
por Isis Paris Maia – 21/05/2021 – Foto: DAQUI
Enquanto o neoliberalismo avançou no Ocidente, o país apostou em políticas públicas robustas, infraestrutura e seguridade social.
Em 40 anos, retirou 850 milhões da miséria e promoveu ampla (e planejada) urbanização, sem gerar favelas…
Em 2020, a China atingiu a meta de seu 13º Plano Quinquenal (2016-2020), concluindo a retirada de cerca de 850 milhões de pessoas da pobreza em um longo processo de quatro décadas.
- Mesmo sendo a maior campanha da história humana, este feito tem sido muito pouco noticiado, o que evidencia o etnocentrismo prevalente no Ocidente.
- E isso ocorreu num contexto de predomínio global da agenda neoliberal e crescente exclusão social.
- Tal cenário tornou a China responsável pela eliminação de 70% da pobreza mundial.
Sob a direção e planejamento do PCCh, o combate à pobreza na China enfrentou sobressaltos e períodos diferenciados. Embora as origens
- remontem à promessa da revolução de 1949 de garantir “uma tigela de ferro de arroz” para cada chinês,
- o processo de produção das políticas públicas de combate à pobreza neste país foi complexo.
- Incluiu desde políticas assistenciais até, em sua última fase, políticas voltadas para aldeia e famílias específicas que por algum motivo não se encaixavam nas ações governamentais anteriores.
A historicização desse processo pode ser demonstrada em quatro estágios iniciados a partir da política de Reforma e Abertura do final da década de 1970.
- No primeiro (1978-1985), medidas de alívio da pobreza foram centradas em resolver o problema do abastecimento insuficiente de alimentos e roupas – sobretudo nas áreas rurais.
- Na segunda fase (1986-2006), a redução da pobreza voltou-se para o fornecimento de crédito para famílias pobres e construção de infraestrutura e extensão de tecnologias para o campo.
- Em um terceiro momento (2007–2012), o governo passou a enfatizar a ampliação do sistema de seguridade social.
E, por fim, desde 2013, a última fase, cujas políticas de redução da pobreza passaram a ser mais focadas, para dar conta de famílias pobres residuais.
Ou seja,
- dos 850 milhões de pessoas que saíram da linha da pobreza em 4 décadas, grande parte ocorreu entre 1990 e 2010,
- no contexto da arrancada industrial, com ênfase na modernização e desenvolvimento.
Assim, a proporção de população pobre passou, neste período, de 66,3% para 11,2% – de acordo com o Banco Mundial e a Linha Internacional de Pobreza de U$ 1,90 por dia.

China, um pais moderno e muito competitivo . Foto: Carta Capital (DAQUI)
O último Plano Quinquenal (2016-2020) partiu de 4,5% da população restante, cerca de 43 milhões de pessoas, e completou um longo esforço nacional.
Todo esse processo tem marcado a mais notável mobilidade social da história, cuja dinâmica é multifacetada.
Seu PIB em poder de paridade de compra
- foi de 304,3 bilhões de dólares em 1980, e chegou a nada menos do que 27,3 trilhões em 2019,
- enquanto seu PIB per capita (PPP) saiu de 310 dólares para 19,5 mil, no mesmo período.
Em paralelo e impulsionado pelo acelerado crescimento econômico, a China experimentou a maior urbanização que se tem notícia.
- O país tinha 189,9 milhões de cidadãos urbanos em 1978, chegando a 842,9 milhões em 2019,
- passando sua taxa de urbanização de 19,3% para 60,3%.
Em termos quantitativos, implica dizer que
- a China urbanizou 653 milhões de habitantes em 4 décadas – ou o contingente de quase 3 vezes a população brasileira.
- Esse feito inédito na história ainda se deu sem a ocorrência de caóticos processos de favelização, como tem caracterizado o restante dos países periféricos.
A modernização econômica proporcionou grandes mudanças sociais.
- O IDH da China passou de 0,410 em 1978 para 0,761 pontos em 2020,
- o que indica grandes avanços em saúde, renda e escolaridade.
Deve-se sublinhar que
- se trata do único país que mudou de categoria de baixo desenvolvimento humano
- para a categoria de alto desenvolvimento humano desde o início das análises do PNUD em 19901.
Essa mobilidade socioeconômica não tem ocorrido sem contradições.
- A rápida retirada da população da pobreza implicou no aumento das desigualdades sociais,
- fruto dos contrastes entre o nível de produtividade agrícola e a industrial e da heterogeneidade setorial do mercado de trabalho urbano,
- relacionada à segmentação entre o trabalhador com registro urbano e o migrante sem registro.
O resultado foi o Índice de Gini passar de 0,30 na década de 1980 para 0,491 em 2008.
Contudo, o aprofundamento do desenvolvimento chinês e a ampliação de políticas sociais
- têm feito a desigualdade declinar,
- de modo que o indicador já está em 0,465 em 2019.
Aqui, cabe lembrar que a trajetória chinesa não difere de outras experienciadas pelo mundo desenvolvido, posto que os períodos de arrancada industrial combinaram contradições diversas,
- incluindo crescimento das desigualdades,
- seguidas por políticas de extensão de direitos, paralelo à construção institucional.
Em suma, a China tem muitos desafios pela frente, mas é inegável que a grandiosidade da transformação em curso não corresponde à repercussão do acontecimento.
Ora, a explicação para tal feito, mais uma vez invisibilizado no Ocidente, decorre da combinação entre desenvolvimento acelerado e uma notável capacidade de planejamento sob direção do PCCh.
Ou seja, o país responsável por isto se reivindica socialista e representa o principal desafio à primazia mundial dos EUA.
1 Ver relatório do PNUD: http://hdr.undp.org/en/content/national-human-development-report-2019-china#:~:text=China’s%20Human%20Development%20Index%20(HDI,global%20HDI%20trends%20in%201990.
