ARTIGO – IGREJA DOMÉSTICA DESAFIOS DA CRIAÇÃO E MANUTENÇÃO
CONCEITO Ser uma “Igreja doméstica” refere-se a uma prática em que a família ou um grupo pequeno de pessoas se reúne para adorar a Deus, estudar as Escrituras e fortalecer a fé em casa. Esse conceito remonta ao início do cristianismo, quando os primeiros seguidores de Jesus se encontravam nas casas, pois não havia templos ou locais específicos para cultos cristãos, e essas reuniões permitiam que a fé fosse praticada e vivenciada em um ambiente íntimo e comunitário. Na prática, uma Igreja doméstica busca: 1. **Cultivar a fé em ambiente familiar**: O lar se torna um espaço de devoção onde a família participa ativamente do estudo da Bíblia, da oração e do ensino dos princípios cristãos. 2. **Fortalecer a comunhão entre os membros**: Esse modelo promove uma maior conexão entre os presentes, com discussões abertas, apoio mútuo e fortalecimento espiritual. 3. **Formação espiritual contínua**: Ser uma Igreja doméstica é um convite a transformar o lar em um espaço sagrado, onde a prática da fé acontece não só nos cultos, mas no dia a dia, por meio de conversas, oração e atitudes que refletem os valores do evangelho. 4. **Evangelização e hospitalidade**: Muitas igrejas domésticas também acolhem vizinhos, amigos e pessoas que buscam um ambiente menos formal para conhecer mais sobre a fé cristã. Em resumo, a Igreja doméstica representa o compromisso de viver a fé cristã não apenas no templo, mas em casa, tornando o lar um centro de espiritualidade, comunhão e prática do evangelho. IGREJA DOMÉSTICA NOS DOCUMENTOS DA IGREJA A expressão “Igreja Doméstica” é utilizada pela Igreja Católica para descrever a família cristã como uma comunidade de fé, esperança e caridade, refletindo a vida e a missão da Igreja no lar. Diversos documentos recentes do Magistério abordam esse conceito: 1. Catecismo da Igreja Católica (1992): O Catecismo dedica uma seção à família como “Igreja Doméstica”, enfatizando seu papel na educação da fé e na oração: “A família cristã é o primeiro lugar da educação para a oração. Fundada sobre o sacramento do matrimônio, ela é ‘a Igreja doméstica’, onde os filhos de Deus aprendem a orar ‘como Igreja’ e a perseverar na oração.” 2. Exortação Apostólica “Familiaris Consortio” (1981): O Papa João Paulo II destaca a família como uma manifestação específica da comunhão eclesial: “Uma revelação e atuação específica da comunhão eclesial é constituída pela família cristã que também, por isto, se pode e deve chamar ‘Igreja doméstica’.” “Também o Sínodo, retomando e desenvolvendo as linhas conciliares, apresentou a missão educativa da família cristã como um verdadeiro ministério, através do qual é transmitido e irradiado o Evangelho, ao ponto de a mesma vida da família se tornar itinerário de fé e, em certo modo, iniciação cristã e escola para seguir a Cristo. Na família consciente de tal dom, como escreveu Paulo VI, «todos os membros evangelizam e são evangelizados” (FAMILIARIS CONSORTIO, 39) Vaticano 3. Exortação Apostólica “Amoris Laetitia” (2016): O Papa Francisco reforça a importância da família como “Igreja Doméstica” e seu papel na transmissão da fé: “A família é chamada a ser Igreja doméstica, santuário onde a vida é gerada e cuidada, e onde se aprende a fé e a prática das virtudes.” 4. Documentos do Sínodo dos Bispos sobre a Família (2014-2015): Nos preparativos e reflexões sinodais, a família é frequentemente referida como “Igreja Doméstica”, enfatizando sua missão evangelizadora e formativa no seio da Igreja. 5. Relatório do Sínodo dos Bispos (2023) – Intitulado ‘Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão’, destaca: “A família é o primeiro lugar onde os fiéis experimentam a comunhão e a participação na vida da Igreja.’ Ressalta a importância da formação espiritual e pastoral das famílias como protagonistas na missão evangelizadora. Esses documentos sublinham a centralidade da família na vida cristã, reconhecendo-a como o primeiro espaço onde a fé é vivida e transmitida, e onde os valores cristãos são cultivados e compartilhados. IGREJA DOMÉSTICA NA BÍBLIA A ideia de Igreja Doméstica não aparece explicitamente com essa terminologia na Bíblia, mas a base para o conceito está presente em várias passagens que mostram o papel central da família e das casas como lugares de vivência e partilha da fé. Aqui estão algumas referências bíblicas que fundamentam essa ideia: 1. Casas como locais de reunião e culto Atos 2:46 – “Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam o pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração.” As primeiras comunidades cristãs frequentemente se reuniam em casas para celebrar a fé, partilhar refeições e viver em comunhão. Atos 12:12 – “Quando isso ficou claro para ele, foi à casa de Maria, mãe de João, também chamado Marcos, onde muitas pessoas estavam reunidas e oravam.” A casa de Maria é mencionada como um lugar de oração e encontro comunitário. 2. A Igreja nas casas de fiéis Romanos 16:3-5 – “Saudai Priscila e Áquila, meus cooperadores em Cristo Jesus (…). Saudai também a igreja que está na casa deles.” Paulo reconhece a casa de Priscila e Áquila como um local onde a comunidade cristã se reunia. 1 Coríntios 16:19 – “As igrejas da Ásia vos saúdam. Áquila e Priscila, com a igreja que está na casa deles, vos saúdam calorosamente no Senhor.” Mais uma referência a uma igreja doméstica liderada por Áquila e Priscila. Colossenses 4:15 – “Saudai os irmãos que estão em Laodiceia, bem como Ninfa e a igreja que está em sua casa.” Aqui também é mencionado que a comunidade se reunia em uma casa específica. Filemom 1:2 – “E à igreja que está em tua casa.” O apóstolo Paulo saúda a igreja que se reunia na casa de Filemom, evidenciando que as famílias eram centros de vivência comunitária da fé. 3. Famílias como transmissores da fé Josué 24:15 – “Eu e a minha casa serviremos ao Senhor.” Josué declara a centralidade da fé no ambiente familiar. 2 Timóteo 1:5 – “Recordo-me da tua fé não fingida, que habitou primeiro em tua avó Loide e em tua mãe Eunice, e estou certo de que também habita
ARTIGO – RELATIVIZAR O QUE É RELATIVO
A Igreja Católica tem sérias dificuldades para se adaptar aos tempos e isso não é novidade para ninguém. Carregando nas costas uma história de vinte séculos, essa instituição que preserva uma comunidade com uma missão, passou por realidades e tempos que sequer conseguimos imaginar. No entanto, o desafio parece aumentar nos últimos decênios, pois a velocidade com a qual as mudanças acontecem é algo que a Igreja nunca enfrentou. Em um momento em que o Papa pede uma conversão sinodal de toda a instituição e de seus mecanismos caducos, uma questão precisa ser enfrentada com seriedade e realismo: a crise nas vocações. Poucas são as igrejas particulares (dioceses) que possuem abundância de vocações. Realidades como partes da África e da Ásia ainda estão bem nutridas de vocações, mas não se pode dizer o mesmo da velha Europa, nem da América Latina. Uma parte considerável da vida religiosa parece estar entrando no ocaso de sua existência. Comunidades formadas por idosas e idosos. Imensos seminários e conventos vazios. Províncias se fundindo para que as forças que restam possam dar conta das estruturas que foram sendo construídas ao longo de seculares histórias. A vida consagrada feminina sangra ainda mais que a masculina, pois a mulher nunca teve um lugar preciso na estrutura da Igreja. O grande jardim da Igreja está em pleno inverno! Contudo, as dioceses e seus padres também começam a sentir o peso de um mundo que caminha sem olhar para trás. Dioceses europeias, outrora imensas exportadoras de missionários pelo mundo, estão com um clero envelhecido e com paróquias vacantes. O Brasil já começa a sentir a força desse mesmo processo. Em primeira pessoa falo pela diocese de onde sou oriundo. No passado chegamos a ter tantas vocações à vida presbiteral que chegamos a oferecer seminaristas para outras dioceses menores. Padres foram enviados em missão por todo o país. Bispos foram ordenados para pastorear outras dioceses. Hoje parece que a fonte começou a secar. O sul do Brasil, que considerava a si mesmo como um “celeiro vocacional” sente o inverno eclesial a nível vocacional bater à porta. Explicações? Talvez tantas. Pode-se culpar a secularização? Em partes, mas não se pode dar toda a culpa a ela. Secularização em sentido positivo é colocar as esferas civil e religiosa em seus devidos lugares, sem intromissões e interdependência. Foi graças a uma salutar secularização que os fanatismos do passado deixaram de fazer vítimas. Então, como entender esse