Da tragédia à presidência da Índia. “Um raio de esperança” chamado Murmu
Helena Tecedeiro – 22 Julho 2022 Foto: Vitória de Murmu é vista como triunfo dos povos tribais. © EPA/DIVYAKANT SOLANKI Aos 64 anos, a ex-governadora de Jarcanda é a segunda mulher presidente do país e a primeira natural de um grupo tribal. Grande favorita graças ao apoio do BJP, o partido nacionalista hindu do primeiro-ministro Narendra Modi, Droupadi Murmu foi ontem eleita presidente da Índia. Tornou-se assim na segunda mulher a ocupar este cargo essencialmente cerimonial, e a primeira pessoa natural de um grupo tribal – no seu caso os santal. “A vida de Droupadi Murmu, as suas lutas, o seu serviço precioso e o seu sucesso exemplar motiva todos os indianos”, escreveu Modi no Twitter mal se soube que a antiga governadora do estado de Jarcanda conseguira o apoio de mais de metade dos deputados ao parlamento indiano. Aos 64 anos, esta mulher cuja vida ficou marcada pela tragédia pessoal – em menos de cinco anos, entre 2009 e 2014, perdeu o filho mais novo em circunstâncias misteriosas (chegou a casa dizendo-se cansado e indo dormir, tendo sido encontrado morto na manhã seguinte), o marido, um banqueiro (de ataque cardíaco), e o filho mais velho, num acidente de automóvel – torna-se assim um “raio de esperança para os nossos cidadãos, especialmente os mais pobres, marginalizados e oprimidos”, escreveu ainda o primeiro-ministro. Nomeada para a presidência pelo BJP, que detém a maioria dos deputados, Murmu derrotou facilmente o seu principal adversário, Yashwant Sinha, ele próprio um antigo membro do partido nacionalista hindu que ocupou no passado os cargos de ministro das Finanças e dos Negócios Estrangeiros. Sinha também saudou a vitória da rival: “A Índia espera que enquanto 15.ª presidente da república, aja como a garante da Constituição, sem medos nem favorecimentos”. Quando tomar posse na segunda-feira, Murmu será a segunda mulher a chegar à presidência da Índia, depois de Pratibha Patel, que esteve no cargo entre 2007 e 2012, e sucederá a Ram Nath Kovind, o segundo membro da comunidade dalit, os chamados “intocáveis”, na base do sistema de castas indiano. Modi recebeu Murmu após a sua vitória. Nascida em 1958, numa família da tribo santal, na aldeia de Uparbeda, distrito de Mayurbhanj, estado de Orissa, a presidente eleita começou a carreira como professora, antes de enveredar pela política. Juntou-se ao BJP em 1997, tendo ocupado vários cargos no governo estadual, antes de chegar a governadora do vizinho Jarcanda. Para os apoiantes de Murmu e para o BJP de Modi, esta vitória representa um triunfo dos povos tribais e um momento de descoberta para a sua comunidade, que geralmente carece de instalações de cuidados de saúde e educação em aldeias remotas. Um dos maiores grupos tribais indianos, os santal encontram-se em vários estados de Jarcanda ao Bihar, de Orissa ao Bengala Ocidental, distribuindo-se ainda pelo norte do Bangladesh, pelo Nepal e Butão. Os santal falam santali, a mais comum das língua Munda. Segundo o linguista australiano Paul Sidwell, falantes de uma língua austro-asiática terão chegado à costa de Orissa, vindos da Indochina, há cerca de 4000 anos, tendo-se espalhado pelo sudeste asiático, misturando-se com as populações indianas locais. Hoje em dia, os santal serão entre 7,5 e dez milhões (os números variam consoante as fontes). Tradicionalmente viviam sobretudo em zonas rurais, apesar de cada vez mais se mudarem para as grandes cidades. Apesar das esperanças do governo e da nova presidente de que a sua eleição possa vir a melhorar a situação de uma comunidade muitas vezes discriminada num país onde apesar de proibido, o sistema de castas continua a moldar a sociedade, os partidos de oposição duvidam que a líder possa contribuir para fortalecer ou mudar a realidade. Mesmo sendo o papel de presidente indiano sobretudo cerimonial, pode ser importante em tempos de incerteza política, como quando o Parlamento é suspenso. . Helena Tecedeiro helena.r.tecedeiro@dn.pt Fonte:https://www.dn.pt/internacional/da-tragedia-a-presidencia-da-india-um-raio-de-esperanca-chamado-murmu-15038119.html Relacionados: Índia. Drapaudi Murmu. Mulher de minoria étnica eleita nova Presidente da Índia Guerra Na Ucrânia. Modi exibe neutralidade indiana na visita à Europa Covid-19. Índia contesta estudo da OMS que estima mais de 4 milhões de mortos no país