No dia 16 de junho de 1992, pelas 4:00 da madrugada, o telefone tocou em meu apartamento em Brasília. Do outro lado da linha, uma voz conhecida de mulher me comunicava que tinha acabado de falecer o sacerdote casado Pedro Paulo Luz da Cunha. Dezenove anos são passados, e Pedro Luz é uma chama viva na memória dos amigos de primeira hora.
Pedro Paulo Luz da Cunha nasceu em Martins, RN, em 1917. Em 1939, com 21 anos, quando ainda era diácono, pediu a dispensa do celibato. Mesmo tendo pedido dispensa, não se sabe por qual carga d’água, foi ordenado sacerdote, em 1940. O bispo que o ordenou foi repreendido por Roma, tendo em vista que estava em andamento o processo de dispensa .
Começara o longo calvário de Pedro Luz. Vivia jogado de um lado para outro. Bispos não lhe davam administração de paróquias. Não tendo vez nenhuma na jurisdição eclesiástica da arquidiocese de Natal, foi dar com os costados na diocese de Cajazeiras, na Paraíba. Foi-lhe confiada apenas uma capela na corruptela de Curemas.
Não tendo como ganhar um tostão de salário, deixou Curemas e foi trabalhar como capelão na base aérea de Natal, onde permaneceu por três anos e meio. O bispo castrense D. Jaime Câmara, depois cardeal do Rio de Janeiro, tentou por todos os meios impedir o exercício de seu ministério entre os militares. Não conseguiu.
Antes da dispensa, Pedro teve filhos com Lígia, sua esposa. Naquele tempo, padre que deixasse a batina e se casasse era excomungado. Em 1955, Pedro endereçou o pedido de dispensa ao papa Pio XII. O documento foi entregue em mãos por seu amigo D. Eliseu. Antes fora ele arguido durante 7 horas por um tribunal eclesiástico no Brasil. Pio XII faleceu, e a licença só foi dada por João XXIII em 1959, chegando às mãos do Pedro em 1960.
Na década de 50-60, era arcebispo de Natal, dom Marcolino, deficiente visual (cego) e também privado de visão interior, pois perseguiu Pedro Luz quanto pôde. Também foi perseguido, como todos os padres que ousavam deixar o exercício do ministério, por dom Eugênio Sales, figura emblemática de Inquisidor. Esse senhor ainda tinha o descaramento de pretender dar lições de caridade e amor evangélico, ao escrever em jornais e falar na televisão, sempre com sua postura emperdigada.
Em Natal, Pedro Luz foi proibido de entrar nas Igrejas, porque era excomungado. Assistia à missa do lado de fora, do outro lado da rua. Dificílima a vida na capital potiguar, deslocou-se para Goiânia, onde pontificava dom Fernandes Gomes dos Santos, do qual Pedro tinha sido coadjutor na Paraíba. Dom Fernando negou-lhe qualquer ajuda. Pedro dizia que os bispos queriam matá-lo de fome. Sem emprego, sem casa, com a esposa, Ligia, e dois filhos, em Goiânia passou os dois anos mais difíceis de sua vida.
Em 1962, Pedro veio com sua família para Brasília, onde conseguiu emprego no Tribunal de Justiça do Distrito Federal, como auxiliar jurídico. As condições financeiras melhoraram. Como jornalista, escrevia semanalmente no Correio Braziliense sobre temas do Tribunal. Adquiriu um modesto apartamento. Fez os cinco filhos estudarem. Em toda a sua vida, Lígia foi uma mulher gigante, admirável. Seu casamento com Pedro foi construído sobre uma rocha inabalável: o amor e a fé.
