Daqui
Tradução de Bruno Braga para o blog Obra Missionária, via Infovaticana.
“Peço ao Bom Deus que me leve quando as mudanças forem irreversíveis”, confessou Francisco há alguns anos a Adolfo Nicolás Pachón, Superior Geral dos jesuítas entre 2008 e 2016. Com o anúncio da nomeação de dez novos Cardeais eleitores, Sua Santidade está somente a quatro de ter escolhido a metade do colégio cardinalício.
Existem várias formas de comentar a nova lista de Cardeais do Papa, num anúncio que coincidiu com o fato de ele ter ficado preso em um elevador por 25 minutos. Na Itália, especialmente, destaca-se que somente um dos novos é italiano, o que está deixando de ser excepcional, embora resulte chamativo.
- Neste sentido, boa parte da imprensa destaca a “diversidade”: Espanha, Cuba, Congo, Luxemburgo, Guatemala…
- Porém, é uma diversidade meramente geográfica, pois o que todos eles têm em comum é a acentuadíssima lealdade ao projeto de “renovação eclesiástica” desejado pelo Papa.
- Uma forma de, quando faltar Francisco, tornar as mudanças na Igreja irreversíveis.
Encontramos prelados abertamente entusiastas da causa LGBT, como Zuppi – o único italiano; da eliminação das fronteiras, como Czerny; do diálogo com outras religiões, como Ayuso; da “ecologia integral”, como Ramazzini; da aproximação com o Islã, como López Romero; violentamente contrários à Liturgia tradicional, como García Rodríguez, ou aos políticos “populistas”, como Höllerich.
É uma política de terra devastada. Taxados ambos de ultraconservadores, João Paulo II e Bento XVI tiveram prudência na nomeação de novos Cardeais, equilibrando supostos “conservadores” com alegados “progressistas”. Francisco não é assim, e apresentou a lista de Cardeais mais à esquerda da história.
A seleção é extraordinariamente útil para visualizar a estratégia de Francisco a longo prazo, seu plano global, porque o restante de suas ações concretas são tática, isto é, respostas a desafios imediatos. Os Cardeais eleitores, ao contrário, são escolhidos pensando nos próximos Papas que a Igreja terá. Então, vamos dar uma olhada.
Miguel Ángel Ayuso Guixot, comboniano, presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso. É um dos dois espanhóis da lista. O conselho que ele preside coordenou a ação do Papa com os Emirados Árabes para estabelecer um comitê para o encontro inter-religioso em Abu Dabi, conforme as linhas traçadas pelo documento assinado por Sua Santidade e pelo Grande Imã de Al-Azhar. Documento elogiado pelo futuro Cardeal em uma longa entrevista para a Rádio Vaticana, em 25 de agosto. Ayuso é um dos membros católicos do tal comitê.
José Tolentino Calaça de Mendonça, português, Chefe dos Arquivos da Igreja Romana e poeta. Sua nomeação em 2018 como Arcebispo e chefe do Arquivo Secreto Vaticano, e também para presidir o retiro de Páscoa do Papa e da Cúria no mesmo ano, é citada na Correctio Filialis como indício de desvio. Mendonça elogiou a teologia da irmã Teresa Forcades, que defende a moralidade dos atos homossexuais, afirma que o aborto é um direito, e que “Jesus de Nazaré não codificou nem estabeleceu regras”. O Papa Francisco o nomeou Arcebispo e chefe do Arquivo Secreto Vaticano em 2018. Também o escolheu para pregar o retiro de Quaresma para o Papa e para os altos funcionários da Cúria em 2018.
Ignatius Suharyo Hardjoatmodjo é Arcebispo de Yakarta, capital do país com mais muçulmanos do planeta, a Indonésia. Os católicos ali são uma pequena minoria e o radicalismo islâmico começou a fixar raízes no país, realizando ataques frequentes contra as minorias não muçulmanas. Suharyo foi um dos Bispos participantes no primeiro Sínodo da Família, do qual saiu a Exortação Apostólica Amoris Laetitia.
Juan de la Caridad García Rodríguez. Nomeado por Francisco, em 2016, Arcebispo da capital cubana. É o primeiro ordinário de Havana nascido depois da revolução castrista. Proibiu em sua Arquidiocese a aplicação do motu proprio Summorum Pontificum, de Bento XVI, que permite a celebração da Missa tradicional.
Fridolin Ambongo Besungu é franciscano, Arcebispo de Kinshasa, capital da República Democrática do Congo. É o único sub-sahariano da lista, o que não é estranho, pois a Igreja africana em geral não se mostra de forma alguma entusiasmada com a “renovação” nem tampouco com a ênfase na migração em massa, que está retirando jovens de suas dioceses e paróquias. Mas Ambongo é um caso especial, no sentido de que mantém uma relação harmoniosa com o episcopado de língua alemã.
Jean-Claude Hollerich, jesuíta, é Arcebispo de Luxemburgo e presidente da Comissão das Conferências de Bispos da Comunidade Europeia. No último dia 24 de abril, ele lançou um contundente ataque contra os “populismos” (partidos soberanistas). É um dos prelados mais “políticos” dos eleitos.
Álvaro Leonel Ramazzini Imeri, Bispo de Huehuetenango, na Guatemala. É um prelado próximo da Teologia da Libertação que evoluiu – como aconteceu com a maioria dos clérigos dessa corrente – até a “ecologia integral”. No II Congresso Continental de Teologia da Ameríndia, em 2015, disse que “Francisco é o porta-voz dos que trabalham neste continente”, o que provavelmente não prejudicou a sua carreira.
Matteo Maria Zuppi, Arcebispo de Bolonha – sucessor do Cardeal Caffarra –, colaborador da Santo Egídio, a ordem com mais poder na Cúria Romana sob Francisco. Único italiano da lista, é a renovação que se fez Bispo. Talvez, junto de Tolentino, é o mais aberto defensor da “acolhida” dos LGBT. O padre James Martin, autoproclamado apóstolo do lobby, aproveitou sua nomeação para parabenizá-lo através de sua conta no Twitter:
“Sucesso para o Cardeal Matteo Zuppi, Arcebispo de Bolonha, um grande defensor dos católicos LGBT. Incluo aqui sua introdução para o meu livro ‘Building a Bridge” [tradução livre: ‘Construindo uma ponte’], publicado na Itália como ‘Un ponte da costruire’, no qual anima a uma ‘nova atitude pastoral’”.
Cristóbal López Romero, salesiano, nomeado por Francisco Arcebispo de Rabat, Marrocos, em 2018. Ele deixou claras as suas intenções desde o primeiro dia ao garantir: “Quero ser […] uma pequena ponte que una cristãos e muçulmanos”. Somente 0,7% da população do reino aluíta é católica.
Michael Czerny, jesuíta canadense, subsecretário do Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral dedicado a Migrantes e Refugiados, uma das causas mais caras ao Papa Francisco. Sobre Czerny, o portal Infovaticana já comentou em outra ocasião.
De resto, causou surpresa a ausência de prelados chineses entre os eleitos, assim como de algum outro que, pela importância de sua sede arcebispal, tradicionalmente se oferece o barrete cardinalício, como é o caso de José Horacio Gómez, Arcebispo de Los Angeles.
Carlos Esteban
Fonte: https://centrodombosco.org/2019/09/09/novos-cardeais-nomeados-francisco-tudo-bem-atado/