
Eleonora de Lucena – 31 Março 2021
Imagem: Bolsonaro e Generais| Imagem: Combate Racismo Ambiental
Ou seja, uma vez mais, o senhor Bolsonaro ficou sem pão nem pedaço, e agora deverá ser colocado na cadeirinha de castigo simultaneamente pelas FFFA e pelo Centrão.”
“Do jeito que as coisas estão e com a velocidade que está tomando a pandemia, a destruição econômica e a miséria da população, acho que muito mais cedo do que tarde o próprio Centrão abandonará o barco, e neste caso é muito provável que tomem o caminho do impeachment.
Mas, se as coisas tomarem este caminho, acho que antes os próprios militares se encarregarão de retirar esse senhor da Presidência, obrigando-o a renunciar ou o levando para ser internado”.

José Luís Fiori, (Foto: Tuameia), professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Economia política Internacional (PEPI), coordenador do GP da UFRJ/CNPQ “O poder global e a geopolítica do Capitalismo”, coordenador adjunto do Laboratório de “Ética e Poder Global”, pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (INEEP), autor de “O Poder global e a nova geopolítica das nações”, “História, estratégia e desenvolvimento” e “Sobre a Guerra“.
A entrevista é de Eleonora de Lucena, publicada por Tumatéia, 30-03-2021.
Eis a entrevista.
O que significam as mudanças ministeriais do governo Bolsonaro?
Uma grande derrota do senhor Bolsonaro, seguida de um erro de cálculo clamoroso e passo em falso.
O pano de fundo dessas mudanças é conhecido, e quase não precisa ser relembrado:
- a soma da catástrofe sanitária com o descalabro econômico, o isolamento internacional
- e a desintegração moral da sociedade brasileira.
Mas, do meu ponto de vista, a mudança ministerial propriamente dita teve como objetivo
- encobrir a grande derrota do governo,
- que foi a demissão imposta do ministro de Relações Exteriores, o senhor Ernesto Araújo.
As pessoas talvez não avaliem a importância deste senhor para o governo Bolsonaro, e por isso também não consigam avaliar o tamanho do tombo que a saída do chanceler representou para o governo.
Independentemente de tratar-se de um idiota quase inconcebível,
- o senhor Ernesto foi colocado onde estava para ter conexão direta com o governo de Donald Trump
- e como uma âncora capaz de assegurar o capitão contra as tempestades que ameaçariam seu governo, cuja ignorância e incompetência eram de pleno conhecimento do governo americano.
Este contribuiu decisivamente para o golpe de Estado de 2016, e depois participou da operação de instalação do senhor Bolsonaro na Presidência do Brasil, mesmo sabendo que se tratava de uma pessoa inteiramente inepta e insana.
Além disso, Ernesto era o membro mais “ilustrado” da extrema-direita bolsonarista.
No meio desta militância,
- Ernesto fazia papel do sábio idiota capaz de formular as idiotices ideológicas da extrema-direita em linguagem de “clube literário”.
- Sua importância nesse grupo era tão grande que mesmo depois da derrota de Donald Trump, a decisão era mantê-lo no governo.
Já o Salles (ministro do Meio Ambiente – NdR)
- não passa de um lobista e pode ser escanteado a qualquer momento sem maior custo para o governo;
- e o próprio senhor Guedes deve ser desembarcado em breve,
- trocado por qualquer outro desses “gênios do mercado” que pululam pelas esquinas da Faria Lima e pelas páginas da imprensa conservadora.
A saída do “chanceler apocalíptico”, no entanto, teve, tem e terá um peso muito diferente na história deste governo.
- Por isso foi necessária uma pressão gigantesca de vários grupos de interesse e um golpe final do Senado brasileiro para enxotá-lo do governo contra a vontade do senhor Bolsonaro.
- E foi essa grande derrota que colocou Bolsonaro de joelhos e o levou a essa mudança ministerial, que não passaria de mais uma pantomima ridícula do capitão ofendido
- se não fosse o fato de que desta vez cometeu vários erros de cálculo estratégico que poderão ser definitivos para o futuro do seu governo.
A mudança ministerial propriamente dita teve como objetivo encobrir a grande derrota do governo, que foi a demissão imposta do ministro de Relações Exteriores, o senhor Ernesto Araújo – José Luís Fiori – Tweet
Que erros foram estes, e como o senhor avalia os novos ministros?
O primeiro grande erro do senhor Bolsonaro
- foi ter “aberto o jogo” antes do tempo, deixando que todos vissem que não dispõe neste momento de mais do que um “par de setes’’, como se diria no jogo de pôquer.
