UMA PÁSCOA DO MUNDO

Você sabe qual o verdadeiro significado da Páscoa Cristã? - Nossa Sagrada Família

Frei Bento Domingues, O.P., 28 Março 2021 – Imagem:  DAQUI

O modo como é entendida e vivida a Páscoa cristã depende de cada um e das Igrejas em que se reconhecem.

 

1. Entramos na Semana Santa ou, como já foi usual dizer, na Semana Maior.

  • Os acontecimentos que estão na origem das várias correntes e expressões do movimento cristão dividiram o tempo:
  • antes e depois de Cristo, a partir do seu nascimento.

Esta era cronológica (Era Cristã ou Era Comum) é globalmente adoptada, mesmo em países de cultura maioritariamente não cristã, para efeitos de unanimidade de critérios em vários âmbitos, como o científico e o comercial.

Nem todos os países seguem o calendário ocidental.

Contudo, tornou-se o padrão internacional, sendo reconhecido por instituições como a ONU ou a União Postal Universal, por razões conhecidas.

O modo como é entendida e vivida a Páscoa cristã depende de cada um e das Igrejas em que se reconhecem. Na Europa, já não estamos em regime de Cristandade.

  • A separação entre Igrejas e Estado está felizmente consumada em muitos países,
  • mas a ignorância das próprias tradições religiosas parece-me, culturalmente, lamentável.

As pessoas da minha idade já conheceram várias formas de entender e viver o Tempo Pascal.

Em certas zonas do país, procura-se reconstituir, por devoção e louváveis razões culturais, ecos da Semana Santa como a viviam os nossos avós.

Entretanto, Portugal vai mudando. De ano para ano, por causa da desertificação do interior rural e da alteração cultural e religiosa do país, a Semana Santa tem significações muito diferentes conforme as comunidades humanas. Os calendários religiosos refletem a diversidade religiosa[i].

  • Escrevo a partir do interior da Igreja Católica que tem um pormenorizado ritual das celebrações pascais.
  • A configuração que essas celebrações assumem – segundo as paróquias, os movimentos e as congregações religiosas – pode ser muito diferente.

Para quem dispõe de meios de deslocação, tem a possibilidade de fazer algumas escolhas, embora os textos litúrgicos sejam, fundamentalmente semelhantes, fruto de selecções bíblicas.

O modo como está distribuída a encenação da Semana Santa, supõe que Jesus tinha manifestado ruidosamente a sua oposição ao sistema económico, social, político e religioso, organizado em torno do Templo de Jerusalém. Esse sistema teocrático era, para Ele, um engano escandaloso, pois não passava de uma sacralização de negócios.

 

2. O Domingo de Ramos, segundo os quatro Evangelhos, evoca um acontecimento paradoxal que se vai radicalizar no tríduo pascal:

  • a recusa do messianismo político e do reinado político de Deus,
  • a recusa da teocracia.

No Domingo de Ramos, a resposta de Jesus à manifestação popular, que o evocava como incarnando «o reino do nosso pai David», parece ridícula:

  • um rei não se apresenta montado num jumentinho.
  • Tem de mostrar grandeza na trepidação dos cavalos do exército.

Um rei de jumentinho está a mostrar que o seu reinado é de outra ordem, de ordem desconhecida, muito humilde.

Tudo isto vai ser explicitado num eloquente diálogo de surdos, encenado por S. João, que importa ler devagar e meditar na revolução religiosa e política que encerra.

Continua ainda hoje inquietante, indicando que

  • o mundo todo precisa de uma grande Páscoa,
  • de morrer ao império do eu,
  • renascendo para um mundo de irmãos.

Retenhamos este fragmento da longa narrativa da Paixão: Quando Jesus foi preso e levado a tribunal pelas autoridades judaicas, que o entregaram ao poder romano, Pilatos quis saber qual era a acusação.

