Opinião: O Fenômeno Marina Silva*

Por Eduardo Hoornaert

De repente, em meio aos jogos políticos costumeiros, surge o fenômeno Marina Silva. Basta sua aparição no tabuleiro político armado em função da eleição presidencial de 2010, para que se revele um dinamismo oculto no seio da sociedade. A exposição pública de Marina Silva atua como uma varinha mágica, fazendo aparecer aspirações e sentimentos latentes de uma parcela não desprezível da sociedade brasileira. Sua figura sintoniza com forças desde muito em gestação no mais íntimo da sociedade, que aguardavam apenas um discreto sinal para se revelar.

Originária das mais puras origens de um PT ainda não contaminado pelos vícios e aberrações do poder, Marina subverte atitudes até hoje predominantes na política brasileira. Não pratica a politicagem nem tem ‘rabo preso’, e com isso ela introduz no país o tema da liberdade, condição básica da felicidade. Ora, liberdade e felicidade provêm do ‘ser’, não do ‘ter’. Nos últimos séculos, o ‘ter’ foi gradativamente ganhando maior importância que o ‘ser’, pelo menos na política dos países ocidentais. Isso se pode verificar diariamente nos noticiários da TV, dos jornais e da internet, onde se parte do pressuposto que o bem-ter (dinheiro, poder, propriedade) é mais importante que o bem-ser (feliz) e que a economia serve para aumentar o bem-ter. O termo que expressa de maneira mais significativa esse desvio é o termo PIB (produto interno bruto), usado internacionalmente para avaliar a ‘saúde’ da economia de um país. Uma economia saudável seria uma economia que ‘produz’ muito, ou seja, que gera dinheiro. A atual mentalidade econômico não relaciona a administração das riquezas do país à felicidade do(a) cidadã(o). Por isso há quem defenda a substituição do termo PIB (produto interno bruto) pelo termo FIB (felicidade interna bruta). O que é FIB? É uma medida que avalia a economia por sua capacidade de gerar uma convivência sem miséria, de garantir o mínimo vital para todos e todas, de providenciar o acesso de todos e todas à boa saúde, boa educação, boa segurança, alimentação satisfatória, água potável, moradia, saneamento, trabalho, descanso, festa, bom vestuário e preservação da natureza. Eis o que Marina Silva coloca na pauta política. Ora, essa novidade não penetra com facilidade na mente de políticos que estão acostumados a pensar em ‘custo-benefício (financeiro)’ quando falam em economia. Com a presença de Marina Silva no palco político, o segmento da população que entende economia como a procura do bem-viver para todos(as) obtém um pólo aglutinador. Aspirações anteriormente vagas e espalhadas em diversos movimentos encontram agora um porta-voz. Se Marina conseguir um número expressivo de votos nas próximas eleições presidenciais, as regras do jogo político podem mudar nos próximos anos. Claro, não se trata de içar imediatamente Marina Silva à presidência da república. Pode ser que um dia ela chegue lá, mas na fase em que estamos não é aconselhável pensar logo em termos da conquista do poder do estado, no caso da candidatura de Marina. Não se pode pensar razoavelmente que Marina Silva conquistará a presidência em 2010 e nem é bom pensar nisso agora. Além disso, ela vai ter de costurar alianças. Não se sabe até que ponto vai sacrificar sua mensagem FIB às exigências do realismo político. Mas mesmo que ela sacrifique muito e faça alianças estranhas, já cumpriu sua missão revelando que existe a aspiração e, portanto, uma nova perspectiva política. Eis o que importa e que não mantém uma relação direta com a candidatura de Marina Silva: que passemos sempre mais – na nossa vida cotidiana – do paradigma ‘ter’ para o paradigma ‘ser’, que combatamos o consumismo em casa, gastemos somente o necessário e cuidemos da vida, por frágil e inexpressiva que pareça ser. Só esse comportamento concreto pode resultar, a médio e longo prazo, na felicidade de todos e todas. A política é um jogo e qualquer jogo tem regras. Marina dita novas regras ao colocar a felicidade humana em primeiro lugar na escala de valores, não o poder nem o dinheiro. No momento, ela é o melhor antídoto contra a onda de fascismo que está tomando conta de importantes segmentos da vida política. Em resumo, o voto a favor de Marina não é um voto perdido, pelo contrário, é a clara demonstração de que existe um segmento da sociedade brasileira que já não se satisfaz com a política de Lula, claramente centrada na idéia do PIB. Afinal, para resumir, trata-se de saber se o Brasil é capaz, a médio e longo prazo, de substituir o PIB pela FIB.

* Este artigo não reflete a opinião da Associação Rumos nem de seus membros, sendo publicado aqui a pedido do autor, dado o caráter democrático da Associação Rumos.

Uma resposta

  1. É graça vinda do alto sim , pois é uma escolha de vida, se é escolha não é imposição…
    Todo homem que entra no seminário sabe que não poderá contrair o sacramento do matrimônio … então porque fazer a escolha errada.

    Será que em aproximadamente dez anos de formação o cara não descobriu ainda se quer mesmo ser padre.

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