período na vida da Igreja? Bom, a sociedade atual oferece uma série de oportunidades aos jovens que antes não existiam. O acesso à educação e a uma qualificação profissional faz com que a maioria dos jovens sequer cogitem a possibilidade de pensar na vida presbiteral. As famílias cada vez menores encaminham os filhos para destinos profissionais “brilhantes”, garantindo ao fim do ensino médio o ingresso imediato na universidade. Além de que o crescimento do fundamentalismo religioso católico afasta da religião os jovens humanamente saudáveis e com cabeças arejadas intelectualmente. É uma crise. A crise, no entanto, denuncia que existe vida, como recorda o Papa Francisco. Somente um organismo vivo pode ter febre. A questão é como curar a doença. Particularmente penso que essa crise não é ruim em si mesma. Antes, pode ser um sinal claro de Deus para que a Igreja mude. A Igreja demora a relativizar estruturas históricas defasadas. Basta pensar que os seminários, tomadas as devidas proporções, permanecem como foram pensados na sua origem, no Concílio de Trento (1545-1563). Retirar os jovens do convívio familiar e comunitário e os manter por anos dentro da estrutura de seminários, provavelmente é uma maneira de formação destinada a cair por terra. A ideia do presbítero como um profissional do sagrado, dedicado integralmente à Igreja, também pode ser algo assustador para as novas gerações. A obrigatoriedade do celibato e a impossibilidade de homens casados terem acesso à ordem presbiteral é outro sério empecilho a ser estudado. O peso administrativo e decisório que se deposita nas mãos dos padres também é parte de um passado muito mais ligado a Constantino e aos velhos feudos que ao Evangelho de Jesus. E tudo isso é relativizável! Tenho esperanças que a Igreja enfrente a crise de forma adulta, abandonando o que é caduco e se deixando conduzir pelos caminhos que o Espírito sugere. É possível que eu não veja as mudanças necessárias que trarão a primavera a esse imenso jardim. Porém, sei que elas virão, cedo ou tarde. Pe. Leonardo Lucian Dall’Osto
ARTIGO – DESAFIOS ÀS FORÇAS PROGRESSISTAS EM 2025
Meu primeiro impulso foi intitular este texto de “desafios à esquerda”. Logo me dei conta de que, hoje em dia, resta pouco do que considero esquerda que se empenha na superação do sistema capitalista. Adoto “forças progressistas” porque a expressão inclui antibolsonaristas, apoiadores do atual governo Lula, os que se empenham para manter e ampliar a democracia formal, malgrado seu paradoxo de socializar a esfera política (sufrágio universal) e privatizar a econômica, excluindo a maioria da população brasileira de condições dignas de existência (moradia, saúde, educação, cultura, oportunidades de trabalho, que resulta em redução significativa do desemprego etc.). Abordo em seguida desafios que considero prioritários. A comunicação do governo Embora haja grandes feitos em apenas dois anos de governo Lula, após quatro de desmontes promovidos pelo governo Bolsonaro, poucos sabem que, em 2023, a economia brasileira cresceu 2,9% (alcançou R$ 10,9 trilhões), e em 2024, 3,5%; a renda dos trabalhadores aumentou 12% e consequentemente também o consumo das famílias; o programa Bolsa Família passou a atender 21,1 milhões de famílias (1 milhão a mais que em 2022); recuperação do salário mínimo acima da inflação (embora o ajuste fiscal tenha limitado o crescimento real a 2,5%. Em 2025 deveria ser de R$ 1.528 e passa a R$ 1.518); reestruturação do IBAMA e da FUNAI; o novo programa Pé de Meia (que beneficia 3,9 milhões de estudantes do ensino médio); a instalação de mais de 100 unidades dos Institutos Federais; o programa Mais Médicos, que atende populações mais vulneráveis, conta, atualmente, com quase 25 mil médicos contratados pelo governo federal; e o protagonismo do Brasil no cenário internacional (Brics, G20, COP30 etc.). Haveria muito mais a destacar. Apesar de tantos avanços, o governo falha na comunicação. Até agora não soube montar uma trincheira digital capaz de superar a influência da extrema-direita nas redes. Pesquisas indicam que 76% dos brasileiros se informam por redes digitais e sites de notícias. A guerra digital exige um número expressivo de profissionais dedicados à comunicação digital, com a possibilidade de formar grandes influenciadores. O