Quando Helder Camara capta a dor da igreja

Sonhei que o Papa enlouquecia /Ele mesmo ateava fogo  / Ao Vaticano e à Basílica de São Pedro. Loucura sagrada / porque Deus atiçava o fogo / que os bombeiros, em vão /tentavam extinguir.   Eduardo Hoornaert – 17/12/2019 Escrito no início de março de 1965, um ano depois da posse de Helder Camara como Arcebispo de Recife, esse poema sintetiza dolorosamente a impressão que ele guarda de seu primeiro ano no ofício. Por mais que Helder o puxe ou empurre, o velho portão não deixa passar os pobres. Helder, que sente paixão de ver portas e portões escancarados, mesmo assim deve respeitar o repouso do portão enferrujado, sua ferrugem, sua segunda natureza. Um portão que quase se transforma em muro, de tão desacostumado a dar passagem, que fica espantado pela chave, como se se tratasse de arma que pudesse ferir.

Quando Helder Câmara capta a dor do mundo

Chuva, dá um jeito / De abrir goteiras /Em todo o meu corpo, De gelar meus ossos, /De alagar a minha alma. Mas deixe em paz /Os mocambos de minha gente / Que precisa descansar / Da realidade triste / E esquecer no sono / A fome impertinente   Eduardo Hoornaert  10/12/2019  Nas Cartas Circulares de Helder Câmara se inserem, de modo irregular, curtos textos rimados e ritmados, em que se revela um poeta. Um poeta que se esconde por trás da imagem de um tal de ‘Padre José’, nome que parece provir do fato que a mãe de Helder pensou em chamar seu filho de José. Com o correr do tempo, o Padre José se torna a mais criativa e persistente transpersonalização de Helder Câmara, ao mesmo tempo heterônimo, interlocutor de toda hora e anjo da guarda. Ele visita Helder principalmente à noite, nas Vigílias.