por Paulo Kliass– 22/06/2021
Privatização da estatal não gerará receitas ao país, como alega Guedes.
Será vendida por valor abaixo do mercado, dada a crise — e aumentará o uso de energias poluentes e o risco de apagões. Objetivo é inequívoco: a rapinagem do patrimônio público
O processo de privatização da Eletrobrás evidencia, de forma trágica e cristalina, a irresponsabilidade criminosa através da qual a maior parte das elites brasileiras se relacionam com o patrimônio público e com o seu próprio país.
Trata-se de mais um episódio de rapinagem sobre o Estado, nessa tentativa repetitiva de promover acumulação de capital e aumento de riqueza privada por meio de apropriação facilitada das empresas estatais.
Esse movimento
- tem início, de fato, ainda na longínqua década de 1980 e foi reforçado com o simbolismo trazido pelo governo Collor, a partir de 1990.
- Não por acaso boa parte do mundo estava sendo bombardeado pelas ideias hiperconservadoras do neoliberalismo, que preconizava a redução maximalista da dimensão do setor público nos Estados nacionais.
Dentre os itens mais apreciados no extenso cardápio apresentado pelo chamado Consenso de Washington como recomendação aos governos,
- a privatização chamava a atenção pela recorrência da presença
- e pela magnitude dos negócios envolvidos.
Ocorre que a crise econômico-financeira de 2008/9 recolocou as ideias liberalóides em seu devido lugar.
- Os governos dos principais países capitalista abandonaram os pressupostos da cartilha neoliberal
- e passaram a adotar como elementos de política econômica tudo aquilo que o FMI, o Banco Mundial e demais organizações multilaterais haviam condenado ao longo de décadas.
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Para evitar que os efeitos daquele momento de grandes dificuldades em âmbito global comprometessem mais gravemente suas economias, a União Europeia, os Estados Unidos e os demais países ricos recorreram ao retorno do Estado como agente econômico para superar a crise.
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Privatização não é solução
Logo em seguida,
- a emergência da crise do covid-19 escancarou a impossibilidade de que apenas as chamadas “soluções de mercado”
- fossem por si só suficientes para resolver os problemas sanitários, sociais e econômicos que afetaram o mundo inteiro.
Assim,
- a partir de 2020, o paradigma do neoliberalismo é mais uma vez abandonado
- e o retorno da presença do Estado na economia é visto com ar de naturalidade por aqueles agentes e setores que propunham sua extinção até bem pouco tempo atrás.
Antigas heresias como
- “elevação do gasto público”,
- aplicação de “política industrial”,
- utilização da presença de “empresas estatais”, dentre outras,
passam a frequentar – de forma positiva – os discursos das personalidades políticas e as páginas e as telas da grande imprensa.
Mas no Brasil, as classes dominantes preferem se manter arraigadas ao negacionismo e ao terraplanismo, também no domínio da teoria econômica e das políticas públicas.
- O ajuste fiscal de natureza austericída segue como se nada houvesse mudado na prática e no discurso dos países centrais.
- Com Paulo Guedes no comando da economia, o liberalismo abandonado lá fora segue ovacionado e idolatrado aqui dentro.
- Dentre as propostas do superministro, sempre ganhou destaque a venda das empresas estatais.
Pois agora o Congresso Nacional parece ter se rendido aos desejos do banqueiro com caneta ministerial, acelerando os trâmites com vistas a facilitar as negociatas com o patrimônio histórico das grandes e simbólicas empresas do governo federal. A bola da vez foi a Eletrobrás. O processo de tramitação da Medida Provisória (MP) 1.031/21 foi marcado por uma série de atropelos e aberrações. Para além da autorização para venda da “holding” estatal federal do setor elétrico e de todas as suas subsidiárias, o poder concedido aos integrantes do Centrão no interior do legislativo terminou por incluir uma quantidade enorme de itens estranhos os projeto original, os chamados “jabutis”.
Bons negócios para o capital e miséria para o povo
Como é amplamente sabido, a prática do fisiologismo ultrapassa a mera exigência de verbas e cargos do governo de plantão.