- Sofreu uma grande derrota e tentou ocultá-la com uma grande ofensiva e acabou parindo um rato,
- e além disto todos viram que ele não dispõe de mais ninguém disposto a ir para seu governo que não sejam figuras inteiramente desconhecidas e despreparadas,
- saídas da roda íntima de sua família e de suas tertúlias e churrascos de quintal nos fins de semana tediosos de Brasília.
O que ele fez foi um troca-troca com seus militares de pijama e de confiança, e trouxe três pessoas novas com quem pouco menos que tropeçou no corredor:
- um funcionário do cerimonial do palácio que foi alçado à condição de novo ministro de Relações Exteriores,
- sem nunca ter sido embaixador ou feito uma carreira diplomática.
Numa escolha do tipo “se não tem outro, vai tu mesmo”, de uma pessoa que
- não tem currículo,
- abandonou a carreira diplomática
- e dedica-se a ensinar “boas maneiras’ ao pessoal do Palácio,
- além é óbvio de ser amigo de um dos “filhos presidenciais”, e de ser um pouco mais “diplomático” que o Ernesto.
Para o Ministério da Justiça,
- trouxe um delegado de polícia de Brasília mesmo,
- da “bancada da bala”
- e obviamente amigo de mais um de seus filhos.
E para a Secretaria de Governo,
- indicou uma deputada que está no seu primeiro mandato, também por Brasília
- e que foi indicada pelo presidente da Câmara,
- tendo sido eleita na vaga do seu marido que estava preso ou sob julgamento por ocasião das eleições.
E seu principal título, segundo dizem,
- é saber organizar a distribuição dos recursos do Orçamento entre os pedidos e favores dos membros do Centrão,
- isto é, sem demérito de uma pessoa que não conheço,
- ser a secretária do presidente da Câmara junto ao Gabinete da Presidência e junto ao caixa do Orçamento da República.
Como se pode ver, um grupo inteiramente mambembe, mas que deixa claro que
- neste momento a capacidade de convocação do senhor Bolsonaro é próxima de zero,
- no meio das elites políticas e econômicas da própria direita brasileira.
Além disso, ao precipitar-se no seu movimento reativo e vingativo,
- acabou atingindo um grande amigo e velho seguidor, o ministro da Defesa,
- que foi defenestrado sem maior complacência exatamente por ser militar e ter que obedecer em silêncio.
Mas com isto o senhor capitão deixou claro
- que não tem lealdade nem com seus amigos mais fiéis e leais,
- o que o deixa completamente só,
- uma vez que não tem partido político nem qualquer grupo de apoio que não sejam seus filhos e apaniguados de quintal.
Por fim, Bolsonaro abriu seu jogo com relação às FFAA,
- e com isso deverá precipitar um processo de separação entre a turma da farda e a turma do pijama.
- Decidiu agredir o comandante e chefe do Exército e o mais provável é que provoque um fechamento de posição da oficialidade das três Armas em torno da posição defendida pelo General Pujol.
Ou seja, uma vez mais, o senhor Bolsonaro ficou sem pão nem pedaço, e agora deverá ser colocado na cadeirinha de castigo simultaneamente pelas FFFA e pelo Centrão.
Bolsonaro ficou sem pão nem pedaço, e agora deverá ser colocado na cadeirinha de castigo simultaneamente pelas FFFA e pelo Centrão – José Luís Fiori – Tweet
Os novos ministros: o que significam, que força têm e trazem?
Como já disse: não têm força nenhuma e não trazem nada de novo. Pelo contrário,
- sinalizam um ponto de inflexão negativo e o início de uma ladeira
- por onde deverão rolar daqui para frente, o capitão e seus poucos apaniguados, em meio à catástrofe sanitária, econômica e moral do país.
E o Centrão, como fica nessa história e no futuro que o senhor está anunciando?
A primeira questão é saber em que consiste exatamente esse grupo parlamentar que a imprensa apelidou de “Centrão”?
E todo mundo sabe que se trata de
- um aglomerado de pessoas e siglas que ocupam em geral o submundo fisiológico do Congresso Nacional,
- representando interesses e demandas individuais ou grupais localizadas e heterogêneas.
- O grupo de onde saiu o senhor Bolsonaro depois de permanecer ali durante 28 anos sem dizer ou fazer coisa alguma.
