Entrevista com o diretor do grupo editorial suíço Corriere del Ticino Ti-Media, um especialista em política internacional e de comunicação

Andrea Tornielli – 23/03/2016 – Roma
Foto: LaPresse – A Torre Eiffel iluminada com as cores da bandeira belga, uma homenagem às vítimas dos atentados em Bruxelas. “Admito que a pergunta seja incômoda, que possa parecer até escandalosa logo a seguir aos sangrentos atentados de Bruxelas, mas não acho certo deixá-la para depois: será que o terrorismo de hoje não foi, pelo menos parcialmente, provocado pelas nossas escolhas erradas?”.
Tradução: Orlando Almeida
Marcello Foa, por muito tempo articulista de “Il Giornale”, onde chegou para cuidar da seção de assuntos estrangeiros junto com Indro Montanelli (e em cujo site continua a manter o seu seguidíssimo blog independente), é agora diretor do grupo editorial suíço Corriere del Ticino-Ti e Professor de Comunicação e Jornalismo. Exatamente dez anos atrás, publicou um livro muito bem aceito e ainda hoje esclarecedor: “Os feiticeiros da notícia”, dedicado aos “spin doctor”, sobre como se “fabricam” notícias a serviço dos governos. No editorial publicado hoje no “Corriere del Ticino”, intitulado “O horror e os erros de que ninguém fala” apresentou como sempre uma análise não óbvia sobre o que está acontecendo.
Vatican Insider entrevistou-o.
Como se combate o terrorismo do Isis?
“Da única forma eficaz, que não é, ou não é apenas, aumentar os controles ou reduzir as liberdades pessoais. Estas medidas não se mostram eficazes, afetam a todos indistintamente e dificilmente interceptam os autores dos atentados, como é evidenciado pelo que aconteceu no aeroporto de Bruxelas. A única forma eficaz é ao contrário a de infiltrar-se nas células terroristas e mantê-las sob vigilância de maneira planejada”.
O que pode dizer sobre a atitude e sobre as ações que o Ocidente tem posto em prática em relação aos países árabes e do Oriente Médio nas últimas décadas?
“Admito que a pregunta seja incômoda e possa parecer até escandalosa, logo em seguida aos sangrentos atentados de Bruxelas, mas acho que não é certo deixá-la para depois: será que o terrorismo de hoje não foi, pelo menos parcialmente, provocado pelas nossas escolhas erradas?”.

O Ocidente está combatendo, desde há quinze anos atrás, aquela que George W. Bush em 2001 definiu como “War on terror” – guerra contra o terrorismo. Os resultados dessa guerra são desastrosos: o mundo de hoje está muito menos seguro do que então, e o fundamentalismo islâmico violento ao invés de regredir está cada vez mais disseminado no mundo árabe.
A instabilidade do Iraque, a derrubada dos regimes que eram amigos do Ocidente, o desastre sírio, trouxeram não dezenas ou milhares, mas centenas de milhares de mortes. Arruinaram a existência das famílias, e os que sobreviveram ficaram sem casa e sem mais nada. Este clima é o melhor húmus para fazer crescer qualquer chamado do terrorismo fundamentalista. O Isis é agora mais poderoso e mais preocupante do que era a Al Qaeda há dez anos atrás”.
Porque o Isis é mais poderoso?
“Por que pode contar com 40-50-60 mil militantes prontos a fazer uma guerra em nome de uma ideologia religiosa, e porque se enraizou num território entre o Iraque e a Síria. Eles estão muito mais estruturados do que a Al Qaeda”.
Parece que os aliados ocidentais de ontem são hoje seus piores inimigos …
“Infelizmente, o jogo de alianças e o cinismo das diplomacias, até recentemente, fez com que o Isis fosse tolerado e até mesmo armado pela Arábia Saudita, pelos Emirados Árabes Unidos, pela Turquia.
E não esqueçamos também as responsabilidades dos EUA. Lembro o que disse em 2014 o senador John McCain, numa entrevista em vídeo na Fox News, afirmando ter contato com o Isis. Foram financiados, sustentados e adestrados grupos de rebeldes apoiados e treinados para derrubar o regime de Assad, tal como Bin Laden foi usado para combater a União Soviética no Afeganistão. Depois estas manobras saem de controle, e os aliados subterrâneos de ontem tornam-se os piores inimigos de hoje “.
Está acontecendo um choque frontal entre cristianismo e islã?
“Comecemos por dizer que estamos diante de uma luta interna dentro do mundo muçulmano, em que a Turquia e a Arábia Saudita promovem o Islã wahabita e neo-salafita e combatem o Irã e o Islã xiita. A retórica do Isis visa muito o recrutamento de novos militantes com mensagens anti-ocidentais, mas o coração do conflito é intra-islâmico. Precisamos ser muito cautelosos na avaliação das mensagens diretamente anti-cristãs, e não dar sempre por certa a autenticidade de certos vídeos. Não se pode excluir que haja outros interesses em jogo quando se incha a ameaça Isis”.

Roma está na mira?
“Sim, mas eu não acho que seja principalmente por razões religiosas. Devemos reconhecer que, graças à longa experiência de terrorismo nos anos setenta, os serviços secretos italianos provaram estar entre os melhores do mundo. O mesmo não pode ser dito de outros países europeus. Em todos os atentados nas capitais europeias vieram à tona erros macroscópicos e embaraçosas anomalias, a tal ponto que às vezes os resultados das investigações foram mantidos em segredo, apelando para a Razão de Estado”.
O seu editorial conclui-se com uma pergunta sem resposta …
“Sim. De fato, a história do terrorismo mostra que os atentados têm objetivos de curto prazo e objetivos de longo prazo. Agora, é evidente que, de imediato, o que se quer é provocar choque, desorientação, medo. O Isis quer traumatizar a população da Europa. E o objetivo foi, infelizmente, alcançado. Falta compreender o objetivo de longo prazo …. “.
Invadir o Ocidente e transformar a Europa num Estado islâmico?
“Tudo pode ser dito, menos que estes perigosos fanáticos são desprovidos de inteligência, de capacidade de planejamento e de comunicação.
Acho inverossímil que pensem realmente em estabelecer um Estado islâmico na Europa, até porque, se fosse esse o objetivo, teriam maior chance de sucesso promovendo uma invasão silenciosa e pacífica. Por enquanto, eu não encontro uma resposta a longo prazo. No entanto, responder a esta pergunta é fundamental para calibrar adequadamente a resposta ao horror do terrorismo”.
Andrea Tornielli