Iniciador de um Movimento Christi amor
Pedro fez um juramento de ajudar todo padre casado que lhe pedisse ajuda. A centenas deles, Pedro estendeu sua mão generosa. Num só dia conseguiu empregar dez no Ministério da Educação, cujo ministro era seu amigo. Este desejo do Pedro era muito forte, a ponto de levá-lo a dar início nos anos 70, com alguns companheiros, o Movimento de padres casados, denominado “Christi amor”. A reunião de lançamento foi numa chácara, perto de Brasília, ao ar livre. Estavam presentes pouco mais de 20 companheiros. O ilustre Professor Nonato Silva apresenta detalhes daqueles inícios, citando nomes dos presentes. Programou-se o lançamento com a concelebração de uma missa. Foi convidado, como celebrante-presidente o Frei capuchinho Luiz Pereira dos Santos, muito amigo de Pedro. Era uma Quinta-feira Santa, dia em que se comemora no calendário litúrgico a instituição do sacerdócio. Quando estávamos todos reunidos, aparece a turma do Fantástico, da Rede Globo, para fazer a cobertura e lançar ao ar no domingo de Páscoa. Fui entrevistado e dei o meu recado, embora soubesse que minha cabeça iria rolar na guilhotina.
Naqueles idos o assunto padres casados era tabu, com proibição rigorosa de não se tratar dele. Na segunda-feira de Páscoa, Christi Amor foi o assunto de todos os noticiários e jornais do Brasil. A Revista Manchete, de grande circulação em todos os estados, trouxe longa reportagem. No mesmo dia, o arcebispo de Brasília chamou meu provincial e pediu minha retirada da sua circunscrição eclesiástica. E lá vou eu com mala e cuia.
Com o lançamento do Christi amor, o movimento evoluiu para constituição de uma Associação que passou a ser denominada Rumos , com Estatutos (NONATO SILVA, ibidem). Como sociedade civil , a Associação Rumos foi fundada em 16 de agosto de 1986. Para isto muito batalharam Felisberto de Almeida e João Basílio Schmit.
Não posso deixar de mencionar esses batalhadores de primeira hora, em Brasília: Pedro Luz, Raimundo Nonato da Silva, Antonio Edvar e Lena, o juiz de direito José Ribeiro Leitão, Uberto Braggaglia, Vicente Jaci, João Lemos, Felisberto de Almeida e Zilma, João Schmit e Vera, Pedro Lima e Isabel, Geraldo Lopes e Leisa, Fernando Spagnolo e Telma, Luís e Irene Cacais, Jorge Ponciano e Ziulma, Renzo e Lusimar Dini, Marinus e Maria de Lourdes Menen, Helmuth e Iraci Sparrenberger e tantos outros que no momento não me vêm à memória.
Os colegas de Brasília resolveram agraciar o Pedro Luz com o título honorífico de Patriarca. Muito merecido. Eu era recém-ordenado (1969), quando conheci o Pedro. Todos os dias ele concelebrava comigo. Fui seu confessor, enquanto estive em Brasília. Nunca deixou o hábito da confissão semanal. Todos os dias, ás 18:00, rezava o terço com sua Lígia. Brincando, dizia-lhe: “Desse jeito você quer ser canonizado!” E ele retrucava: “vou entrar no céu nem que seja pelas portas do fundo…”
Pedro foi um sacerdote simples, humilde, de trato fácil, brincalhão. Um sacerdote à moda antiga, é verdade. Mesmo com todas as brigas, em campo aberto, com alguns hierarcas da Igreja, era um homem de fé, de oração e de uma espiritualidade sacerdotal curtida na união com sua esposa e filhos.
Acalento o sonho de vê-lo reconhecido um dia como o Patriarca ou, se quiserem, o Patrono dos Padres casados do Brasil. Para isto não precisa de aprovação do Vaticano e nem da CNBB. Também nenhum bispo deveria ser consultado. Tal proclamação deveria ser um ato soberano do corpo eclesial dos padres casados de todo Brasil.
Hoje o Movimento de Padres Casados e suas Famílias, inegavelmente, tem alguma ligação, nem que seja longínqua, com o Movimento Christi Amor e a Associação Rumos. Cabe a outros se manifestarem.
Luiz Pereira dos Santos
luiz.pesquisador@terra.com.br
fontes:
Ver entrevista completa com Pedro Luz, RUMOS, Jornal Semestral da Associação Rumos, ano X, agosto 1991, n. 72, p.5.
Sobre a figura de Lígia Luz Cunha, ver RUMOS, Jornal Bimestral da Associação Rumos, ano VII, maio/jun. 1988, p. 5.