Este grupo parlamentar, ou a maior parte de seus membros atuais,
- já fez parte da “base de apoio” do governo de FHC,
- o governo Lula, do governo Dilma, do golpe do Temer
- e agora estão embarcando e tomando conta do governo do senhor Bolsonaro, que eles sabem que é uma “canoa furada”’
- mas de onde desembarcarão correndo logo que percebam que está afundando definitivamente.
Em síntese,
- esse grupo parlamentar sempre esteve e estará pendurado em qualquer governo que (se submeta às) suas reivindicações locais e corporativas.
O problema é que esse grupo
- não tem a menor condição, interesse ou capacidade autônoma de constituir ou sustentar um governo por sua própria conta,
- nem muito menos definir algum projeto coerente e nacional para o país.
Sua mais completa heterogeneidade de interesses impede que dali nasça
- qualquer tipo de ideia mais inteligente e unitária,
- ou qualquer objetivo que envolva todo o país,
- para além de suas causas individuais ou corporativas.
A participação dos militares neste governo, e mais recentemente, a catastrófica gestão do general da ativa, Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde, vem atingindo pesadamente o prestígio das FFAA e sua fama de “salvadores da pátria” – José Luís Fiori – Tweet
Qual o papel dos militares, como fica sua imagem e qual o futuro da relação do governo com as FFAA?
Aqui é onde o erro do capitão trará consequências mais difíceis de serem administradas, porque, na prática,
- seu governo é um governo militar
- – ou pelo menos é um governo dos militares que tomaram conta da maioria de seus ministérios e cargos comissionados –
- que agora está procurando estabelecer uma aliança com o “Centrão”,
que, como já vimos,
- é um amontoado de siglas que compõem um bloco parlamentar unificado pelo seu denominador comum, o “fisiologismo”
- que sempre foi objeto das críticas políticas e morais dos militares.
A participação dos militares neste governo, e mais recentemente, a catastrófica gestão do general da ativa, Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde,
- vem atingindo pesadamente o prestigio das FFAA
- e sua fama de “salvadores da pátria”.
Esse despreparo e incompetência vêm sendo demonstrados
- pelo capitão que ocupa a Presidência,
- pelo inominável ministro da Saúde que acaba de sair e por uma lista sem fim de personalidades que vão do hilário – como é o caso do ministro de Ciência e Tecnologia – ao absolutamente desastroso –
- como é o caso dos responsáveis pela segurança institucional do presidente,
- incapazes de localizar um pacote de 39 kg de cocaína dentro do avião presidencial.
Imagina se fosse uma bomba, provavelmente atribuiriam a culpa aos comunistas…
Mas, afinal, esta experiência governamental lamentável dos militares talvez possa ter alguma consequência positiva,
- porque está cada vez mais forte dentro da oficialidade brasileira a convicção de que cabe aos militares uma função de Estado e de defesa da nação,
- e não a função de governar ou sustentar um governo que carece inteiramente de quadros que não sejam os amigos dos filhos e da família em geral do senhor Bolsonaro.
E na própria sociedade cresce cada vez a consciência de que os militares
- até podem ser homens de boa vontade e boas intenções,
- mas que foram treinados para tratar de canhões, navios, cavalos ou aviões de guerra,
- muito mais do que de ciência, educação, saúde, arte, infraestrutura, ou mesmo de tecnologias de ponta,
- para não falar do seu mais absoluto despreparo com relação à vida política dos partidos e dos demais poderes da República, com seus respectivos deveres e obrigações.
Neste ponto é que muitos podem estar se equivocando, ao pensar que
- Bolsonaro tomou conta das FFAA ao deslocar seu amigo para o Ministério da Defesa
- e ejetar os comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica.
Do meu ponto de vista, ao contrário, o que ele conseguirá com sua desastrada movida é separar definitivamente as FFAA do seu governo, criando um fosso que deverá aumentar, deixando-o cada vez mais isolado.
Mas, ao mesmo tempo, permitirá que talvez as FFAA
- aprendam de uma vez por todas que o melhor mesmo é manter-se nos quartéis
- e não voltar a se meter numa aventura como esta em que se envolveu o General Villas-Boas, levando atrás de si a maior parte do oficialato brasileiro.
Esse deslocamento geológico que está em pleno curso talvez explique a distinta receptividade que tiveram o famoso tweet de Villas-Boas em 2018 e a nota apagada, antiquada e inteiramente deslocada que seu amigo de longa data e de larga tradição familiar golpista postou no dia 29 de março no site do Clube Militar.
As coisas estão mudando,
- e talvez esteja chegando a hora da turma de pijama desfrutar as suas aposentadorias
- e deixar de escrever notas iradas nas redes sociais ou corporativas.
