Küng: um estímulo e uma inspiração para nós

Em meados de dezembro passado, o Movimento “Nós somos Igreja” distribuiu um comunicado à Imprensa, lembrando a revogação do direito de lecionar Teologia, imposta há trinta anos pelo Vaticano ao teólogo suíço Hans Küng. Foi em 18 de dezembro de 1979. Eis o comunicado: “No dia 18 de dezembro de 2009, faz 30 anos que o Papa João Paulo II revogou o direito de lecionar Teologia (missio canonica) do Prof. Dr. Hans Küng, devido às propostas por ele apresentadas para a reforma da Igreja Católica. No seu livro intitulado “Unfehlbar? Eine Anfrage” (Infalível? Uma Interrogação), publicado em 1970, a seguir ao Concílio Vaticano II (1962-1965), mas também inspirado pela encíclica Humanae Vitae de 25 de julho de 1968, Küng levantou a questão de o ministério papal ser realmente infalível. Foi assim que Küng, como nenhum outro no nosso tempo, suscitou o problema da verdade na Cristandade, mantendo-o aceso até hoje. O mundialmente famoso teólogo suíço, nomeado consultor oficial do Concílio Vaticano II pelo Papa João XXIII, contribuiu decisivamente para uma teologia ecumênica, não obstante a sua posterior marginalização por parte da Igreja. A sua tese de doutorado, “Rechtfertigung” (Justificação), sobre o teólogo suíço protestante Karl Barth, concluída em 1957, foi, ao tempo, elogiada por Joseph Ratzinger, docente e colega de Küng na Universidade de Tübingen, Alemanha, até 1968. Küng contribuiu largamente para o acordo alcançado em 1999 entre a Igreja Católica e a Igreja Luterana, relativo à declaração sobre a Doutrina da Justificação. O seu “Projekt Weltethos” (Projeto de Consciência Ética Universal) (www.weltethos.org) teve início em 1990 e transformou-se num significativo estímulo ao diálogo inter-religioso, hoje mais necessário do que nunca, devido aos nossos problemas globais. A 6 de outubro de 2009, ele proclamou, perante a ONU, a sua “Erklärung zu einem Globalen Wirtschaftsethos” (Declaração para uma Ética Empresarial Global). Após lhe retirarem o direito de ensinar Teologia, Küng não se retratou das suas bem fundamentadas afirmações teológicas sobre o controverso dogma da infalibilidade de 1870. Demonstrou assim que somos chamados não a obedecer mas a resistir às usurpações por parte de Roma. Em 1979, foi nomeado para a cátedra de Teologia Ecumênica, criada para ele fora da Faculdade Católica; ocupou-a até 1997.

Artigo: A política do papa para os anglicanos é uma verdadeira tragédia!

Por Hans Küng Fonte: LE MONDE | 28.10.09 | 13h55 • Atualizado em 28.10.09 | 13h56 Um verdadeiro drama: depois de ter afrontado os judeus, os muçulmanos, os protestantes e os católicos reformistas, agora a Papa Bento XVI afronta os anglicanos. Com 77 milhões de membros, a comunidade cristã é o terceiro maior depois de a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa. O que aconteceu? Depois de ter reintegrado discípulos da Fraternidade São Pio X, o Papa irá preencher as fileiras depauperadas da Igreja Católica Romana recrutando os anglicana favorável a Roma. Eles deveriam poder passar para a Igreja Católica Romana com mais facilidade. Os sacerdotes e bispos anglicanos manteriam o seu estatuto, mesmo que sejam casados. Hipertradicionalistas de todos os países, uni-vos – sob a cúpula de São Pedro! O pescador de homens vai lançar suas sua redes rumo à extrema-direita. O problema é que por lá as águas andam agitadas.