  • Depois de várias movimentações, perguntou a Jesus: Tu és rei dos judeus
  • Respondeu-lhe Jesus: Tu perguntas isso por ti mesmo ou porque outros to disseram de mim? 
  • Pilatos replicou: Serei eu, porventura, judeu? A tua gente e os sumos sacerdotes é que te entregaram a mim! Que fizeste?
  • Jesus respondeu: o meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas teriam lutado para que Eu não fosse entregue aos judeus. Agora, o meu reino não é daqui.
  • Disse-lhe Pilatos: Então, Tu és rei?
  • Respondeu-lhe Jesus: tu dizes que sou rei. Para isto nasci, para isto vim ao mundo, para dar testemunho da Verdade. Todo aquele, cujo ser é da Verdade, ouve a minha voz. 
  • Diz-lhe Pilatos: o que é a verdade?

E, tendo dito isto, de novo saiu ao encontro dos judeus e diz-lhes: eu não encontro qualquer culpa nele[ii].

Hoje, fala-se muito, pratica-se pouco, da chamada política de transparência, mas até as manobras da transparência podem ocultar a verdade.

 

3. Como vimos, S. João marcou a recusa messiânica do poder político em nome de Deus. Para o filósofo Jean-Luc Nancy, existe actualmente uma epidemia teocrática para atacar a democracia[iii].

A cartografia deste procedimento

  • começa na Índia, “obviamente”,
  • prossegue no Japão onde o ex-primeiro-ministro Shinzo Abe tinha multiplicado os sinais de entrelaçamento do Estado com o xintoísmo, mesmo tendencialmente de um retorno à divindade anterior do imperador.
  • A seguir, vem a Turquia, onde se verificou a reapropriação muçulmana de Hagia Sophia (Santa Sofia) em Istambul, símbolo de toda uma política.
  • A lista inclui ainda a Birmânia, onde a resistência do Estado ao budismo nacionalista e violento não impede a progressão desta corrente, à qual o novo governo é mais favorável do que o anterior (que não evitou a perseguição aos muçulmanos).

Jean-Luc Nancy nota que fenómenos semelhantes estão a surgir

  • na Tailândia e no Camboja, onde o budismo theravada já é a religião oficial.
  • Também a recente lei israelita do “Estado judeu”,
  • as relações do Estado russo com a religião ortodoxa
  • e do Estado húngaro com a Igreja Católica

inscrevem-se nesta tendência. O mapa da “epidemia teocrática”

  • regista a ascensão política dos evangelistas nos Estados Unidos ou no Brasil –
  • incentivada e elogiada por Trump e Bolsonaro”.

O filósofo conclui com uma referência às agitações fundamentalistas cada vez mais barulhentas, por parte, por exemplo, dos católicos franceses.

A instrumentalização religiosa é um abuso. Para o citado filósofo, uma religião digna desse nome não consiste num esforço para reactivar um passado, mas num fervor novo, criativo.

O que, todavia, se verifica é que

  • a avidez religiosa dos manipuladores políticos (e mercantis)
  • pretende reactivar passados distorcidos e truncados,
  • submetidos às necessidades da causa.

A teocracia, que mais ou menos assombra a epidemia actual – e sempre em oposição à democracia –, não é necessariamente o espírito das religiões invocadas.

A democracia ainda não é o regime das estruturas do poder, na Igreja Católica. O Papa Francisco sonha e luta pela morte dos poderes de opressão e pela ressurreição de um mundo de irmãos.

Páscoa da Igreja e Páscoa do Mundo!

 

Notas:

[i] Alfredo Teixeira (org.), Identidades Religiosas em Portugal, Paulinas, 2012

[ii] Cf. Jo 18, 28-38; ver também Jo 12, 20-36

[iii] Cf. 7Margens, Eduardo Jorge Madureira, Jean-Luc Nancy contra a manipulação religiosa do poder, 15. 03. 2021. Não reproduzi na íntegra.

 

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Frei Bento Domingues, O.P.

Fonte:  https://www.publico.pt/2021/03/28/opiniao/noticia/pascoa-mundo-1956029

 

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