
José Alcimar de Oliveira* – 28 março 2021 – Imagem: Reprodução
A fala conquista o pensamento, mas a escrita o domina (Walter Benjamin)
A mentira ontológica que Satanás objetivou em seu tempo hoje circula sob o disfarce da pós-verdade.
1. Segundo o registro bíblico do teólogo João, autor do quarto evangelho, a única paternidade autoral atribuída a Satanás é a da mentira.
O autor que imprime força ontológica à compreensão acerca do ser diabólico é Jesus de Nazaré, formado na Escola Samaritana da Galileia:
- “Por que não reconheceis minha linguagem? É porque não podeis escutar a minha palavra.
- Vós sois do diabo, vosso pai, e quereis realizar os desejos de vosso pai.
- Ele foi homicida desde o princípio e não permaneceu na verdade, porque nele não há verdade: quando ele mente, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira (Jo 8,43-44).
Noutros termos, ele não mente por acidente.
- Mente porque a mentira é constitutiva de sua essência.
- É ontologicamente mentiroso.
2. Não há registro de que na Escola Samaritana da Galileia, situada num pequeno vilarejo, de má fama, chamado Nazaré,
- Jesus tenha tido acesso aos estudos freudianos,
- e muito menos estabelecido contato com o materialismo messiânico de outro judeu, de nome Walter Benjamin.
- O teólogo João muito menos.
Sabe-se que João tinha razoável conhecimento da Filosofia Antiga Grega, da qual hauriu sua compreensão do logos, com o qual estrutura o mais poético dos evangelhos.
O logos é seguramente o mais fecundo conceito do período socrático, pré e pós.
À época em que João redigiu o quarto evangelho
- não há registro do conceito subontológico de pós-verdade.
- Se houvesse, o teólogo samaritano de Nazaré provavelmente, ao referir-se ao homicida, teria dito: é o pai da mentira e da pós-verdade.
3. João parece dar uma indicação de que
- o teólogo de Nazaré, mesmo sem contato com o pensamento de Marx, Freud e Benjamin,
- intuía de forma ontológica o que havia, de bom e de mau, no coração humano.
Há um registro de João que dá a medida da sabedoria intuitiva de Jesus de Nazaré:
- itinerante que era, certa vez foi a Jerusalém para a festa da Páscoa
- e lá, diante de uma multidão atraída pelos sinais que fazia, uns ostensivamente a declarar crença no seu nome, outros a manifestar uma adesão pouco convincente ao seu anúncio,
- tem-se que o episódio mobilizou de tal modo a fina observação do evangelista que o levou a registrar:
“Mas Jesus não tinha confiança neles, porque os conhecia a todos e não necessitava que lhe dessem testemunho sobre o homem, porque ele conhecia o que havia no homem” (Jo 2,24-25).
A mentira ontológica que ele objetivou em seu tempo hoje circula sob o disfarce da pós-verdade.
4. Avesso à mentira,
- Kant igualmente rejeitaria a tal da pós-verdade, seu caráter eufemístico e nocivo às referências ontológicas,
- sem as quais a humanidade se dissolve num presente sem história e sem memória.
A este propósito, Kant condicionava a resposta à pergunta “o que é o homem?” a três interrogações prévias:
- o que posso conhecer?,
- o que devo fazer?
- e o que me é permitido esperar?
Estas perguntas estão na base de seu edifício crítico.
- A mentira encanta, move, atrai, excita.
- E aliada ao medo, multiplica seu poder sobre as mentes fanatizadas.
- A isso Reich denomina de peste emocional da humanidade.
E seria um erro associar tal peste às classes subalternizadas.
- O seu Zé Ninguém é da genealogia do lumpesinato, refratário às causas coletivas e à luta de classes.
- É a medianidade ressentida, trânsfuga e envenenada pelo ódio ao conhecimento.
5. Seria um equívoco epistemológico atribuir às redes sociais a emergência do imbecil mediático e inimigo das mediações, da teoria, da reflexão.
O apóstolo Paulo refere-se à estranha figura do “Príncipe do poder do ar” (Ef 2,2).
A despeito de agregar vários nomes, este Príncipe só aparece uma vez em todo o texto bíblico.
- Mesmo nos tempos paulinos, com limitados dispositivos mediáticos,
- o alcance de sua ação pervertida já mobilizava de forma coletiva corações e mentes.
Afinal, para os antigos
- era no ar que se abrigavam os espíritos demoníacos,
- todos sob as ordens de Satanás, o Príncipe do poder do ar.
Hoje, com a mediatização das relações sociais,
- o poder do Príncipe da perversão
- se multiplica por mãos e mentes anônimas e fidelizadas pelo fanatismo.
6. As redes sociais embalam, sob anonimato, o fascista mediático e lhe garantem curso para a organização política do ódio.
O ódio organizado como política não é um acidente, mas um constitutivo essencial do fascismo.
- O ódio estigmatizante, combinado ao medo, subtraem à palavra seu poder crítico, reflexivo e ontológico.
- Convertida em palavra de ordem e assepsiada de dúvida, a palavra conquista e enfeitiça o pensamento.
- A palavra de ordem é mobilizada para tornar proscrita a escrita.
Sem a arte e o poder da escrita não haverá domínio sobre o pensamento, que seguirá dominado pela palavra de ordem.
- Por isso o imbecil mediático é refratário à arte da escrita.
- Ele odeia a escrita e, por consequência, a filosofia.
- A escrita se inscreve como um dos fatores que favoreceram o nascimento da filosofia na Grécia Antiga.
7. Num breve e denso texto filosófico, A técnica do escritor em treze teses, Walter Benjamin recomenda:
“Não deixe nenhum pensamento passar incógnito e mantenha seu caderno de notas tão rigorosamente quanto a autoridade constituída mantém o registro de estrangeiros”.
A aversão à escrita, que se intensifica nas redes sociais, se manifesta na forma limitada como a fala, mesmo transposta para escrita, ainda permanece no nível rebaixado da fala. Há um grau qualitativo no devir da fala à escrita. A escrita imprime estatuto ontológico à fala. A escrita qualifica a fala. Somente quando submetidos ao filtro da escrita, é possível remover o preconceito, a mentira, a palavra de ordem, que tendem a se mover em regime de incontinência no transcurso da fala.

* José Alcimar de Oliveira
é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, teólogo sem cátedra e filho do cruzamento dos rios Solimões e Jaguaribe.
Fonte: Enviado pelo autor, via e-mail.