- Para além da chantagem explícita exercida sobre o chefe de governo para aprovar as medidas de seu interesse,
- esses parlamentares se utilizam da sua condição de poder sobre determinados itens da pauta para negociar interesses.
- No caso, foram os “lobbies” de setores privados que viam na MP a oportunidade de turbinarem seus negócios.
Assim, por exemplo,
- foram incluídos dispositivos obrigando o governo a recorrer aos setores de gás, carvão e demais matérias-primas utilizadas para geração de eletricidade pelas usinas termelétricas.
- Essa conta vai cair no colo das contas públicas e no bolso do consumidor.
Por outro lado, é inegável que a recessão atual representa o pior momento para a venda de ativos econômicos, sejam eles físicos ou financeiros.
A depressão nos mercados via de regra rebaixa os preços dos patrimônios em negociação.
- Assim, caso insista mesmo na privatização da Eletrobrás,
- o governo Bolsonaro vai abrir mão de empresas federais a preços bastante reduzidos,
- o que significa um péssimo negócio para o setor público e um ótimo arranjo para o capital privado.
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Isso significa que nem mesmo o surrado e falacioso argumento da necessidade de recursos para ajudar a resolver a questão fiscal sobrevive ao debate. Aliás, todos os processos privatizantes anteriores nunca solucionaram a entrada de recursos nos cofres públicos quando da transferência das empresas para o setor privado.
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- O capital decide investir em um setor ou uma empresa apenas com o objetivo de maximizar sua rentabilidade e aumentar seu patrimônio.
- Não há nenhuma preocupação com os aspectos sociais ou com o futuro do país envolvida na matéria.
Isso significa que a tendência é de se verificar
- um aumento nas tarifas cobradas pelos serviços oferecidos
- e uma redução nas despesas da empresa vendida,
- afetando diretamente as contas de investimento, de recursos humanos e a qualidade daquilo que é ofertado à população.
Já que a história nos mostra que sempre foi assim nas áreas de telecomunicações, energia elétrica, saneamento, transportes e outros, não há razão alguma para duvidarmos a respeito do futuro das empresas do grupo Eletrobrás.
O quadro fica ainda mais aterrorizador se juntarmos algumas pinceladas envolvendo a crise energética na qual estamos adentrando no momento.
- A irresponsabilidade com que os investimentos no setor foram tratados nos anos da austeridade fiscal a ferro e fogo
- terminaram por comprometer de forma drástica a capacidade de geração e transmissão da energia elétrica em todo o território nacional.
É preciso lembrar que essa mesma política econômica do austericídio, em vigor desde 2015, debilitou de forma severa o parque energético brasileiro.
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Quase nada foi feito para viabilizar sua expansão e mesmo sua manutenção. Assim, qualquer movimento de retomada da atividade econômica de forma mais sustentada deverá expor a nu as debilidades do sistema e sua incapacidade de atender à demanda crescente.
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Energia elétrica exige maior presença do Estado
- Os riscos de atingir tal limite de oferta no curto prazo
- foram multiplicados pela emergência da crise hídrica atual e as dificuldades iminentes em manter um nível mínimo de geração e transmissão de energia elétrica para todo o país.
- O fantasma do apagão já nos sobrevoa.
Ora, esse é o tipo de circunstância onde o setor privado é o pior agente para tomar decisões e implementar medidas corretivas. A busca do maior lucro no menor prazo possível deixa para segundo plano o atendimento das necessidades da maioria da população e das próprias empresas demandantes de eletricidade.
Assim, a privatização da Eletrobrás nesse momento rima também com destruição da capacidade instalada do sistema.
A reconstrução de um projeto nacional e integrado de energia elétrica contemporâneo desse início do século XXI não se viabiliza sem participação direta do Estado nos investimentos e na condução das empresas responsáveis por geração e transmissão.
PAULO KLIASS
Fonte: https://outraspalavras.net/direita-assanhada/eletrobras-negociata-e-destruicao/

