Mia Couto: “Doeu ver como África e Moçambique ficaram tão distantes do Brasil”
O escritor moçambicano conversa com o EL PAÍS sobre escrita, política e o ciclone Idai, que quase destruiu sua cidade natal e demorou a ser notado pelos brasileiros Antes de aprender a ler livros, Mia Couto (Beira, Moçambique, 1955) aprendeu a ler a terra. A grande diversão de seu pai, um poeta que teve que exilar-se de Portugal devido a perseguições políticas, era passear com os filhos ao longo da linha do trem para buscar pequenas pedras brilhantes no meio da poeira. “Ele ensinou-nos a olhar para as coisas que pareciam sem valor. E, sem nunca nos obrigar a ler, ensinou-nos a ler a vida”, conta António Emílio Leite Couto —Mia é um pseudônimo— em uma sala de reunião de um arranha-céu de São Paulo. Com uma camiseta azul (um tanto amassada) da mesma tonalidade de seus olhos e uma calça jeans, o escritor parece haver caído de repente no espaço onde, no recinto ao lado, homens e mulheres em blazers e paletós discutem negócios. Por vezes, as vozes do grupo elevam-se, ainda que sutilmente, mas o suficiente para contrastar com o tom monocórdio e pausado do escritor moçambicano, que, em sua fala tranquila, constrói elucubrações literárias e metáforas a cada segundo.
Sentimentos fraternos estão na UTI psiquiátrica
O mito da mãe perfeita tem origem no romance pedagógico Emílio ou Da Educação, escrito pelo filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau. Essa obra, publicada em 1762, serviu, segundo a psicóloga Denise Regina Quaresma da Silva, “de ponto de partida para as teorias de todos os grandes educadores dos séculos XIX e XX, pois sua difusão e aceitação provocaram uma transformação fundamental no modelo familiar, colocando o amor materno no cerne dessa instituição”. Entre as ideias defendidas por Rousseau, destaca-se a de que “somente as mães deveriam amamentar e criar seus filhos, criticando as amas de leite, que eram aceitas na época”. Na obra, explica, o filósofo “recriminava as mães que tinham outros interesses para além da maternidade. Para Rousseau, a maternidade era natural, obrigatória e instintiva, o que passou a reforçar a crença da maternidade como um atributo natural e tradicional das mulheres”.