
Andrea Grillo –13/03/17 Tradução: Orlando Almeida
Foto: “Rua do Concílio”, a preferida de Francisco para fazer caminhar a Igreja
“Três sinais que anunciam outros quatro anos de reformas. Francisco gosta de “caminhar”: quer uma Igreja que saia ao ar livre e que não tenha medo do debate. Mas os processos para serem reiniciados, exigem novos procedimentos. A ilusão de que para transmitir a fé não se deva ‘traduzir’ está superada. O Concílio Vaticano II continua a incidir profundamente, não está esterilizado. Sobre esta base celebramos hoje 4 anos completados e inauguramos os anos vindouros do Papa Francisco, o grande tradutor.”
Nas últimas duas décadas, a Igreja Católica tinha sido tentada a sair “do caminho do Concílio Vaticano II”: com o advento do Papa Francisco foi confirmada na “estrada do Concílio”.
No início do quinto ano de seu pontificado, o Papa Francisco aparece como o grande tradutor do Concílio Vaticano II. Aqueles que, nestes quatro anos se admiraram com a força e a profecia do seu pontificado – sejam eles simples batizados ou cardeais eleitores – deveriam reler as palavras com que Jorge Mario Bergoglio interveio na Congregação dos Cardeais em 9 de março, quatro dias antes da sua eleição .
O esquema do discurso é de uma clareza cristalina. Contém todos os pontos que nestes quatro anos temos visto ser gradualmente implementados . Com toda a “auto-crítica” e a exigência de saída, de libertação da auto-referencialidade e de redescoberta da centralidade da periferia. Já então havia um pressentimento lúcido de que esta era a única solução verdadeira para uma recuperação da credibilidade da Igreja e com base nesta perspectiva Francisco conseguiu o consenso dos cardeais.
Uma imagem talvez seja a melhor síntese: Cristo não está só “do lado de fora e bate para entrar”, mas está também “do lado de dentro e bate para sair.” A Igreja deve libertar-se da auto-referencialidade e permitir que Cristo saia. Eis o texto de quatro anos atrás: o melhor auspício para outros quatro anos inesquecíveis.
INTERVENÇÃO NA CONGREGAÇÃO DOS CARDEAIS – 09 de março de 2013
de Jorge Mario Bergoglio
Foi feita referência à evangelização. É a razão de ser da Igreja. “A doce e confortadora alegria de evangelizar” (Paulo VI). É o próprio Jesus Cristo que, de dentro, nos empurra.
1) Evangelizar implica zelo apostólico. Evangelizar pressupõe na Igreja a “parresia” de sair de si mesma. A Igreja é chamada a sair de si mesma e ir para as periferias, não apenas as geográficas, mas também as existenciais: as do mistério do pecado, da dor, da injustiça, da ignorância e da ausência de fé, as do pensamento, as de todas as formas de miséria.
2) Quando a Igreja não sai de si mesma para evangelizar torna-se auto-referencial e então fica doente (pense-se na mulher encurvada sobre si mesma do Evangelho). Os males que, no decorrer do tempo, afligem as instituições eclesiásticas têm uma raiz na auto-referencialidade, numa espécie de narcisismo teológico. No Apocalipse, Jesus diz que Ele está à porta e chama. Evidentemente o texto refere-se ao fato de que Ele está do lado de fora da porta e bate para entrar… Mas às vezes penso que Jesus bate do lado de dentro, para que o deixemos sair. A Igreja auto-referencial pretende manter Jesus Cristo dentro de si mesma e não o deixa sair.
3) A Igreja quando é auto-referencial, sem perceber, acredita ter luz própria; deixa de ser o ” mysterium lunae” e dá origem àquele mal tão grave que é o mundanismo espiritual (segundo De Lubac, o maior mal em que pode incorrer a Igreja): aquele viver para se gloriar uns com os outros. Simplificando, há duas imagens da Igreja: a Igreja evangelizadora que sai de si mesma; o da “Dei Verbum religiose audiens et fidenter proclamans” [a Igreja que escuta religiosamente e proclama fielmente a Palavra de Deus – ndr], ou a Igreja terrena que vive em si, por si, para si. Isto deve iluminar as possíveis mudanças e reformas a ser realizadas para a salvação das almas.
4) Pensando no próximo Papa: um homem que, através da contemplação de Jesus Cristo e da adoração de Jesus Cristo, ajude a Igreja a sair de si mesma para as periferias existenciais, que a ajude a ser mãe fecunda que vive “da alegria doce e confortadora do evangelizar”.
Roma, 09 de março de 2013
Relendo este texto encontramos a inspiração original do pontificado e ficamos surpresos pelo fato de que quatro anos depois, com tudo o que aconteceu nestes quatro anos, ela conserva intacta a sua força, a sua clareza e a sua beleza. Nos últimos dias Francisco referiu-se a alguns “temas” que se tornarão certamente campos de ação para a Reforma da Igreja do futuro: ambos têm a ver com a “superação da auto-referencialidade da Igreja” que se alimenta de novos procedimentos para honrar a tradição.
- O procedimento de “ordenação sacerdotal” – que poderá incluir também “viri probati” –
- e o procedimento de “designação episcopal” – que para indicar o Cardeal Vigário de Roma procederá a uma consulta radical da Diocese.
- A isso deve ser juntado também o “estudo” em torno do diaconato feminino.
Três sinais que anunciam outros quatro anos de reformas. Francisco gosta de “caminhar”: quer uma Igreja que saia ao ar livre e que não tenha medo do debate. Mas os processos para serem reiniciados, exigem novos procedimentos. Só com procedimentos renovados é que a tradição poderá ser verdadeiramente honrada. E ninguém deve ter medo de mudar os procedimentos: nem mesmo os canonistas, que de procedimentos deveriam ser os mais entendidos.
A ilusão de que para transmitir a fé não se deva ‘traduzir’ está superada. O Concílio Vaticano II continua a incidir profundamente, não está esterilizado. Sobre esta base celebramos hoje 4 anos completados e inauguramos os anos vindouros do Papa Francisco, o grande tradutor.
Andrea Grilllo
