O senso comum no Ocidente é que a religião é inamovível no mundo árabe por ser entranhadamente cultural. Mas há notórios sinais de refluxo
José Brissos-Lino – 17.07.2019
Foto: Andrea Ricordi/ Getty Images
Segundo um estudo realizado no Médio Oriente e Norte de África pela Araba Barometer (rede de investigação baseada na Universidade de Princeton) e citado pela BBC, os árabes estão a afirmar-se cada vez mais como não-religiosos. Estarão mesmo os árabes a virar as costas à religião?
A investigação – que não incluiu os estados árabes do Golfo, por recusarem o acesso aos investigadores – avaliou onze países, concluindo que o abandono da identificação religiosa é mais acentuado no Norte de África, em especial na Tunísia, Líbia e Marrocos. Devido à guerra não foi possível desenvolver a recolha de dados na Síria.
No curto período de cinco anos, e por contraste com os dados recolhidos em 2013, o abandono da identificação religiosa mais do que duplicou na Tunísia, Líbia e Argélia
- Tunísia: de 15% para mais de 30%;
- Líbia: de pouco mais de 10% para cerca de 25%;
- Argélia: de 7% para 15%.
Embora com variações mais baixas, Marrocos e Egipto também seguiram a tendência de duplicação da percentagem de descrença. A excepção é o Iémen, que contrariou a tendência ao ver aumentar a filiação religiosa no mesmo período. Já no Líbano, Iraque e territórios palestinianos a variação é insignificante.
O objectivo desta investigação era consultar as populações árabes relativamente a uma ampla gama de questões como
- filiação religiosa,
- condição feminina,
- migrações,
- segurança
- e sexualidade.
A população consultada foi na ordem dos 25.000 indivíduos em 10 países e territórios palestinianos entre finais de 2018 e a Primavera deste ano. Os dados recolhidos mostraram que desde 2013,
- o número de pessoas em toda a região que se identificam como “não religiosas” subiu de 8% para 13%,
- sendo predominante nos menores de 30 anos.
Quanto ao direito das mulheres na vida pública,
- a maioria dos inquiridos declarou apoiar a eventualidade de uma mulher se tornar primeira-ministra ou presidente,
- à excepção da Argélia, onde menos de metade aceitou a ideia.
Já quanto à relação familiar
- a maioria – incluindo as mulheres – atribui aos maridos a palavra final nas decisões,
- excepto em Marrocos.
A metodologia utilizada incluiu entrevistas de 45 minutos, em grande parte baseadas em tablets, conduzidas por investigadores a indivíduos em espaços privados.
A inevitável ocidentalização das sociedades árabes pela mão
- dos fluxos migratórios,
- da globalização
- e da universalização dos meios de comunicação social, sem esquecer a internet e as redes sociais,
- terão dado certamente o seu contributo para a presente tendência caracterizada por um pendor mais secular e laico.
Por outro lado, a demografia nestes países resulta em quadros populacionais de idades mais baixas, dados os níveis de natalidade, e
- os jovens manifestam sempre abertura ao novo,
- apelo pela aventura e atracção pelo desconhecido,
- sendo menos fiéis à transmissão dos costumes e tradições pelas gerações anteriores.
O nível de vida na Europa e Estados Unidos é muito mais apelativo, a oferta cultural diversificada, assim como os altos níveis de conforto quando comparados com tais sociedades, bem como as possibilidades do lazer. O facto é que aumentou o número de pessoas que partem para os Estados Unidos e, embora a Europa seja menos popular do que era, continua a ser a melhor escolha para as pessoas que pensam deixar a região.
Em todos os países e territórios do estudo se concluiu que
- pelo menos uma em cada cinco pessoas pensava emigrar,
- essencialmente por razões económicas,
- mas no Sudão esse desejo representa metade da população.
A propaganda oficial contra Israel, a América e o Ocidente em geral, em boa parte desses países e territórios, não consegue anular a atracção que tais destinos exercem na juventude.
Apesar de tudo ainda se conservam laivos de mentalidade medieval em parte da população, em particular em sete destes países onde
- o conceito de homicídio de honra, isto é, matar alguém por supostamente ter desonrado a família,
- é considerado mais aceitável do que a homossexualidade.
Embora se tenha acabado por revelar quase um fiasco político, a verdade é que a chamada “primavera árabe”funcionou como uma janela de esperança para as camadas mais jovens, que assumiram serem possíveis outros amanhãs nunca antes por eles experimentados. Sobretudo terão integrado que
- existe uma outra forma de organização social que dispensa os rígidos ditames religiosos impostos às populações,
- remetendo assim a religião para o domínio das escolhas e opções individuais.

Doutorado em Psicologia e Especialista em Ciência das Religiões; Diretor do Mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona; Coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo.
Fonte: http://visao.sapo.pt/opiniao/2019-07-17-Estarao-os-arabes-a-virar-as-costas-a-religiao-
Uma resposta
Isso ajuda na compreensão desta questão, pois parece que há uma ligação automática entre mundo árabe e islamismo. Vemos agora que não é bem assim.