O que ele [Bolsonaro] conseguirá com sua desastrada movida é separar definitivamente as FFAA do seu governo, criando um fosso que deverá aumentar, deixando-o cada vez mais isolado – José Luís Fiori – Tweet
Qual o cenário futuro que o senhor vê para a crise sanitária e econômica? E para o próprio presidente Bolsonaro, o senhor acredita na possibilidade de sua reeleição?
Eu acho que discutir a eleição do ano de 2022 neste momento é uma completa insensatez.
O país está inteiramente desgovernado em meio à maior crise sanitária de sua história, e está assistindo a paralisia e destruição de sua economia, e da própria infraestrutura física, com
- o fechamento de milhares de empresas,
- saída de capitais cada vez mais acelerada
- e tudo isto sobre o cadáver de mais de 300 mil brasileiros e cerca de um milhão e meio de brasileiros atingidos pela perda de seus entes queridos e muitas vezes responsáveis pelo sustento de famílias inteiras.
Este é o grande desafio colocado hoje na frente dos brasileiros. Falar ou calcular a próxima eleição presidencial agora é no mínimo uma postura desumana, pouco solidária, pouco patriótica.
E pior ainda, de um humor macabro é falar ou discutir a reeleição do grande responsável pelo morticínio que está acontecendo na frente de nossos olhos.
- Por isto me parece extraordinário que a imprensa e grande número de analistas gastem tempo com este tema;
- e pior, considerem que é possível reeleger esse senhor que está sentado em cima da própria tragédia do seu povo e e costuma debochar disto.
Eu te diria, talvez na contramão de muito colegas,
- que não há a menor possibilidade de este senhor se reeleger depois dessa catástrofe.
- Deve se dar por satisfeito se conseguir chegar até o final do mandato, coisa que está ficando cada vez mais difícil, e por culpa dele próprio.
As manifestações recentes de empresários, banqueiros, economistas e intelectuais do centro e da direita mais conservadora indicam que a velocidade da perda de apoio deste governo é cada vez maior.
O país está inteiramente desgovernado em meio à maior crise sanitária de sua história, e está assistindo a paralisia e destruição de sua economia, e da própria infraestrutura física, com o fechamento de milhares de empresas, saída de capitais cada vez mais acelerada e tudo isto sobre o cadáver de mais de 300 mil brasileiros – José Luís Fiori – Tweet
Bolsonaro pode sofrer impeachement ou ser forçado a renunciar?
Do jeito que as coisas estão e com a velocidade que está tomando a pandemia, a destruição econômica e a miséria da população, acho que muito mais cedo do que tarde o próprio Centrão abandonará o barco, e neste caso é muito provável que tomem o caminho do impeachment.
- Mas se as coisas tomarem este caminho,
- acho que antes os próprios militares se encarregarão de retirar esse senhor da Presidência,
- obrigando-o a renunciar ou levando-o para ser internado.
Do jeito que as coisas estão e com a velocidade que está tomando a pandemia, a destruição econômica e a miséria da população, acho que muito mais cedo do que tarde o próprio Centrão abandonará o barco, e neste caso é muito provável que tomem o caminho do impeachment – José Luís Fiori – Tweet
Como explicar o apoio popular que o capitão ainda tem e terá no futuro?
Creio que Bolsonaro ou qualquer outra pessoa que encarne sua mensagem de ódio, ressentimento e destruição sempre haverá no Brasil e em outros países, algo em trono de 20% da população.
Bolsonaro tinha algo em torno de 20% nas eleições de 2018,
- antes que tivesse início a operação nacional e internacional, política, jurídica, militar e midiática
- que o conduziu à Presidência
- E hoje seu núcleo de apoiadores fiéis deve estar de novo na casa destes 15-20%.
- E não me parece provável que a velha direita conservadora possa voltar a apoiar esse senhor depois desta verdadeira tragédia que tem sido sua passagem pelo Palácio da Alvorada,
- onde ainda consegue debochar das vítimas da pandemia mesmo depois dos seus 320 mil mortos até o momento.
Uma outra coisa é saber como ele mantém o apoio fanático desses 15-20% de brasileiros. Acho que esta questão é complexa e remete a várias linhas possíveis de explicação.
- Porque explicar a necrofilia do capitão não é difícil;
- difícil é explicar a adesão necrofílica de seus seguidores.
