”O declínio das vocações é a forma de Deus ‘desclericalizar’ a Igreja”.
Uma sólida e iluminada Entrevista do jesuíta norte-americano Thomas Reese. Interessante a franqueza e a frontalidade com que fala de sérios e atualíssimos problemas da Igreja: “Ratzinger era um teólogo acadêmico, mais confortável em uma biblioteca do que em uma negociação diplomática” “A nomeação de Dom Braz de Aviz (para a Congregação dos Religiosos) só pode ser uma melhoria com relação ao cardeal Rodé, que foi um desastre completo” “Quanto menos padres e religiosos houver, mais os leigos devem se lançar para fazer o trabalho da Igreja” “Depois de décadas tratando cada palavra de um Papa como escritura sagrada, é difícil para os católicos simples entenderem que algo que o Papa diz pode estar aberto ao debate” João Tavares 7/2/2011 Desclericarizar a Igreja. Empoderar, capacitar os leigos. Para o jesuíta norte-americano Thomas Reese, o declínio das vocações é um claro sinal de Deus para que isso aconteça. Segundo ele, acabou o mito de que a vocação religiosa é, de alguma forma, melhor ou mais santa. O mundo pede novas respostas por parte da Igreja. Nesta entrevista, concedida por e-mail à IHU On-Line, Reese, ex-editor da renomada revista America, dos Estados Unidos, comenta os fatos mais importantes da Igreja vividos em 2010 e que, certamente, terão desdobramentos em 2011, que será, segundo ele, um ano “mais do mesmo”. Nesse sentido, ele analisa as novas facetas que Bento XVI revelou em 2010, especialmente a partir de seu livro-entrevista Luz do Mundo, assim como a investigação a respeito das religiosas norte-americanas e a nomeação de Dom João Braz de Aviz, ex-arcebispo de Brasília, como prefeito da Congregação para os Religiosos. Por fim, pondera quanto ao futuro das congregações religiosas tradicionais, como os franciscanos e os jesuítas. Segundo o entrevistado, elas serão muito menores do que as de meados do século XX. Mas isso, por um lado, é um chamado de Deus a forçar a Igreja a empoderar os leigos, a “desclericalizar” a Igreja. “Quanto menos padres e religiosos houver, mais os leigos devem se lançar para fazer o trabalho da Igreja”, afirma Por isso, as temáticas candentes do início desta década, como as questões ambientais, exigem, segundo Reese, uma “sensibilidade franciscana para com a natureza e um estilo de vida simples” e uma “espiritualidade inaciana do discernimento e de encontrar Deus em todas as coisas”. Thomas J. Reese entrou para a Companhia de Jesus em 1962, tendo sido ordenado em 1974. É membro sênior do Woodstock Theological Center, centro jesuíta independente de pesquisa teológica da Universidade de Georgetown, em Washington. É mestre em ciências políticas pela Universidade de St. Louis e em teologia pela Escola Jesuíta de Teologia de Berkeley. Possui doutorado em ciências políticas pela Universidade da Califórnia. Entre 1998 e 2005, foi o editor-chefe da revista America, a renomada revista católica dos EUA, fundada em 1909. Porém, por pressão do Vaticano, que discordava de suas decisões editoriais, principalmente com relação a temáticas como o celibato sacerdotal e a ordenação de mulheres, Reese pediu para deixar o cargo. É autor de diversos livros que examinam a política e a organização eclesial. Em português, publicou O Vaticano por Dentro: A Política e a Organização da Igreja Católica (Edusc, 1998). Confira a entrevista, que foi, originalmente, publicada em 20-01-2011. IHU On-Line – Neste início da segunda década do século XXI, como o senhor avalia os episódios ocorridos em 2010 no Vaticano? Que expectativas centrais o senhor tem para 2011? Thomas Reese – O que é surpreendente com relação às notícias que surgiram sobre o Vaticano, no ano passado, é como o Papa teólogo foi forçado a desempenhar um papel no cenário internacional. Joseph Ratzinger era um teólogo acadêmico, mais confortável em uma biblioteca e em uma sala de aula do que em uma coletiva de imprensa ou em uma negociação diplomática. No entanto, os eventos o obrigaram a assumir um papel para o qual ele nunca foi treinado. A violência contra cristãos no Oriente Médio, Ásia e África, o secularismo agressivo na Europa, os terremotos no Haiti e um colapso econômico mundial não estão na agenda normal de um teólogo, mas foram lançados sobre o Papa como o líder de 1,1 bilhão de católicos. Infelizmente, este ano provavelmente será mais do mesmo. “Ratzinger era um teólogo acadêmico, mais confortável em uma biblioteca do que em uma negociação diplomática” IHU On-Line – Em 2010, Bento XVI também publicou seu livro-entrevista Luz do Mundo. Que face de Bento XVI surge desse livro, além dos seus gestos e pronunciamentos ao longo do ano? Thomas Reese – Bento, em seu coração, é um professor. Se ele pudesse, ele iria gastar seu tempo mais escrevendo e menos em reuniões com líderes mundiais. Francamente, ele é um professor melhor do que o Papa João Paulo II, cujos escritos eram muitas vezes ininteligíveis até mesmo para os leitores instruídos. Bento XVI é mais acessível como professor quando responde a perguntas, como ele faz em seu novo livro Luz do Mundo. Ele é capaz de extrair uma riqueza de conhecimento e explicar as questões para as pessoas. Às vezes, ele também deseja falar como um simples teólogo (sujeito à correção) e não como Papa. Embora muitas pessoas achem isso refrescante, algumas autoridades do Vaticano não gostam, porque acreditam que isso reduz a mística de sua autoridade. Elas também objetam que seu livro foi publicado sem ser revisto e revisado dentro do Vaticano. Esses funcionários curiais têm razão. Depois de décadas tratando cada palavra de um Papa como escritura sagrada, é difícil para os católicos simples entenderem que algo que o Papa diz pode estar aberto ao debate. No curto prazo, isso é confuso e, no longo prazo, será saudável para a Igreja. Também é constrangedor quando as palavras do Papa não são claras, como foi com o trecho sobre os preservativos, que exigiu uma semana de esclarecimentos para explicar o que ele quis dizer. Se ele, que não é um teólogo moral, tivesse consultado teólogos morais na elaboração de seus parágrafos sobre os preservativos, essa confusão poderia ter sido evitada. Por outro
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