fenômeno eleitoral Pablo Marçal, que não dispunha sequer de um minuto de propaganda na TV, deveria servir para alertar sobre a importância dessa ofensiva. A batalha ideológica Outro fator que julgo importante para que as forças progressistas não venham a ser derrotadas pelos neofascistas na eleição presidencial de 2026 é a batalha ideológica. Convém lembrar que o fim da ditadura militar, em 1985, não resultou de suas inerentes contradições. Pesaram sobretudo o desgaste ideológico com as frequentes denúncias de violações de direitos humanos, o testemunho de ex-presos políticos e de familiares de mortos e desaparecidos, a pressão internacional pela redemocratização do Brasil, e as grandes mobilizações populares como a Passeata dos Cem Mil, as greves operárias do ABC paulista e as concentrações pelas Diretas Já! Hoje, a esquerda se encontra órfã de referências ideológicas. Elas se multiplicavam antes da queda do Muro de Berlim (1989). Países socialistas serviam de parâmetros às utopias libertárias. O estudo do marxismo e a sua aplicação nas análises da realidade vigoravam. Havia uma militância aguerrida que atuava voluntariamente nas campanhas eleitorais. A extrema-direita se sentia acuada e a polarização da esquerda se dava com a social-democracia. Isso acabou. Os tempos são outros. E sombrios. A direita se encontra em ascensão eleitoral no mundo. Sua máxima expressão, Donald Trump, ocupa o cargo mais poderoso do planeta. A direita passou a fazer intensa (des)educação política do povo, enquanto as forças progressistas deixaram Paulo Freire dormitar nas prateleiras. As forças progressistas perderam a capacidade de promover grandes mobilizações populares diante da falta de educação política do povo, da excessiva burocratização dos partidos progressistas, da perda de referências históricas e do esgarçamento do movimento sindical. Empreendedorismo O fenômeno do empreendedorismo não é novo. A novidade é ter se tornado um modismo para as classes populares. Vários fatores concorrem para isso: retrocessos e perda dos direitos trabalhistas, precarização das relações de trabalho, desarticulação das estruturas sindicais, supremacia da financeirização sobre a produção, esgarçamento das relações sociais provocado pelas redes digitais etc. O neoliberalismo, em sua era digital, mina as relações corporativas. A uberização das condições de trabalho e a síndrome dos influenciadores internáuticos, bem como a monetização das redes, criam a ilusão de que todos podem ascender socialmente sem muito esforço. Basta ousar ser patrão de si mesmo. É a nova versão do self-made man. * (“Este é um termo inglês que se refere a uma pessoa que alcançou o sucesso por meio de seus próprios esforços, habilidades e determinação, sem depender de ajuda externa). *nota do canal Outrora a elite era constituída pela nobreza. Na medida em que os títulos nobiliárquicos foram sendo substituídos pelos títulos da Bolsa de Valores, o sangue azul cedeu lugar aos milionários que alcançaram o topo da pirâmide social graças ao empreendedorismo. Há que acrescer a isso a despolitização da sociedade, agravada desde a queda do Muro de Berlim. Como falar de sociedade pós-capitalista se o socialismo real fracassou? Como incutir nas novas gerações a consciência crítica se o marxismo já não está em voga? Como ampliar o espectro social e eleitoral das forças progressistas se elas abandonaram o trabalho de base? São desafios que ainda não encontram respostas. E a falta de respostas acelera a ascensão da direita. Faz com que se repitam fatos surpreendentes, como a vitória de Lula sobre Bolsonaro, nas eleições de 2022, por apenas pouco mais de 2 milhões votos, em um universo de 156 milhões de eleitores. Ou a reeleição de Trump em 2024, vitorioso no colégio eleitoral e no voto popular. Hoje, o eleitor, desprovido de consciência de classe, de relações corporativas (como as sindicais) e imunizado pelos impactos da grande mídia graças às suas bolhas digitais, busca eleger quem lhe possa garantir um lugar ao sol na praia das oportunidades. Na falta de referências revolucionárias (Vietnã, Sierra Maestra, figuras como Mao Tsé-Tung e Fidel) ele vota pensando, primeiro, na prosperidade individual, e não coletiva. Os eleitores pobres manifestam seu inconformismo ao dar apoio aos que ostentam a bandeira