Na verdade, este caso sempre me faz relembrar o famoso suicídio coletivo dos fiéis do Pastor Jones, na Guiana, em 18 de novembro de 1978. Também naquela ocasião
- foi mais fácil para jornalistas e psicanalistas explicarem o suicídio individual do pastor Jones,
- muito mais do que o suicídio coletivo de centenas de seguidores fanatizados que se mataram junto com seu líder num ritual macabro,
- no qual as crianças que resistiram foram mortas por seus próprios pais ou pelos ajudantes do pastor, antes de estes também se suicidarem.
Que peso o senhor atribui à volta de Lula ao cenário brasileiro, com a recuperação dos seus direitos políticos?
Enorme, por razões objetivas e também por razões psicológicas. Lembro de uma entrevista que fizemos há exatamente dois anos, na semana de posse do senhor Bolsonaro, e naquela ocasião eu disse para você que, do meu ponto de vista,
- Lula foi eliminado da vida política (e aqui cito a mim mesmo naquela entrevista de janeiro de 2019)
- “porque as forças que sustentaram o capitão, na fase final de sua campanha, sabiam que seria impossível elegê-lo se Lula estivesse livre.
E agora, estas mesmas forças temem que o senhor Bolsonaro não consiga manter a compostura e interpretar o papel de governante, caso o ex-presidente apareça na sua frente livre, e de volta à liderança da oposição brasileira”.
Pois bem, foi exatamente isso que aconteceu dois anos depois, quando Lula fez seu discurso de reentrada na vida política legal do país. Tudo indica que
- o capitão perdeu inteiramente o que ainda lhe restava do pouco juízo que tem,
- e esta é uma das razões fundamentais por que demitiu seu amigo e ministro da Defesa, e resolveu demitir o General Pujol,
- porque estes decidiram não repetir o caminho do senhor Villas Boas, e não contestaram a recente decisão do STF que devolveu os direitos políticos aos ex-presidente Lula.
Independentemente do que faça ou deixe de fazer no futuro imediato, a reentrada de Lula
- redefiniu os parâmetros da vida política nacional, e todas as forças em presença começaram a se manifestar e fazer suas opções.
- Por outro lado, a oposição voltou a ter uma referência comum e um vetor capaz de atingir em cheio o desgoverno do país.
Lula é uma pessoa que
- tem uma inteligência estratégica, um carisma e uma relação afetuosa com a população brasileira, mesmo com seus opositores,
- que é uma coisa inalcançável para uma pessoa odiosa, odienta e inteiramente desprovida de empatia com seu próprio povo, como é o caso desse senhor Bolsonaro.
A reentrada de Lula redefiniu os parâmetros da vida política nacional, e todas as forças em presença começaram a se manifestar e fazer suas opções. Por outro lado, a oposição voltou a ter uma referência comum e um vetor capaz de atingir em cheio o desgoverno do país – José Luís Fiori – Tweet
Qual o peso da derrota de Trump no enfraquecimento do governo de Bolsonaro?
Muito grande, porque atingiu em cheio a articulação da extrema-direita internacional que se utilizava do capitão através de seus filhos.
- Muitos até imaginaram que o capitão Bolsonaro poderia substituir Trump e tornar-se o novo líder da extrema-direita mundial.
- Mas o próprio Steve Bannon sabe perfeitamente que o capitão não tem estatura intelectual e política indispensável para desempenhar esse papel.
- E não haveria como sustentar esta ficção oficializando seu papel de marionete de seus filhos, até porque eles também não conseguem falar abertamente e se escondem sempre atrás de seus robôs.
Qual o papel futuro das FFAA?
Retomar e aceitar sua função constitucional e ajudar a encerrar esse episódio lamentável da história brasileira, antes de voltar definitivamente para os quartéis.
Como irá a direita se relacionar com Bolsonaro nas próximas eleições?
Não é improvável que se desfaça dele antes das eleições, para poder ocupar este espaço da direita, e mesmo da extrema-direita, com um candidato mais próximo da racionalidade cartesiana e de suas convicções liberal-cosmopolitas.
Quais as tarefas mais urgentes da oposição neste momento?
- Ajudar o povo brasileiro a enfrentar e superar este momento terrível da sua história,
- propondo medidas parlamentares que possam atenuar o sofrimento da população, o desemprego e a morte de milhares de brasileiros ainda este ano e no próximo.
- Unir-se e fazer oposição ferrenha a esse governo, para impedir a desintegração completa das redes de sociabilidade que ainda mantém o Brasil unido,
- e somar forças para que nunca mais volte a acontecer no Brasil uma tragédia dessas proporções.

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Eleonora de Lucena
Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/607992-o-fim-do-capitao-ficou-mais-proximo-entrevista-com-jose-luis-fiori
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