As execuções sumárias, os crimes contra jovens, não são erros ou desvios de algum uniformizado, mas política de Estado e do capital.

Raúl Zibechi – 08 Mai 2021 – Foto: DW
Eis o artigo.
Uma semana de greve geral, com mobilizações que implicam insurreições, trincaram o modelo de dominação administrado pela ultradireita de ÁlvaroUribe. O saldo provisório é de cerca de
- 30 mortos pela repressão policial,
- 10 estupros,
- 1.400 casos de brutalidade policial,
- com mais de 200 feridos e cerca de 1.000 presos.
Algumas reflexões sobre este monumental e esperançoso movimento:
1. O sistema capitalista é genocida e criminoso, em particular neste momento de declínio e nos países da América Latina.
Seu caráter
- não depende do governo que administra o modelo, porque é um regime estruturalmente genocida,
- uma vez que se assenta em um modo de acumulação por espoliação e roubo
- que só pode funcionar sobre a violência, a exclusão e a marginalização das maiorias.
A brutal repressão pelo Esquadrão Móvel Antidistúrbios responde ao fato de que
- meio país, meio continente, sobra na lógica do capital
- e deve ser despachado, fechado em seus bairros/guetos ou morto, caso se atreva a protestar.
- As execuções sumárias, os crimes contra jovens, não são erros ou desvios de algum uniformizado, mas política de Estado e do capital.
“Se supostamente existem alguns atos de vandalismo, presume-se que as pessoas são capturadas e levadas a um juiz, mas o que vemos é que os manifestantes são executados diretamente”,
afirma o colombiano Richard Tamayo Nieto.
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O sistema não almeja mais integrar e nem domesticar os de baixo, por isso se dispõe a eliminaros manifestantes, aqueles que considera terroristas.
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Na medida em que a população sobrante abrange metade de nosso continente, não tem direito ao protesto, que é considerado um risco ao Estado e “as manifestações sociais devem ser abordadas militarmente”, observa Tamayo.
Como se trata de uma realidade estrutural, o governo que suceder ao de IvánDuque pode moderar a repressão, mas apenas isso.
2. É necessário nos centrar na base, uma vez que conhecemos a parte superior genocida. O mais destacável é que
- centenas de milhares de jovens desafiaram a repressão,
- o estado exceção e a criminalidade policial,
- durante sete dias (ao menos até o dia 5 de maio).
Esta é a principal mudança na Colômbia e em toda a região.
Estamos diante de uma mudança geracional que ensina modos de fazer diferentes dos anteriores. Para lutar, resistir e se rebelar contra o sistema
- não são necessárias vanguardas que, muitas vezes, se tornam obstáculos, já que pretendem dirigir, de seus escritórios,
- sem sequer perguntar ou escutar as pessoas que estão nas ruas.
Aprenderam a se cuidar nelas porque já pertenciam a grupos de afinidade, artísticos e de vizinhança nos quais se socializam.
As mulheres jovens estão na linha de frente, ao lado dos homens, impulsionando formas de protesto que não buscam o confronto, mas dizer o que acreditam e se defender coletivamente dos assassinos de uniforme.
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Esta geração sabe o que enfrenta, mas perdeu o medo e faz ressoar um grito que escutamos em todas as geografias de nosso sul: sim, é possível.
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Foto: Pr0testos populares na Colômbia / Hora do Povo
3. Não há saída deste modelo sem poderosas mobilizações da base e à esquerda. A saída é apenas com a crise política, porque aqueles que se beneficiam do extrativismo, provavelmente 30% da sociedade, vão defender seus privilégios com violência generalizada.
Mais do que uma mudança de governo, trata-se de mudar o modo de acumulação que destrói as sociedades e o meio ambiente.
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Se não frearmos este modelo especulativofinanceiro (mineração, monoculturas, grandes obras e especulação imobiliária), entraremos em um período de barbárie
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na qual dois terços da sociedade serão submetidas a campos de concentração a céu aberto, com o outro terço nos vigiando, consumindo e votando.
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4. Não caminhamos para governos melhores, mas para um tempo de ingovernabilidade, independente de quem estiver no comando, nos palácios de governo. Vença quem vencer as eleições, não haverá descanso e nem trégua. Entramos em um período caótico, no qual não há forças capazes de impor uma ordem que não seja a dos cemitérios.
Como acontece da escala global e geopolítica até o mais remoto lugar do planeta, a desordem se tornou a norma no cotidiano.
O que o EZLN [Exército Zapatista de Libertação Nacional] chama de “tormenta”provocada pela imparável vocação predadora da hidra capitalista, que desafia nossos saberes, as formas de ação e os objetivos dos movimentos antissistêmicicos consistentes na tomada do poder.
5. Nós, as e os de baixo, devemos aprender a viver e conviver com a incerteza, a violência sistêmica e as permanentes tentativas de nos fazer desaparecer. Os cuidados coletivos devem ser colocados no leme de direção, em espaços autocontrolados fora do alcance dos machos armados do capital. Esta é a forma que a autonomia adquire durante o caos sistêmico.
Raúl Zibechi
Raúl Zibechi, nascido el 25 de janeiro de 1952 em Montevideu, é um escritor e ativista uruguaio, dedicado ao trabalho com movimentos sociais na América Latina.
Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/609063-licoes-da-revolta-na-colombia-artigo-de-raul-zibechi
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