4. Face ao futuro, é essencial pensar.
- E voltamos à escola, que vem do grego scholê, que significa ócio, não o ócio da preguiça,
- mas tempo livre para homens e mulheres livres pensarem e governarem a pólis (daí vem política):
- a Cidade, isto é, a Casa comum da Humanidade.
Hoje o que mais falta é precisamente este ócio.
- Ora, sem ele, tudo se torna negócio (do latim nec-otium).
- A própria política tornou-se sobretudo negócio(s).
Assim, sob o império da técnica e do(s) negócio(s), não se pensa, calcula-se:
- o filósofo M. Heidegger chamou a atenção para isso:
- a técnica não pensa, calcula, o mesmo valendo para os negócios.
5 Olhando para o futuro, o que nos vincula é a esperança. Mas, mais uma vez, não há esperança autêntica sem pensamento.
- Quando olhamos para o futuro, encontramos evidentemente, motivos para imensa satisfação
- – voltando à pandemia, não temos de agradecer à ciência, pois, para dar um exemplo, nunca se tinha conseguido tão rapidamente uma vacina, e foi por causa das novas tecnologias que pudemos continuar, apesar de tudo, com mais ligação nos diversos níveis e facetas da vida? -,
- mas é preciso tomar consciência também das ameaças e dos perigos, que são gigantescos e globais.
Há problemas de tremenda complexidade, já presentes e que se agravarão.
Apenas exemplos:
- a guerra nuclear; a ecologia e as alterações climáticas;
- guerras digitais;
- as NBIC (nanotecnologias, biotecnologias, inteligência artificial, ciências cognitivas, neurociências) na sua ambiguidade,
pois há novas possibilidades mas também perigos:
frente às possibilidades do transumanismo e do pós-humanismo, é preciso reflectir sobre o que verdadeiramente queremos;
- úteros artificiais e seus problemas;
- bebés transgénicos, experiências com híbridos;
- questões relacionadas com o inverno da natalidade, nomeadamente na Europa (em Portugal, será uma catástrofe),
- os mercados globais, a injustiça estrutural global, as migrações forçadas e anárquicas,
- as lutas tecnoeconómico-políticas pela supremacia global,
- o trabalho, as drogas, a paz, os direitos humanos…
Vivemos num mundo global, estes problemas são globais e a questão é que a política é nacional, quando muito regional, com Governos que governam a curto prazo para ganhar eleições, mas estes problemas são globais e exigem uma solução a longo prazo…
Não precisamos, portanto, de erguer uma Governança global?
- Não digo Governo mundial, mas Governança global,
- já que os problemas enunciados só com decisões ético-jurídico-políticas globais poderão encontrar solução.
Neste contexto, é necessário contar com o apoio da Igreja.
A Igreja Católica
- é a única instituição verdadeiramente mundial, presente em todo o mundo e em todos os estratos sociais.
- Com a renovação em curso, segundo o Evangelho de Jesus, que implica também uma reforma radical da Cúria,
- e com uma orgânica nova de governo, a sinodal,
- pode-se e deve-se pensar e contar com o seu contributo decisivo enquanto voz político-moral tanto localmente como ao nível regional e global.
Evidentemente, por si mesma e também em ligação com as outras Igrejas cristãs e com as diferentes religiões mundiais, com as quais continuará a empenhar-se num diálogo vivo e lúcido, segundo as exigências que o diálogo autêntico exige e que não pode ser unidireccional.
E qual é o Sentido último de todos e de tudo?
Problema maior hoje: há hoje uma espécie de cansaço vital. Porque não há Sentido último. Daí, nem é no desespero que se vive, mas na inesperança.
- Só com Deus enquanto o “Futuro Absoluto”, na expressão célebre do teólogo Karl Ranher, talvez o maior teólogo católico do século XX,
- se pode erguer um futuro autenticamente humano, com Sentido final,
- pois Deus é o Futuro de todos os passados, o Futuro de todos os presentes, o Futuro de todos os futuros.
6. No fim, voltamos ao princípio, por outras palavras,
- é imprescindível voltar a cada um, a cada uma, começar por si próprio, por si própria.
- E aí está a relação de cada um, de cada uma consigo mesmo, consigo mesma.
- A Humanidade é constituída por pessoas, em ligação com tudo e com todos, mas únicas.
Cada um precisa de ter uma relação boa consigo, portanto, com o seu passado.
- Afinal, o presente já foi, no passado, um sonho de futuro(s):
- é sempre no presente que vivemos, mas relacionados com o passado.
Olhando para o passado,
- talvez não fiquemos satisfeitos, pois houve erros, disparates, sei lá!,
- e então é preciso reconciliar-se com ele para que não continue a envenenar-nos – nisto,
- o crente sabe que deve contar com Deus: Ele entende e perdoa.
No presente, é preciso pensar no futuro, já que o presente é inevitavelmente voltado para as possibilidades futuras:
- que futuro projectamos, que queremos para o futuro,
- sabendo concretamente que, pensando nele, inevitavelmente deparamos com a morte?
Colocando-me na perspectiva do fim – também a história individual só a partir do fim se pode ler toda -,
- que quero, no fim, ter feito de mim, em ligação com os outros?
- De tal modo que possa esperar, sem ilusões, que a morte não tem a última palavra.
Como disse I. Kant de forma lapidar:
“A práxis tem de ser tal que não se possa pensar que não existe um Além.”
PS: Uma arreliadora gralha no texto da semana passada fez aparecer o Big Bang há 3700 milhões de anos em vez de há 13 700 milhões de anos. Peço desculpa.
Padre e professor de Filosofia. Escreve de acordo com a antiga ortografia
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Anselmo Borges
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