NONATO SILVA, Ver jornal RUMOS, Jornal Bimestral da Associação Rumos, ano X, agosto . 1991, caderno 2, p. 2. Professor Nonato Silva, outro Patriarca dos padres casados de Brasília. Com mais de noventa anos, em plena atividade intelectual, é figura de destaque em Brasília. Respeitadíssimo por todos que o conhecem, é um homem de vida ilibada e de integridade moral a toda prova.
O nome foi sugestão do companheiro José Luiz, do Rio Grande do Norte, falecido em Natal em 1992. Ver RUMOS, Jornal Bimestral da Associação Rumos, ano XI, jan./1992, p.6.
Ver RUMOS, Jornal Bimestral da Associação Rumos, ano 5, set./out. 1986, p. 1-3.
Respostas de 3
Luiz,
Acabo de ler o artigo que você, em boa hora e com plena justiça, escreveu sobre o Pedro Luz. Estou-lhe muito grato. Que lição de vida! Eu admirei sempre nele a sua fé, seu jeito de acolher e a sua firmeza.
Ao ler o artigo, encontrei-me de novo com uma questão que várias vezes tentei resolver e nunca consegui. Refere-se ao início do nosso Movimento. Já ouvi colegas de São Paulo a defenderem que foi lá que ele teve começo. O primeiro Boletim do MPC, datado de novembro de 1981, diz, no Editorial, que o Movimento “Começou com uma simples troca de idéias, há mais de quatro anos, em Salvador, BA”. Ora, para mim, o começo foi a Associação “Christi Amor” de Brasília, de que tive notícia pouco depois de chegar ao Brasil e Brasília, em julho de 1974. Terá sido essa a primeira tentativa. Acho que, em honra da verdade, se deveria pôr as datas em claro, para atribuir a quem direito – eu penso que ao Pedro Luz e companheiros – o arranque do nosso Movimento.
Guerreiro
BOA TARDE.
SAUDAÇÕES FRATERNAS.
FAZENDO UMA PESQUISA SOBRE O PRIMEIRO PADRE DE MINHA CIDADE DEPAREI-ME COM O SEU ARTIGO.
MUITO PROVEITOSO. GOSTARIA DE SABER MAIS DADOS BIOGRAFICOS SOBRE O EX PADRE PEDRO PAULO LUZ.
COMO POSSO ENTRAR EM CONTATO COM ALGUMA PARENTE, DIGO FILHO OU FILHA.
MUITO GRATO.
EDVALDO BRILHANTE DA SILVA FILHO.
PSIQUIATRA – JOÃO PESSOA-PB.
Essa discussão está interessante. E merece ser aprofundada por nossos pesquisadores, arquivistas e historiadores.
O MFPC já merece que alguém de debruce sobre os documentos existentes, basicamente as Atas dos Encontros Nacionais e Locais, as edições antigas do Jornal Rumos, Sinal(CE), Pontapé PB), Sal Terrae (RN) e os boletins nacionais e locais.
Também valeria a pena, e, a meu ver, é urgente, buscar e entrevistar nossos Patriarcas, Fundadores e Co-fundadores. Antes que seja tarde.
Apoio plenamente a sugestão de Luís Pereira dos Santos, bom pesquisador, de proclamarmos Pedro Paulo Luz Cunha como nosso Patrono e Patriarca.
Pessoalmente, pelo acesso que tive aos documentos, estou mais propenso a estabelecer o início do MFPC com o grupo de Brasília Christi Amor, em data para mim ainda não certa, entre 1970 e 1974.
O Encontro informal de padres casados em Salvador, por volta de 1977, pelos vistos, foi uma outra iniciativa válida, mas sem conexão causal com a de Brasília realizada pelo menos 4 anos antes. Mas ligado já ao 1° Encontro Nacional em Nova Iguaçu.
Uma leitura do Boletim n° 1, me induz a acreditar que o Primeiro Encontro Nacional do MFPC, desconhecia ainda o grupo Christi Amor de Brasília, já bastante consistente e que foi notícia na mídia nacional.